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Pontos de Partida, o Blog do Fernando Molica

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outubro 2008 Archives

Patinhos na Lagoa

separador Por Fernando Molica em 31 de outubro de 2008 | Link | Comentários (5)

IMG_0092.JPGIMG_0095.JPGComo diria o velho Leonel Brizola, algo há na alma feminina (quando o Brizola não sabia dizer as razões de suas desconfianças, afirmava simplesmente: "Algo há!"). Cresci ouvindo dizer que as mulheres eram mais sensíveis, delicadas, atentas a um universo menos racional e lógico. Nós, homens, seríamos os brutos, os trogloditas.

Eis que. Outro dia, caminhando às margens da Lagoa, notei que dois sujeitos olhavam em direção ao espelho d´água. Segui o olhar de ambos e me deparei com uma cena bonita, curiosa: dois patos pretos adultos (possivelmente um casal) passeavam com vários patinhos (uns seis ou sete). Os grandões ainda dividiam pedaços de pão com os pequenos. Bonitinho, né? Saquei minha máquina e comecei a fazer fotos, pensando na coluna lá do Dia. Seria legal ter uma foto assim, quase lírica, um contraponto à violência da cidade e, mesmo, à sujeira da Lagoa.

Cheguei feliz à redação: "Já temos foto para amanhã!". Expliquei do que se tratava para a Daniella, jovem repórter que trabalha comigo. Resposta da moça:

- Que coisa de boiola, Molica!

Fiquei com com cara de pato. Insisti. Como as fotos não estavam assim tão boas - na pressa usei o zoom ótico, que é uma porcaria -, decidi não publicá-las. Mas continuei gostando delas. À noite, mostrei o material para outras duas mulheres. A reação foi mais ou menos a mesma:

- Que coisa de viado, hein!?!

Bem, aí vão algumas das fotos. E continuo tentando saber o que aconteceu com a tal da sensbilidade feminina.



Peito juvenil

separador Por Fernando Molica em 30 de outubro de 2008 | Link | Comentários (2)

caraspintadas[1].jpg
Jovem é um ser esquisito - já fui um deles, hoje convivo com dois aqui em casa. São meio estabanados, nos gestos e nas idéias. Uma linha reta quase nunca é o menor caminho entre dois pontos. Às vezes, como diz meu querido amigo e compadre Oscar Valporto, agem como o jovem Super-Homem: como não sabem a força que têm, arrancam a maçaneta na hora de abrir a porta, derrubam uma parede ao nela se apoiarem. Outras vezes, nos surpreendem com sua fragilidade.

Jovens, por serem jovens, por não estarem - quem bom! - acostumados com a vida com ela é, são capazes de articular algumas belas surpresas. Anteontem fiquei sabendo, já nem me lembro como, que garotas e garotos estavam organizando um protesto contra as eleições no Rio: estavam revoltados com práticas da coligação que derrotou Fernando Gabeira e achavam que a Justiça Eleitoral tinha que fazer algo.

Dei uma pesquisada e descobri uma comunidade no Orkut (chamada de "Pró-democracia") e um blog. Quando fui à comunidade, ela reunia cerca de 7.200 pessoas - resolvi fazer uma nota lá pro Informe do Dia. Na hora de concluir a dita cuja, o grupo já reunia umas 8.500 pessoas. Isso, em pouquíssimas horas (agora pela manhã são exatos 11.785). Eles preparam uma manifestação, nesta sexta, no Centro.

Não entro no mérito das razões do protesto. Mas não posso de deixar de achar legal e mesmo emocionante a iniciativa. É muito bom que a indignação, qualquer uma, se transforme em movimento, em articulação, em gestos. Mais legal ainda que isso seja feito por mecanismos que fogem ao tradicional (nas mais-que-legítimas manifestações dos caras-pintadas contra o Collor havia a presença de entidades estudantis, todas amarradas a partidos e tendências). Muita gente reclama da internet, acha que ela reforça uma tendência de isolamento. Essa articulação reforça que não: os meios virtuais podem ser usados para atos concretos, que ocorrem em praças reais, palpáveis. Isso de uma forma que transcende as organizações tradicionais: um dos lideres do protesto é um garoto de 17 anos que, no Orkut, aparece usando uma peruca de Johnny Bravo!

Pelo que li, os caras acham que foram enganados, que seus direitos não foram respeitados. Foram à luta e enfrentam os desafios de organizar uma manifestação. Colocam posições, brigam, divergem, são vítimas de tentativas de desmobilização, de algum terrorismo virtual. Mas estão lá, aprendendo e ensinando, como diria aquele velho compositor. Que se organizem, que protestem, que se dêem conta de suas possibilidades e de suas limitações. Que não deixem de lutar pelo que acham justo.


Zé Kéti. Quem?

separador Por Fernando Molica em 24 de outubro de 2008 | Link | Comentários (4)

zeketti.gif
Ontem, enrolado com o fechamento da coluna do Dia, fui surpreendido pela pergunta de uma jovem colega - tem 23 anos. Ela queria saber quem era Zé Kéti. É triste, mas não deixa de ser compreensível que ela não soubesse: o grande compositor morreu há quase dez anos e hoje é conhecido apenas por pessoas mais velhas ou pelos que freqüentam as boas rodas de samba. Não é o caso da minha colega.

Eu estava, repito, completamente enrolado com o fechamento, mas não resisti: aproveitei a deixa e comecei a cantarolar o genial e belíssimo "Mascarada", samba de Zé Kéti e Elton Medeiros (que volta e meia é magistralmente interpretado por Rosa Maria Araújo, presidente do MIS, na roda comandada por Aluísio Maranhão e Tutu). A letra do samba é linda, mas a melodia, cheia de variações, é espetacular, emocionante. Fiquei eu lá, para o espanto da moça, desafinando, errando a letra aqui e ali, mas tentando dar pelo menos um exemplo, ainda que de forma trôpega, da obra desse grande compositor.

O samba, cantado por Zé Kéti, pode ser ouvido aqui.


Por falar em Elton Medeiros e na grande amiga Tutu. Na segunda e terça tem um programão gratuito, uma homenagem ao centenário de Cartola: show de Élton no Teatro Nelson Rodrigues, na Avenida Chile. Começa às19h30. A Tutu, uma das mais cândidas pandeiristas do país, é uma das produtoras. Imperdível. Bom pra comemorar ou pra afogar as mágoas eleitorais. Afinal, Cartola, Zé Kéti, Elton Medeiros - e tantos e tantos outros - são maiores que todas essas confusões terrenas.


Luiz Carlos da Vila

separador Por Fernando Molica em 20 de outubro de 2008 | Link | Comentários (1)

Caramba, vou ter que registrar outra morte. Mas não dá pra ignorar que o grande Luiz Carlos da Vila morreu na manhã de hoje. Há cerca de um mês eu o vi no Renascença, ele chegou a cantar com o Nei Lopes. Dias depois, soube que ele estava internado. Pena. Para não me alongar muito: o cara foi um dos autores de um dos dez melhores sambas enredos do Carnaval, o "Kizomba", que ajudou a Vila a ganhar o campeonato de 1988.

É também autor de um clássico de rodas de samba, "O show tem que continuar" - belíssima composição que tratei de usar na trilha sonora (é, meus romances têm trilha sonora) do "Bandeira negra, amor". Quer ouvir? Clique aqui (com o próprio Luiz Carlos) ou aqui (com a Beth Carvalho).


El Cid

separador Por Fernando Molica em 18 de outubro de 2008 | Link | Comentários (1)

cid.jpgOntem, em meio à apuração de notas sobre a eleição aqui do Rio, fiquei triste ao saber da morte recente do publicitário Cid Pacheco, um dos meus melhores professores da ECO, a Escola de Comunicação da UFRJ. Pode parecer meio esquisito eu, jornalista, colocar um publicitário na lista dos melhores professores - mas não é.

Tive dois períodos de aulas com o Cid - o segundo deles, por opção. O cara era genial, ajudou a quebrar alguns dos meus preconceitos sobre publicidade, opinião pública, poder da mídia em geral. Lembro que, naquele início de anos 80, todos entusiasmados com a perspectiva de eleições para governadores, o Cid, que adorava sacanear aquele bando de simpatizantes de partidos de esquerda, provocou, num evidente e proposital exagero:

- Vocês ficam aí animados com eleições, mas quem manda no governo não é o governador, é aquela velhinha que, na repartição, deixa o público esperando enquanto come sanduíche de mortadela com guaraná na frente de todo mundo.

Foi o Cid que mostrou com clareza que a propaganda não antecipava nada, apenas pegava carona em hábitos e tendências da sociedade. Lembro que ele costumava defender anúncios que exploravam a sensualidade de mulheres e que, volta e meia, ainda causavam algum protesto:

- Isso (um anúncio, digamos, de jeans com uma mulher meio pelada) só é possível porque estavamos numa sociedade que aceita isso (e mostrava um exemplar da revista "Manchete" de carnaval, cheia de fotos de mulheres e travecos de peitos de fora).

Foi o Cid também que balançou o coreto (caramba, tô ficando velho. Ninguém aí deve saber o que é um coreto!) de algumas normas sobre hierarquia na produção cultural - de certa forma, ainda cultivávamos uma certa herança de um pensamento típico do CPC da UNE, aquela história de levar a supostamente boa cultura ao povo.

- Todo mundo tem o direito de gostar do que bem entender. Não adianta você dar um quadro do Mabe pro sujeito que quer um quadro com um laguinho, um barquinho e um pôr-do-sol. O cara tem o direito de gostar de um quadro com laguinho, barquinho e pôr-do-sol!

Nem sempre eu concordava com tudo o que o Cid dizia. Mas o cara cumpriu muito bem o papel de desarrumar idéias, de quebrar parâmetros. Num universo tão cheio de certezas como aquele - ainda discutíamos, e como!, a opção revolucionária para a ascensão do proletariado ao poder -, foi muito bom ter sido aluno do Cid. O mais engraçado - soube ontem - que nos últimos anos de vida, o cara foi pra Venezuela, virou marqueteiro do Hugo Chávez. Grande Cid!


Sexo!

separador Por Fernando Molica em 15 de outubro de 2008 | Link | Comentários (1)

Na entrevista publicada hoje em "O Globo", sobre seu manifesto contra o que considera pornografia na produção de cinema e TV, o ator Pedro Cardoso levanta uma questão bem interessante. Para ele, não cabe à obra de arte provocar sensações como a excitação sexual:

Acredito que a dramaturgia, que é arte de contar histórias, busca oferecer ao público um pensamento, e não uma sensação. Esta pertence à vida. É na vida que sentimos frio e fome; na arte, falamos do frio e da fome, se possível com alguma inspiração.

Não sei se é possível se fazer uma separação tão rígida. Ainda que concorde que há muito voyerismo motivado mais por razões comerciais do que por questões artísticas, acho complicado fazer uma condenação absoluta, não dá para dizer que não cabe à narrativa artística o direito de provocar sensações - penso, de cara, no "Sexus", no Henry Miller. No livro, a tal provocação é um elemento fortíssimo da narrativa. A questão, creio, é saber em que uma narração pode acrescentar ao óbvio - e hoje, nada é mais óbvio e banal do que imagens ou textos sobre sexo. Como ser original, acrescentar uma outra perspectiva, como não ser apenas mais um participante da suruba?

Há alguns poucos anos, quase travei ao escrever uma cena de sexo para o "Bandeira negra, amor". O que afinal eu queria com aquelas linhas? Naquele momento, seria importante passar a idéia de libertação da personagem - depois de ter passado por uma série de circunstâncias desagradáveis, ela se sentia mais livre, não tinha o que perder. A cena de sexo tinha a ver com isso, com uma espécie de transgressão libertária. Para mim estava claro que - naquela cena, e friso, não me refiro a cenas de sexo em geral - o mais importante seria falar da personagem e não tentar excitar o leitor. O tesão importante seria o dela, não o do leitor.

O problema foi escapar dos clichês que acompanham a descrição do ato sexual - todas as palavras parecem velhas, desgastadas, como se saídas de algumas daquelas narrativas de revistas pornôs: tudo muito molhado, duro, grande. No fim das contas, gostei do resultado, mas, admito, sou suspeito para avaliar.

Acho que, como no sexo em si, não dá para estabelecermos regras precisas para a sua representação. O desagradável aqui pode ser ótimo ali adiante. A questão é saber delinear cada situação. Há alguns anos, num debate que mediei na Bienal do Rio, a Cintia Moscovich disse que, quando escrevia sobre sexo, queria que sua leitora "ficasse molhadinha" - no caso, falávamos de um livro belíssimo que ela escreveu, o "Duas iguais", que trata de uma relação entre duas mulheres. Nele, despertar as tais sensações tinha tudo a ver com a narrativa - de alguma forma, tornava o leitor cúmplice de uma relação transgressora.


"Vida simples"

separador Por Fernando Molica em 11 de outubro de 2008 | Link | Comentários (0)

A revista "Vida Simples", da Abril, publicou esta simpática e curta resenha sobre "O ponto da partida".

Rio da vida

Conhecido do grande público pelas reportagens apresentadas na televisão, o jornalista carioquíssimo Fernando Molica é também um narrador seguro e com um ponto de vista particular. A segurança está na maneira como constrói cenas de forma visual e numa linguagem que lembra um João Antonio (o autor de Malagueta, Perus e Bacanaço) da Cidade Maravilhosa. Prosa viva, elástica e com ouvido para a fala das ruas. O ponto de vista é especial: trata-se de contar as dores do Rio de Janeiro de hoje, cidade em que a gentileza foi metralhada pela violência. Isso transparece também nesse O ponto da partida. Mostra a brutalidade, mas também sua busca por uma delicadeza perdida. Talvez para sempre.


Abraço ao Rena

separador Por Fernando Molica em 07 de outubro de 2008 | Link | Comentários (0)

A primeira vez que ouvi falar no Clube Renascença foi na minha infância, ali pelos anos 60 (lá pelos últimos anos da década, friso). Certamente foi algo relacionado ao concurso de Miss Guanabara (sim, a cidade do Rio de Janeiro era um estado): o Renascença invariavelmente indicava uma mulata para a competição. E isso causava um certo escândalo numa sociedade que ainda sonhava com a possibilidade de ser branca.

Mesmo assim, em 1964, Vera Lucia Couto, uma das moças do Renascença, foi eleita a representante da Guanabara em 1964 - depois, venceria um concurso nacional e ficaria em terceiro lugar num internacional. Li em algum lugar que foi inspirado nela que João Roberto Kelly fez a marchinha "Mulata bossa nova".

Por que tudo isso? Porque só há bem pouco tempo é que fui conhecer o Rena - como é chamado na intimidade. É um clube simples, ali no Andaraí, um bairro que ficou bem pequeno - a indústria imobiliária tratou de, aos poucos, ir alargando os limites de vizinhos tidos como mais nobres e vendáveis, como Grajaú, Tijuca ou Vila Isabel.

O lugar tem uma belíssima história: foi fundado por uma classe média negra que se via impedida de freqüentar os então chamados bons clubes sociais da vizinhança. Não deixa, portanto, de ter alguma herança quilombola. O clube estava quase quebrado quando o Jorge Ferraz assumiu sua presidência. Logo depois o Moacyr Luz inventou um negócio de doido, que só pode dar certo no Rio: uma roda de samba nas tardes de segunda, chamada de Samba do Trabalhador. Maior sucesso.

Mesmo assim, o clube ainda tem muitas dívidas, principalmente com a prefeitura. E vive criando eventos para quitá-las. O próximo vai ser no dia 19. É esse aqui, ó (e vai o release que recebi hoje). Apareçam, vai ser ótimo.

ABRAÇO AO RENASCENÇA CLUBE

Moacyr Luz (anfitrião da festa), Marcelo D2, Luiz Melodia, Xande (Revelação), Marquinho Sathan, Reinaldo, Ubirani (Fundo de Quintal), Marcelinho Moreira, Dorina, entre outros artistas consagrados, já confirmaram presença, no próximo dia 19 de outubro (domingo), no show ABRACE O RENASCENÇA. O evento tem como principal objetivo angariar fundos para saldar, ou pelo menos minimizar, as dívidas do Clube com o fisco que por pouco não causaram o fechamento do Rena, como é carinhosamente chamado. Terá também, durante a festa, exposição de sambistas pintores.O ingresso custa R$ 10,00 e a mesa com quatro lugares, R$ 5,00. A renda será totalmente revertida para este objetivo. Não perca! A festa começa às 14h00. O Rena fica na Rua Barão de São Francisco, 54 - Andaraí.

INFORMAÇÕES E RESERVAS: 3253-2322 ou 8768-3945 (Carlos Luiz).


O brilho intenso do meio sol

separador Por Fernando Molica em 02 de outubro de 2008 | Link | Comentários (1)

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A leitura de "Meio sol amarelo", da nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, me despertou uma série de questões interessantes. Ainda não terminei o quase-tijolo (estou na página 330, faltam 170), mas já dá pra concluir que o livro é muito bom, diria até que é espetacular. Sei não, mas acho que algumas discussões sobre literatura contemporânea acabam deixando de lado um aspecto fundamental, como o prazer de se ler uma bela história, uma história bem contada.

Nada contra as discussões, claro. Volta e meia participo delas, tenho lá meus pontos de vista e minhas implicâncias. Mas vale insistir: não dá pra deixar de lado o prazer. Essa palavra, tão ressaltada em conversas sobre outras manifestações artísticas, acaba sendo um pouco escanteada na hora de se falar em literatura. É como se, quando associada aos livros, ela viesse quase sempre atrelada à lógica dos best-sellers, ao rame-rame adocicado que sai sempre do mesmo ponto para chegar a um destino óbvio - tudo recheado com doses equilibradas de sexo, intriga e emoções fortes. Como se texto bom fosse apenas o que fosse mais voltado para o próprio texto - a história em si não passasse de um quase-álibi que permitisse a discussão do fundamental, o próprio texto; algo como a vitória do racional sobre o emocional, como se houvesse uma briga inevitável entre os dois.

"Meio sol amarelo" escapa de tudo isso. É um romance clássico, ambientado na Nigéria dos anos 60, que acompanha a trajetória de um casal em meio ao processo de consolidação da independência do país. Luta que acaba gerando a tentativa de criação de um outro Estado, Biafra.

Em primeiro lugar vem a agradável descoberta de perceber semelhanças entre as nossas vidas e as de integrantes de uma classe média universitária de um país africano. Os protagonistas não são habitantes de aldeias miseráveis, mas professores de uma universidade. Olanna, a principal personagem feminina, é filha de um riquíssimo e corrupto empreiteiro envolvido em um sem-número de negociatas com o jovem governo. Tudo muito parecido.

No mais, o livro segue pela década de 60 com um enredo bem amarrado, com uma escrita elegante, rigorosa e contida, que não apela para truques óbvios. Comprei o livro na Flip depois de assistir à conversa com a autora - uma jovem (31 anos!) bonita, marrenta, espertíssima. Mas, lá na Flip, fiquei mesmo foi impressionado com a leitura do primeiro capítulo: a descrição da chegada de um adolescente pobre à vila onde moravam os professores da universidade é espetacular:

Nunca seria capaz de descrever para a irmã Anulika as casas pintadas da cor do céu que ficavam uma ao lado da outra, feito homens educados e bem-vestidos, muito menos a perfeição com que as sebes entre uma e outra eram aparadas - tão retas no topo que mais pareciam mesas embrulhadas em folhas.

O livro foge ao lugar-comum, apresenta uma África de um ponto de vista diferenciado, não-folclorizado (seu ponto de vista não é o de um miserável nem o de um colonizador perdido na savana) e, fundamental, profundamente humano. Leiam, leiam.

OBS: fui ao Google catar uma foto da autora e dei de cara com uma entrevista da moça, feita na época em que ela ganhou o Orange Broadband Prize com "Meio sol". Olha só que trecho interessante:

"(...)Os norte-americanos pensam que escritores africanos devemos escrever sobre o exótico, a vida selvagem, a pobreza, talvez a Aids... Eles vêm à África e lêem os livros africanos com certas expectativas. [...] Um professor da universidade me disse acerca de meu primeiro livro que ele não era autenticamente africano, talvez pelo fato do livro tratar-se de uma classe média africana que possuía carros e não morria de fome."


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