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Pontos de Partida, o Blog do Fernando Molica

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agosto 2008 Archives

Não valem o que pesam

separador Por Fernando Molica em 31 de agosto de 2008 | Link | Comentários (0)

Sei não, mas depois do Escalada e do Zárate, começo a desconfiar que a diretoria do Botafogo compra atacantes argentinos por peso. Imagino um dirigente fazendo um DDI e, em portunhol, pedir algo como "90 kg de centroavante." Pior, deve pedir com gordura, com muita gordura.


Em obras

separador Por Fernando Molica em 29 de agosto de 2008 | Link | Comentários (0)

Ei, você aí: perdão pela quase ausência, pela economia nos posts. Mas é meio complicado fazer uma coluna diária em jornal, apurar e escrever uma porção de notas, e ainda ter cabeça para manter a vida blogueira. Pior ainda é quando se tem obra em casa. Não exatamente uma obra, mas um processo, algo que se arrasta feito doença crônica que, volta e meia, precisa de uma intervenção cirúrgica. Estou no meio de mais uma cirurgia doméstica, que se alonga por mais de um mês. E acabei de descobrir que vou precisar mandar fazer consertos adicionais.

Pra semana eu volto - acho.


Ressaca olímpica

separador Por Fernando Molica em 25 de agosto de 2008 | Link | Comentários (0)

Combinemos (ou não, se vocês discordarem): ganhar medalha é legal, viva o Brasil, aquelas coisas todas. Mas ganhar medalhas só é legal mesmo se essas vitórias corresponderem a avanços sociais do país. Ou seja: um melhor desempenho esportivo deve ser conseqüência de melhores condições de vida da população.

Um povo que coma melhor, que estude direito, que tenha acesso a práticas esportivas terá, necessariamente, atletas de ponta que irão conquistar suas medalhas e seus patrocinadores. Traçar a conquista de medalhas como meta governamental é besteira, desperdício de esforços e de grana. Serve para alimentar patriotatas constrangedoras e para enriquecer dirigentes.

Dinheiro público para o esporte tem que ser direcionado para a prática esportiva de base, nas escolas, em associações de moradores, em escolas de samba, por aí. Jogar dinheiro público para patrocinar atletas de ponta é algo moralmente esquisito num país como o nosso. Até porque esporte de alto nível nem é bom pra saúde: faz um mal terrível. É só pensarmos nos joelhos da Daiane, da coleção de dores que acompanha o Oscar.

A prática esportiva é legal, ajuda a molecada a aprender limites, a respeitar regras; ensina que, de um modo geral, a recompensa vem depois de disciplina e esforço. Esporte praticado com alguma moderação e método é até saudável,daí que pode e deve ser estimulado na infância e na adolescência. Mas, insisto, um estímulo que deve ser compatível com a lógica de uso do dinheiro de todos nós.


Oráculo de fardão

separador Por Fernando Molica em 20 de agosto de 2008 | Link | Comentários (0)

Conversei há pouco com uma antiga e bem informada fonte acadêmica, alguém que já me ajudou muito na cobertura de eleições pretéritas na ABL. Ele acha que o Luiz Paulo Horta vence com facilidade, mas apenas no terceiro escrutínio.

Segundo ele, o Horta tem cartas-compromisso que lhe garantem 14 votos, seis a menos que o necessário para levar a eleição na primeira rodada. Três outras cartas levam votos misteriosos, que não são para o jornalista de "O Globo". O negócio é meio complicado: os eleitores, os próprios acadêmicos, podem mandar votos por cartas - o mesmo eleitor pode votar em diferentes candidatos em cada escrutínio. No máximo são realizadas quatro rodadas.

A tal fonte alinha outros três candidatos que podem ser votados: Antônio Torres, Ziraldo e Fábio Lucas. Acha que o pai do Menino Maluquinho não tem qualquer chance, andou brigando com acadêmicos por conta da história da bolsa-ditadura. E crava seu palpite no Horta (deixou clara sua preferência por este candidato).

No fim da conversa, porém, ele deixou escapar uma inquietação: tinha acabado de ver na TV um comercial de "O Globo", aquelas chamadas para a edição do dia seguinte. No comercial, foi incluída uma foto do Horta - um negócio meio sem sentido, a imagem entrava logo antes da chamada para a reportagem sobre a eleição na ABL (ilustrada, por sua vez, com uma foto do Petit Trianon). Minha fonte ficou preocupada, achou o negócio meio excessivo, alguns acadêmicos poderiam ver nisso uma certa arrogância - não do Horta, que fique claro, o cara é muito boa gente -, mas das Organizações. "Eles não deveriam ter feito isso. Os acadêmicos são meio esquisitos", concluiu.



O voto do Bruxo

separador Por Fernando Molica em 20 de agosto de 2008 | Link | Comentários (0)

Brazilian_writer_Machado_de_Assis.gif
Os integrantes da ABL decidem nesta quinta quem vai ocupar a vaga de Zélia Gattai; a cadeira 23, que já foi de Machado de Assis. Fantasmas da Academia asseguram que há dois favoritos: o jornalista Luiz Paulo Horta e o escritor Antônio Torres, com alguma vantagem para o primeiro.

Quem conhece a ABL sabe que a instituição não se propõe a ser apenas uma casa de escritores, tem a ambição de reunir uma elite da inteligência nacional. Sim, exige que o postulante a uma cadeira tenha publicado, pelo menos, um livro. Mas não se define como uma reunião apenas de literatos: Nelson Pereira dos Santos está lá para provar isso.

Mas é claro que os escritores é que dão espírito e sentido à instituição. A credibilidade da ABL, tão abalada na ditadura, foi recuperada, em boa parte, graças à eleição de nomes como João Ubaldo Ribeiro, Ariano Suassuna, Ana Maria Machado, Moacyr Scliar e Nélida Piñon. Nas últimas duas décadas, a ABL voltou a respirar, recuperou prestígio e força.

Bem, sabe-se lá o que entra em jogo numa eleição pra Academia (volto a recomendar o excelente "Farda, fardão, camisola de dormir", do Jorge Amado). O Horta é um ótimo jornalista, articulista sóbrio, referência na divulgação e crítica da chamada música clássica. Mas o problema é que seu principal adversário, o Antônio Torres, tem muito mais a ver com a vaga. É um grande escritor, autor de alguns clássicos contemporâneos, traduzido e estudado em muitos países, vencedor dos prêmios Zaffari & Bourbon e Machado de Assis - este, oferecido pela própria ABL, pelo conjunto de sua obra.

Sei não: seria meio esquisito a Academia não eleger um vencedor de seu prêmio máximo, prêmio que leva o nome do fundador da Casa. Isso, no ano do centenário de Machado de Assis. Um acadêmico que vai se sentar na cadeira que foi d´Ele. Machado, tenho certeza, votaria em Torres.


Caymmi

separador Por Fernando Molica em 19 de agosto de 2008 | Link | Comentários (0)

Caymmi morreu de amor. Isso é bonito demais pra não ser ressaltado.


Derrota e paz para os caras do vôlei

separador Por Fernando Molica em 16 de agosto de 2008 | Link | Comentários (0)

bernardinho.jpg
Escrevo sem saber a quantas anda o jogo de vôlei entre as seleções masculinas do Brasil e da Polônia (que já deve ter começado há uma hora). Escrevo, portanto, ainda com base na derrota do time do Bernardinho diante da Rússia.

Confesso que fiquei meio animado com a derrota, da mesma forma que achei bom o time perder a tal da Liga Mundial aqui no Rio. Não que seja um chato estraga-prazeres, um derrotista, um botafoguense esquisito (ô redundância...) que se sente incomodado com sucessões de vitórias.

Nada disso. Até gosto do profissionalismo do Bernardinho e de seus comandados, admiro a seriedade e a dedicação de todos, a maneira como eles focam em um objetivo e o perseguem de forma obstinada. Há dois anos, eles foram um belo contraponto à bagunça daquela seleção de futebol que se arrastou pelos gramados alemães. De uma certa maneira, o time do Bernardinho exerce uma função didática num país tão acostumado a resolver seus problemas de maneiras pouco ortodoxas.

Até aí, tudo bem. Mas, caramba, não consigo imaginar que a vida seja assim o tempo todo. Que pessoas possam viver suas vidas assim tão desesperadas, pilhadas, concentradas. OK, é o trabalho deles. Mas será que precisa ser assim? Alguém aí imagina ter um chefe como o Bernardinho? Alguém aí imagina ser como o Bernardinho? Não consigo ver como todo aquele estresse possa ser sinônimo da tal vida saudável geralmente associada ao esporte.

O calendário do vôlei internacional parece reforçar um pouco o problema. São muitas competições importantes, uma atrás da outra. O futebol tem apenas uma Copa do Mundo a quatro anos, tempo suficiente para que ocorra um descanso, e, mesmo, uma renovação de times e jogadores. No vôlei, não: olimpíadas, campeonato mundial e Liga Mundial se sucedem. Quando uma termina, começa a outra. Mal dá pra comemorar uma vitória: os caras tão lá pulando na quadra, dando peixinho, e vem o Bernardinho dizer que, no dia seguinte, eles têm que começar a pensar na competição seguinte. Que saco!

Talvez o quase imbatível esquadrão brasileiro esteja sendo vítima dele mesmo, de uma certa arrogância; vítima de sua pregação em favor de sacrifícios e esforços sem ter fim. Talvez os atletas sejam agora seus próprios algozes, ansiosos para poderem perder alguns jogos, desejosos da paz só fornecida por uma derrota que nos alivia do peso, do compromisso da vitória.

É meio fora de moda falar em dialética, mas, que seja. Que os valorosos jogadores de vôlei, que tantas alegrias nos deram, possam ter o direito de se divertirem um pouco, longe da figura paterna-autoritária do Bernardinho (por falar nele, fico admirado com o seu filho, o Bruno, levantador do time. Como o rapaz gosta de tomar esporro. Além de ser filho do Bernardinho, resolveu jogar vôlei e acabou dando um jeito de ficar duplamente subordinado ao pai).


Roberto & Caetano - o inferno dos ingressos

separador Por Fernando Molica em 12 de agosto de 2008 | Link | Comentários (3)

Não vou, de novo, reproduzir aqui o passo-a-passo de uma tentativa de comprar ingressos pela internet. Já fiz isso uma vez, na época da Flip. Mas fica o registro e uma interrogação: por que, afinal, isso nunca dá certo? Estou, desde às 9h50, tentando comprar ingressos para o show do Roberto Carlos e do Caetano Veloso. O site da Tickektronic está, obviamente, travado. O contato por telefone também é impossível.

OK, o erro começa na organização: é meio complicado marcar para o Teatro Municipal um show que reúne dois dos mais representativos artistas do país; cantores e compositores que, cada um do seu jeito, marcaram os últimos 40 anos de nossa história musical e afetiva. Um show como esse, de apresentação única, teria que ocorrer num local bem maior.

Mas já que é assim - apresentação única no Teatro Municipal -, os caras poderiam ter armado um esquema minimamente decente para a venda de ingressos, né? Algo que não revelasse de maneira tão óbvia a incompetência e o descaso de quem é encarregado de fazer as vendas. Sei que amanhã vou ler nos jornais uma série de desculpas: a procura superou em muito as expectativas, o sistema da Ticketronic tem capacidade para atender a zilhões de internautas/hora, aquelas baboseiras de sempre.

Eles que inventassem um outro jeito qualquer para impedir a repetição de um processo irritante, que nos toma tempo e paciência. Aumento da capacidade do site, leilão de ingressos, sorteio pra ver quem poderia adquirir os bilhetes, qualquer coisa. O que não dá é pra fingir competência e atrapalhar a vida de muita gente.


Chororô tricolor

separador Por Fernando Molica em 07 de agosto de 2008 | Link | Comentários (6)

A história já está rolando em outros blogs e sites, mas é boa demais pra não ser reproduzida aqui. A sentença do juiz José de Arimatéia Beserra Macedo, do 25o. Juizado Especial Cível do Rio, é antológica. Em resumo: em julho passado, um torcedor do Fluminense - Carlos A.S. Baptista - recorreu à Justiça por se sentir ofendido com as gozações publicadas pelo jornal "Meia Hora". O tablóide fez uma uma série de brincadeiras sobre a derrota do tricolor para a LDU na final da Libertadores.

O juiz não perdoou, e, em português claríssimo - o que é raro entre seus pares -, deu uma lição de como um torcedor deve ser comportar. O Baptista ainda foi condenado a pagar as custas do processo.


"Primeiro registro que é absolutamente incrível que o Estado seja colocado a trabalhar e gastar dinheiro com uma demanda como a presente, mas... ossos do ofício!

Ressalto, desde já, estarem presentes todos os pressupostos de regular desenvolvimento do processo e as condições para o legítimo exercício da ação. O autor é capaz e está bem representado, o juízo é competente e a demanda está regularmente formada.

As partes são legítimas, há interesse de agir, já que a medida é útil na medida em que trará benefício ao autor, necessária, já que sem a intervenção judicial não poderia ser alcançado o que se pede, e o pedido, por sua vez, é juridicamente possível, tratando-se de compensação por dano moral e pedido de retratação.

O que não existe nem de longe é direito a proteger a absurda pretensão do reclamante. A questão é de direito e de mérito e assim será resolvida evitando-se maiores delongas com esse desperdício de tempo e dinheiro do Estado.

O reclamante, cujo time foi derrotado na final da Libertadores, sentiu-se ofendido com matérias publicadas pelo jornal reclamado, que, segundo ele, ridicularizavam os torcedores, incitavam a violência e traziam propaganda enganosa.

As matérias, no entanto, são apenas publicações das diversas gozações perpetradas pelas demais torcidas do Estado em razão da derrota do time do reclamante. Tais gozações são normais, esperadas e certas de vir sempre que um time perde qualquer partida, quanto mais um título importante que o técnico, jogadores e torcedores afirmavam certo e não veio. Mais.

As gozações são inerentes à existência do futebol, de modo que sem elas este não existiria porque muito de sua graça estaria perdida se um torcedor não pudesse debochar livremente dos outros.

É certo que o reclamante "zoou" os torcedores de outros times da cidade em razão de derrotas vergonhosas na mesma competição em que seu time foi derrotado, em razão de um dirigente fanfarrão ou em razão de uma choradeira com renúncia, e nem por isso pode o mesmo ser processado.

Ressalto que se o reclamante viu tudo isso e ficou quietinho, sem mangar de ninguém e sem se acabar de rir, - não ficou, mas utilizo-me dessa (im)possibilidade para aumentar a argumentação - deve procurar outros esportes para torcer, porque futebol sem deboche não dá!

Ainda que a matéria fosse elaborada pelo jornal reclamado, é possível à linha editorial ter um time para o qual torcer e, em conseqüência lógica de tal fato, praticar "zoações", o que, em se tratando de futebol, é algo necessário e salutar à existência do esporte. Registro que há jornais que não só têm a linha editorial apoiando um ou outro clube, como há os que são criados pelos torcedores para, dentre outras coisas, escarnecer os rivais, o que é perfeitamente viável.

Evidente, por todo o ângulo em que se olhe, que não há a menor condição de existir a mínima lesão que seja a qualquer bem da personalidade do reclamante. "Zoação" é algo inerente a qualquer um que escolha torcer por um time de futebol e vem junto com a escolha deste.

O aborrecimento decorrente do deboche alheio é inerente à escolha de uma equipe para torcer e, portanto, não gera dano moral, ainda que uma pessoa, por excesso de sensibilidade, se sinta ofendida e ridicularizada.

Continua o reclamante na sua petição afirmando que o reclamado incita a violência com sua conduta. É engraçado, porque o próprio reclamante afirma que teve que dar explicações à diretoria de seu local de trabalho em razão de desavenças com seus colegas. A inicial não é clara neste ponto, mas se houve briga em razão do reclamante não aceitar as gozações fica ainda mais evidente que o mesmo deve escolher outro esporte para emprestar sua torcida, porque, como já dito, futebol sem deboche, não dá! E o que é pior!

O reclamante, se brigou, discutiu ou se desentendeu foi porque quis, porque é de sua vontade e de sua índole e não porque houve uma publicação em jornal. Em momento algum o jornal sugere que haja briga, o que só ocorre em razão de eventual intolerância de quem briga, discute ou se desentende.

Por fim, o argumento mais surreal! A propaganda enganosa! Chega a ser inacreditável, mas o reclamante afirma que houve propaganda enganosa porque na capa do jornal há um chamado dizendo existir um pôster do seu time rumo ao mundial, mas no interior a página está com "uma foto com os jogadores (...) indo em direção a uma rede de supermercados".

Ora, e a que outro mundial o time do reclamante poderia ir se perdeu o título da Libertadores? Qualquer um que leia a reportagem, inclusive toda a torcida de tal time e em especial o reclamante, sabe, por óbvio, que jamais poderia existir foto da equipe indo à disputa do título mundial no Japão, porque isso nunca ocorreu.

A pretensão é tão absurda que para afastá-la a sentença precisaria apenas de uma frase: "Meu Deus, a que ponto nós chegamos??!!!", ou "Eu não acredito!!!" ou uma simples grunhido: "hum, hum", seguido do dispositivo de improcedência.

É difícil encontrar nos livros de direito um conceito preciso do que seria uma lide temerária, mas esta, caso chegue ao conhecimento de algum doutrinador, será utilizada como exemplo clássico para ajudar na conceituação.

O reclamante é litigante de má-fé por formular pretensão destituída de qualquer fundamento, utilizar-se do processo para conseguir objetivo ilegal, qual seja, ser compensado por dano inexistente, além de proceder de modo temerário ao ajuizar ação sabendo que não tem razão e cuja vitória jamais, em tempo algum, poderá alcançar.

Isto posto, julgo improcedente o pedido.

Condeno o reclamante como litigante de má-fé ao pagamento das custas, nos termos do caput do artigo 55 da Lei 9.099/95.

Publique-se. Registre-se. Intimem-se.

Após as formalidades legais, dê-se baixa e arquivem-se.

Rio de Janeiro-RJ, 31 de julho de 2008.
José de Arimatéia Beserra Macedo
Juiz de Direito"


É Gil!

separador Por Fernando Molica em 05 de agosto de 2008 | Link | Comentários (1)

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Há algum tempo que vinha achando a carreira de Gilberto Gil vinha meio assim-assim. A impressão era de que ele vinha tocando a bola pro lado, cadenciando o jogo, esperando o tempo passar. Talvez o longo tempo à frente do Ministério da Cultura tenha colaborado para um período pouco criativo, talvez a inspiração estivesse secando com a idade - a voz a cada dia mais rouca reforçava um pouco esta idéia de cansaço/envelhecimento.

Mas ontem assisti ao novo show do ex-ministro, feito na entrega dos prêmios Tudo de Bom, uma promoção de "O Dia". No início foi meio esquisito, parecia haver um certo descompasso entre Gil e a platéia, entre Gil e ele mesmo. A animação que ele demonstrava no palco parecia meio solta, descolada, um pouco fora de contexto.

Mas eis que o velho e ótimo Gil renasceu numa canção nova, belíssima, "Não tenho medo da morte". Olha só este pedacinho da letra:

não tenho medo da morte
mas medo de morrer, sim
a morte é depois de mim
mas quem vai morrer sou eu
o derradeiro ato meu
e eu terei de estar presente
assim como um presidente
dando posse ao sucessor
terei que morrer vivendo
sabendo que já me vou


A letra completa vai abaixo, a gravação pode ser ouvida no canto do site de Gil dedicado ao novo CD, "Banda larga cordel". Só para lembrar: o Gil é, entre nossos compositores, o que melhor trata da morte. É só lembrar de "Então vale a pena" ("Se a morte faz parte da vida/ E se vale a pena viver/ Então morrer vale a pena/ Se a gente teve o tempo para crescer").


Não tenho medo da morte
música e letra: Gilberto Gil

não tenho medo da morte
mas sim medo de morrer
qual seria a diferença
você há de perguntar
é que a morte já é depois
que eu deixar de respirar
morrer ainda é aqui
na vida, no sol, no ar
ainda pode haver dor
ou vontade de mijar

a morte já é depois
já não haverá ninguém
como eu aqui agora
pensando sobre o além
já não haverá o além
o além já será então
não terei pé nem cabeça
nem figado, nem pulmão
como poderei ter medo
se não terei coração?

não tenho medo da morte
mas medo de morrer, sim
a morte é depois de mim
mas quem vai morrer sou eu
o derradeiro ato meu
e eu terei de estar presente
assim como um presidente
dando posse ao sucessor
terei que morrer vivendo
sabendo que já me vou

então nesse instante sim
sofrerei quem sabe um choque
um piripaque, ou um baque
um calafrio ou um toque
coisas naturais da vida
como comer, caminhar
morrer de morte matada
morrer de morte morrida
quem sabe eu sinta saudade
como em qualquer despedida.


Concurso de frases

separador Por Fernando Molica em 01 de agosto de 2008 | Link | Comentários (0)

Depois de ouvir frases sobre Goebbels, novo 11 de Setembro e violência assimilada já no ventre da mãe, deu vontade de criar um concurso de tiradas infelizes. Por exemplo: o Troféu Estupra Mas Não Mata. O vice-campeão ficaria com um prêmio de consolação, a medalha Relaxa e Goza.

O primeiro colocado receberia a coleção completa de todas as atas de reuniões da Rodada de Doha. Em alemão. O vice poderia ganhar o direito de fazer um tour pelo Complexo do Alemão num dos 12 caveirões da Polícia do Rio.


BG
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