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Pur-tu-gal (1) - A muralha

separador Por Fernando Molica em 01 de junho de 2008 | Link | Comentários (1)

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As cadeiras ficam à direita da fila em ziguezague que dá acesso ao controle de passaportes no aeroporto de Lisboa. À primeira vista não dá para saber ao certo o que fazem ali sentadas aquelas pessoas - todas com jeito, cor e cara brasileiros. São como a maioria dos brasileiros, daqueles que nos acostumamos mais a ver em ônibus e trens do que em aviões, principalmente em vôos internacionais.

O avançar da fila permite entender o que ocorre: aqueles ali, sentados nas cadeiras, são brasileiros que também acabaram de chegar, mas que não foram autorizados a entrar em Portugal. Ficaram fora de suas muralhas, barrados pela polícia e encaminhados para a tal fila de cadeiras onde irão aguardar uma decisão sobre seus destinos - a possibilidade de retorno compulsório ao Brasil passa a ser muito provável.

Diante de uma das cabines onde é feito o controle dos passaportes, dois jovens sacam papéis das mochilas e explicam ao policial que foram chamados para treinar em clubes portugueses, são jogadores de futebol. A conversa demora uns cinco, dez minutos - e, ufa, os rapazes acabam recebendo nos passaportes o carimbo que garante sua entrada no país.

Logo depois deles, três mulheres nem tão jovens - entre 25 e 30 anos - vão, uma a uma, em direção às cabines. Negras, mulatas, todas usam jeans apertados e calçam sandálias de salto bem alto. Inevitável fazer uma aposta cruel e silenciosa, baseada no provável e preconceituoso olhar da polícia - serão barradas. Foram. Deu para ouvir suas explicações, justificativas para a viagem: viemos passear, fazer turismo. O policial pergunta sobre hotéis, destinos: elas se atrapalham, confundem cidades, acabam dizendo que alguém as espera. As respostas, um tanto quanto trôpegas, não se adequam à rigidez das perguntas que, embora simples, emergem duras e objetivas de formulários elaborados para barrar supostos indesejáveis como elas e como outros brasileiros encaminhados às cadeiras do lado direito da fila.

Diante da fila dos barrados, receber o carimbo no próprio passaporte dá alívio e uma certa vergonha: eu passei, eles ficaram. O meu passeio é considerado mais aceitável do que a provável intenção de trabalho de todos eles. Tudo indicava que eles não conseguiriam entrar em Portugal, um país que mandou tantos e tantos para o Brasil, que construiu boa parte de sua antiga riqueza com o ouro arrancado de sua gigantesca colônia.

Nas duas semanas seguintes, veríamos vários brasileiros em Portugal. Muitos passeando, outros trabalhando: arrumando camas (como uma paranaense de cerca de 60 anos), servindo mesas (como a mineira e o goiano no shopping, como os vários que fazem o mesmo serviço num café do aeroporto), fazendo faxina num centro comercial (como aquela outra que, calada, cumpria sua rotina ao lado de uma alegre imigrante, vinda de Guiné-Bissau).

Ao ver a fila de barrados fiquei com uma certa raiva de Portugal; já a constatação do contingente de subempregados patrícios despertou uma certa vergonha do Brasil. Afinal, Portugal tem apenas 10,6 milhões de habitantes, uma economia muito, muito menor que a nossa. É um país que teve um crescimento rápido graças ao dinheiro despejado pelos vizinhos ricos - mesmo assim, passa por uma crise, suas contas ameaçam não fechar, sua produção não consegue dar conta das despesas geradas por um alto e artificial padrão de vida obtido por parte da população, sua taxa de desigualdade é alta demais para os padrões europeus. Mesmo assim, consegue ser atraente para muitos brasileiros que se sujeitam às humilhações no aeroporto e, mesmo, a algum preconceito nas ruas. O problema maior é nosso.

*

Durante a viagem, a internet nos informou sobre a sucessão de mortes no Rio, nos contou da prisão de um ex-chefe de Polícia do Rio e de sua suposta cumplicidade com um ex-governador e ex-secretário de Segurança. Ao desembarcarmos, o ex-chefe de polícia e atual deputado já tinha sido solto; os sites destacavam a inacreditável e inaceitável tortura a integrantes de uma equipe de "O Dia". A vontade de sair correndo de volta para o avião foi grande. Um pouco de Rio ajuda a explicar o êxodo para Portugal.


1 Comentários Enviados

Confesso que meus pêlos são levemente eriçados quando falam mal dessa partezona da América aqui. Não sei nem como ainda consigo nutrir um fiapo de patriotismo, mas acho, também, que não se trata mais de orgulho ferido – é simples lamento. Diante da subserviência que a galera da fila-dos-barrados externa lá pra Portugal, pros Estados Unidos ou seja lá onde for, não dá para culpá-los – eles, os estrangeiros – pela postura xenófoba concernente ao nosso povo. Entendo, assim como você, que o problema maior é nosso. Brasileiro pede para ser visto com maus olhos. Sorte do Rio que eu me apego facilmente a lugares, caso contrário teria fugido do meu último vôo de volta internacional. Vontade não faltou.

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