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Pontos de Partida, o Blog do Fernando Molica

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junho 2008 Archives

Pur-tu-gal (final) - Cartazes assustadores

separador Por Fernando Molica em 30 de junho de 2008 | Link | Comentários (0)

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Para encerrar a série sobre Portugal - que achei até que já tinha sido encerrada... -, duas curiosas imagens de cartazes que fotografei por lá.O primeiro pode ser visto no Oceanário de Lisboa; o segundo, numa padaria de Aveiro, a terra dos ovos moles.


Adriana Lisboa

separador Por Fernando Molica em 28 de junho de 2008 | Link | Comentários (0)

A alvinegra Adriana Lisboa lança hoje, sábado, na Livraria Malasartes (no Shopping da Gávea), "Contos populares japoneses", que tem ilustrações de Janaina Tokitaka. A partir das 16h.


Sonhos cariocas

separador Por Fernando Molica em 26 de junho de 2008 | Link | Comentários (1)

No início de sua resenha sobre "O ponto da partida" (essa aí que está logo abaixo), Nataly Costa toca em uma questão fundamental: como o fascínio exercido pelo Rio influencia na visão que todos temos sobre a violência na cidade. A violência aqui tende a ser mais grave e cruel. Um assassinato no Arpoador, à beira-mar, parece ser mais chocante do que um outro ocorrido no meio do mato, numa periferia. É como se o cenário não se encaixasse no enredo da peça.

Talvez seja meio calhorda dizer isso, mas, lá vai: é como se encontrássemos, 40 anos depois, duas mulheres que conhecemos na flor de seus 20 anos - uma era então linda, a outra, assim-assim. Ambas, claro, terão perdido beleza, mas o estrago causado pelo tempo na que era mais bonita tende a impressionar mais. E ao contemplarmos os sinais do envelhecimento da ex-gata tendemos também a nos olharmos, a percebemos que também perdemos juventude e beleza.

O Rio sempre representou os nossos melhores sonhos: além de linda, a cidade era a capital, porto, centro de convergência de estrangeiros, de artistas e intelectuais. Aqui, como ressalta a historiadora Rosa Maria Araújo, autora, com Sérgio Cabral, de "Sassaricando", nasceram o choro, o samba, o chorinho e a bossa-nova. Ufa!

iA criação de tantas formas de expressão musical só foi possível graças à uma convivência entre contrários, pretos e brancos, ricos e pobres, brasileiros e estrangeiros - no Rio, e só no Rio, essa convivência razoavelmente pacífica era possível. Hoje, nem tanto.

Ao contemplarmos meio impotentes a decadência da cidade - o processo de feudalização de muitas de suas áreas, o desfile de armas de guerra nas mãos de soldados calçados com chinelos, os meninos e meninas que caçam turistas no calçadão - nos damos conta também de nossas frustrações, a sensação, como diz Nei Lopes, de "Não ter sido nem metade/daquilo que se sonhou" ("Samba do Irajá").

A decadência do Rio simboliza também o fracasso de muitos de nossos sonhos e projeções. Mas, como disse o José Junior, coordenador do AfroReggae, talvez seja o caso de pensarmos numa divindade hindu que, segundo ele, traz o caos para, depois, reconstruir. Uma deusa dialética, pois. Que consigamos sobreviver ao conflito.


Folha de Pernambuco

separador Por Fernando Molica em 25 de junho de 2008 | Link | Comentários (0)

A resenha abaixo saiu, segunda passada, na "Folha de Pernambuco".


O lado obscuro da Cidade Maravilhosa

Personagem de Molica não consegue mais enxergar beleza

NATALY COSTA

Não se sabe que tipo de fascínio o Rio de Janeiro exerce sobre os escritores, compositores, autores de novelas, atores, cantores e nós, público devoto, que amamos a natureza carioca porque ela nos é familiar (a TV, a música e as revistas de celebridades são nossos anfitriões). Até o grotesco, o violento, o aberrativo - e aberrações são constantes no Rio - parecem hiperdimensionados pelo simples fato de tomarem lugar na cidade que deveria ser maravilhosa. É como se a violência lá fosse muito mais violenta, porque, afinal de contas, o feio não cabe ali. Mas até assassinato acontece em pleno cartão-postal do Rio, a praia de Ipanema, com corpo sendo jogado em uma daquelas pedras bonitas que marcam o começo do Arpoador. Esse é o início do romance "O ponto da partida", de Fernando Molica, cujo personagem principal, Ricardo Menezes, é um repórter entediado e em crise. Em crise porque constata, de uma vez, que nenhuma beleza mais o cerca. Tudo aquilo (o Rio, a praia, a vizinhança, o casamento, os filhos, o Leblon) parece, de repente, feio, frágil e sem graça.


Claro que "O ponto da partida" não fala, diretamente, do Rio de Janeiro e suas distorções, e sim de uma vida distorcida. Menezes é um jornalista que não busca somente mais uma notícia - ele procura sentido. Com passagens engraçadas (são impagáveis as histórias de João Carniça, um repórter que não sabia escrever, mas apurava como ninguém) e leveza narrativa, Fernando Molica conta o drama do personagem sem se prender a choradeiras. Deixou fácil de entender a solidão, angústia, desilusão que permeiam a história, porém mais fácil ainda entender como aquele personagem chegou até ali, e como aquele sofrimento parece coerente. Molica é autor também dos elogiados "Notícias sobre o Mirandão" e "Bandeira negra, amor", ambos finalistas do Prêmio Jabuti.


Serviço
"O ponto da partida", de Fernando Molica
Editora Record
189 páginas
R$ 32,00


Sastisfação

separador Por Fernando Molica em 25 de junho de 2008 | Link | Comentários (0)

Um comentário meio fora de contexto: não sei se alguém concorda, mas acho que a palavra sastisfação, assim, com um s sobrando, dá mais a idéia de prazer, de realização, de gozo, que a forma correta. Que atire a primeira objeção quem nunca ficou sastisfeito.


Rubem Mauro Machado

separador Por Fernando Molica em 22 de junho de 2008 | Link | Comentários (0)

Escritor e jornalista, vencedor, em 1986, do prêmio Jabuti de melhor romance ("A idade da paixão"), Rubem Mauro Machado publicou no site da ABI este comentário sobre "O ponto da partida".

O repórter ao lado do corpo

O corpo esquartejado de uma mulher é encontrado junto às pedras do Arpoador, os pedaços acondicionados em sacos pretos de plástico. Ricardo Menezes, boêmio repórter de um jornal carioca, morador do vizinho Leblon, passa a noite ao lado do macabro achado, em companhia do viúvo da vítima e de policiais, em mais um infindável plantão. Durante aquelas horas mortas, balizadas pela lembrança de versos de Nelson Cavaquinho, rememora fatos de seu passado recente ou remoto, sobretudo as incompatibilidades viscerais com a ex-mulher e com o filho e a filha, e reavalia o seu trabalho, o papel social que desempenha.

Com esses elementos simples, o experiente jornalista Fernando Molica constrói o romance "O ponto de partida", recentemente lançado pela Record. Embora a visão que o personagem-narrador tenha da vida e da profissão seja amargurada, o enxuto romance é de leitura fácil e agradável, temperado com algumas pitadas de humor e farta ironia.

São muito poucas, salvo engano, as obras de ficção brasileiras que têm um jornalista como protagonista ou as redações como ambiente. Isso deve ser um motivo a mais para que a nossa categoria se debruce sobre a reflexão que o livro traz, propiciadora de um bom debate. Ainda que seja obra capaz de prender sem dificuldade também os leitores não-jornalistas.

Não li os romances anteriores de Molica, "Notícias do Mirandão", que está prestes a virar filme, e "Bandeira negra, amor", de modo que não posso traçar um paralelo entre eles. Mas a sensação que este "O ponto de partida" me deixa é a de um ficcionista vocacionado em processo de crescimento, que cria uma justa expectativa em relação às suas próximas obras.


Informe do Dia

separador Por Fernando Molica em 22 de junho de 2008 | Link | Comentários (4)

A partir deste domingo passo a assinar a coluna da página 4 de "O Dia". Depois de 12 anos em TV, volto ao jornal impresso, minha gostosa praia original. Apareçam por lá e, por favor, mandem sugestões de notas - o talentoso amigo Joaquim Ferreira dos Santos, gaiato que só ele, me ligou outro dia para dar parabéns, desejar boa sorte, aquelas coisas. E aproveitou a oportunidade para, baseado em sua própria experiência de colunista, me dar uma simpática sacaneada, uma previsão sobre minha futura rotina profissional. Rindo, determinou:

- Quero ouvir você dizendo a frase: "Por favor, você tem uma notinha pra mim?".

Pra alegria do Joaquim, eu repeti a frase que, desde então, tornou-se uma espécie de mantra que pronuncio várias vezes ao dia.

Ah, meu e-mail no jornal é fernando.molica@odianet.com.br .


Esse milhão é nosso!

separador Por Fernando Molica em 19 de junho de 2008 | Link | Comentários (0)

O comentário - breve - vai com atraso (os últimos dias têm sido meio intensos). Enfim começa a esquentar o debate sobre as leis de incentivo à produção cultural (tema já abordado aqui, no novo blog, e aqui, no antigo).

O Walter Sales, com a autoridade de ser cineasta e produtor, apontou a nudez do rei: é muito esquisto que um patrocinador beneficiado por incentivos fiscais tenha direito a fazer mershandising num filme: ou seja, uma empresa patrocina um filme e recebe todo o dinheiro de volta graças aos incentivos fiscais. E ainda pode fazer propaganda no filme (lembro da cena de "Tieta" em que Chico Anísio acaricia um cheque enviado pela filha "paulista" - a Tieta - e, em tom elogioso, fala o nome do banco). Não se trata de ser contra o merchandising, que é uma forma razoável de arrecadar dinheiro para uma produção. O complicado é fazer isso com dinheiro público.

O tema foi bem explorado em matéria do Segundo Caderno de "O Globo" publicada nesta segunda-feira. Ontem, quarta, o Carlos Augusto Calil, secretário de cultura do município de São Paulo e ex-diretor-geral da Embrafilme, publicou, na "Folha de S.Paulo", um artigo bem interessante sobre essa questão dos incentivos fiscais na cultura. O debate é saudável e interessa a todo mundo, não pode ficar restrito apenas aos chamados produtores de cultura.


Pur-tu-gal (7) - São os portugueses alvinegros?

separador Por Fernando Molica em 16 de junho de 2008 | Link | Comentários (0)

Sei lá, pode parecer fixação, maluquice - mas voltei de Portugal com uma séria suspeita sobre as afinidades entre eles, portugueses, e nós, torcedores do Botafogo. Como nós, eles tiveram um passado glorioso, repleto de conquistas. Ficaram depois um tempão patinando, batendo na trave (vocês lá têm idéia do que representa ganhar um título em 68 e só gritar "É campeão!" em 89, 21 anos depois?).

Hoje, os caras estão mais ricos e desenvolvidos. Claro, a prosperidade é artificial, veio na cola da ajuda da Comunidade Européia, que tirou o país de um atoleiro quase secular. Mas o país ganhou estofo, infra-estrutura, estradas, melhorou o sistema educacional. Mas - e aí eles voltam a se parecer com nosotros - os caras parecem ter certeza de que o negócio não vai dar certo. Continuam meio pessimistas, angustiados, com pé atrás.

Desconfiam daquela riqueza aparente, de uma prosperidade que lhes parece estranha. É como se o país fosse dirigido por um Cuca imenso - cheio de boas intenções mas que, como peru na véspera do Natal, trata de encomendar a cachaça que será obrigado a beber e a farofa com que será servido. Talvez falte, a eles e a nós, um pouco de uma arrogância saudável, uma dose de qualé-vai-encarar?, algo assim. Pode dar certo, pelo menos aqui para nós, alvinegros. Se der errado, eles, mais uma vez, perderão o bonde da história. Nós nos limitaremos a perder outro título.


Eu já previa...

separador Por Fernando Molica em 15 de junho de 2008 | Link | Comentários (3)

Goleiro e zagueiro criados naquele time da Gávea. É claro que o Cabañas, El Vingador, deixaria sua marca.


Perera em "O Popular"

separador Por Fernando Molica em 14 de junho de 2008 | Link | Comentários (1)

O jornal "O Popular", de Goiânia, publicou, nesta sexta, matéria sobre o desfecho do caso Expedito Perera. Aí vai ela:


Justiça reconhece morte do Chacal brasileiro

Com a decisão, foi emitida certidão de óbito, que permitirá à única filha do advogado e ex-preso político ter acesso a herança do pai

Marília Costa e Silva

A bailarina brasileira Teresa Cristina Perera finalmente conseguiu que a Justiça reconhecesse a morte de seu pai, o advogado gaúcho e ex-preso político Antônio Expedito Carvalho Perera, ocorrida em 1996, na Itália, segundo documentação apresentada pelo advogado Hugo Xavier da Costa. A notícia, que pôs fim a uma luta de 12 anos, veio da 1ª Vara de Família, Sucessão e Cível de Goiânia, que determinou, em abril passado a expedição do atestado de óbito, emitido no último dia 9.

A decisão judicial também reconheceu a dupla identidade Perera, que, ao fugir do Brasil para o exterior, no início dos anos 70, trocou de nome várias vezes, assumindo, entre elas, a identidade do psicanalista Paulo Parra.

A história de Perera, apelidado de Chacal brasileiro, revela a personalidade camaleônica de um homem que passou de defensor da extrema direita a militante de esquerda radical brasileira. Ele acabou preso e torturado durante a ditadura militar. Extraditado para o Chile, no grupo de 70 presos políticos soltos em troca da libertação do embaixador suíço no Brasil Giovani Enrico Bücher, Perera ganhou o mundo e acabou envolvendo-se com terroristas internacionais. Foi para não ser preso pela polícia internacional que ele assumiu a identidade de Paulo Parra, personagem que carregou até morrer de câncer, na Itália.

Procuração
Devido à fuga de Perera, a bailarina viu o pai pela última vez quando ela tinha apenas 8 anos. Antes de desaparecer, contudo, ele outorgou procuração ao pai, Firmino Fernandes Perera, para que cuidasse de todos os bens móveis e imóveis. Em 1973, Firmino substabeleceu a procuração para o seu genro, José Mentor, deputado federal pelo PT de São Paulo, para gerir o patrimônio do ex-preso político.

Quando deixou o País, os bens de Perera se resumiam a duas casas em bairro nobre de Porto Alegre. Além do patrimônio no Brasil, ele conseguiu acumular bens na Italia. Calcula-se que esse patrimônio chegue a US$ 10 milhões.

Com a decisão da justiça goiana, de acordo com Hugo Xavier, chega ao fim a disputa travada pelos bens de Perera entre a filha única do ex-preso político e os demais familiares do advogado, cuja história de vida foi retratada nas páginas do livro O Homem que Morreu Três Vezes, do jornalista Fernando Molica, da TV Globo. "Agora Teresa Cristina poderá abrir o inventário e tomar posse da herança deixada pelo pai", diz.


Pur-tu-gal (6) - Música pra vinho dormir

separador Por Fernando Molica em 13 de junho de 2008 | Link | Comentários (1)

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O filho de um amigo tinha, lá pelos seus seis ou sete anos, um hábito curioso: adorava dormir ao som de CDs do Madredeus, aquele grupo que deu uma sacudida - sacudida talvez não seja o termo mais correto, as canções, ainda que belas, são leeeeeennnnnntas - no panorama musical português.

Pois. Fomos visitar a Herdade do Esporão, em Reguengos de Monsaraz, no Alentejo, uma ótima produtora de vinhos. O local é belíssimo, a visita - gratuita - é interessante, simpática, o almoço é ótimo (um pouco caro, talvez, mas vale a pena).

Eis que, na visita, chegamos às caves, onde, em barris de carvalho, estagiam (eles usam este verbo) aqueles que serão os melhores vinhos da casa. Trata-se de um corredor de 70 metros de comprimento por 15 metros de largura, que guarda aquele jeitão meio reverencial comum em locais como esse - fala-se baixo, a iluminação é discreta, ai de quem perturbar o soninho daquelas preciosidades que descansam nas incubadeiras de madeira importada dos Estados Unidos e da França.

Em meio às explicações do guia, ouço uma música meio familiar. Peço licença, interrompo a explicação e confirmo minha suspeita: ali, velando o sono dos vinhos, toca-se Madredeus. O sujeito diz que isso não influencia nada no produto final, que a música serve apenas para compor a ambientação. Tá bom. Mas foi inevitável lembrar do filho do meu amigo, hoje um grandalhão que continua a gostar de boa música.

Em tempo: o CD "Você e eu" da cantora Teresa Salgueiro, a voz do Madredeus, serviu de trilha sonora de parte da viagem e é belíssimo. Ela interpreta, com extrema sensibilidade, alguns clássicos da música brasileira - muita bossa nova e preciosidades como "Risque", de Ary Barroso. Bem acompanhada pelo septeto de João Cristal, Teresa aposta num tom mais jazzístico que lhe cai muito bem. O leve sotaque português, especialmente em canções de Dorival Caymmi, fez disparar um indefinido cantinho da minha memória musical. A Bárbara matou a charada: lembra Carmem Miranda, ó pá. Embora tenha vindo ainda criança de Portugal, Carmem conviveu por muito tempo com o sotaque português que, repara só, dá sinais em suas interpretações.

Por último: ouvir no carro Teresa cantando "Valsa de uma cidade" (de Ismael Neto e Antônio Maria) enquando se passa pelo litoral norte do Porto, em direção a Matosinhos, chega a emocionar: o cenário meio anos 50, com aquela decadência elegante que se nota aqui e ali em Portugal, fez lembrar do Rio, deu uma saudade danada.

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Vale o escrito: Perera morreu

separador Por Fernando Molica em 11 de junho de 2008 | Link | Comentários (0)

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Enfim, aí está o documento que atesta a morte de Antonio Expedito Carvalho Perera. A certidão de óbito foi emitida no último dia 9, em Goiânia, por determinação judicial. O processo que pedia o reconhecimento da morte de Perera foi iniciativa da filha dele, Teresa Cristina Perera, e chegou à Justiça em 2003, em causa defendida pelo advogado Hugo Xavier da Costa.

Anos antes, Teresa Cristina tentara a primeira ação judicial para declarar a morte presumida do pai, mas acabou derrotada. O novo processo foi baseado nas evidências publicadas no livro "O homem que morreu três vezes", que narra a mais do que curiosa vida de Perera: um advogado anticomunista, entusiasta do golpe de 64 e que, poucos anos depois, se aproximaria da VPR (Vanguarda Popular Revolucionária) e daria abrigo a Carlos Lamarca.

Preso, torturado, banido do país, Perera se aliou a grupos terroristas internacionais que atuavam na Europa e acabou indo morar na Itália, com o nome falso de Paulo Parra. Passou a se apresentar como psicólogo e virou representante do PCB no país. Ele morreu no dia 1o. de março de 1996. A sentença do juiz Leonys Lopes Campos da Silva cita diversas provas que foram publicadas no livro.


Pur-tu-gal (5) - Minha gata

separador Por Fernando Molica em 11 de junho de 2008 | Link | Comentários (0)

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"Sou da CDD e tô tirando a maior onda..." "CDD" é sigla de Cidade de Deus. Quem tirava a tal da onda era um garçom que, havia pouco tempo, trabalhava num restaurante da rua Prado Junior, em Copacabana (pra quem não é do Rio: a Prado Junior é uma rua que concentra um bar que tem ótimos sanduíches - o Cervantes -, boates insuspeitas (puteiros honestamente assumidos como tais) e algumas outras arapucas para turistas.

Em meio a uma visita à Cave Ferreirinha, uma das muitas produtoras de vinho do Porto sediadas em Vila Nova de Gaia, o garçom fazia questão de contar sua história para outros brasileiros. Estava ali graças à sua namorada - "a minha gata" - uma loura suíça meio rechonchuda. A Brigitte. Não, não era uma Brigitte qualquer. O "Bri" emergia em forma de bico, lábios superior e inferior unidos, voltados para cima (para o hemisfério norte?):deles saía um som que estimulava a produção de virtuais purpurinas douradas que emolduravam a primeira sílaba do nome da amada.

O "gi" provocava uma abertura lateral da boca, o som saía num carioquês radical, chiado, ar rebatido nas traves dos dentes das duas arcadas. Tudo arrematado por um "te" quase onomatopaico, arremessado na direção do interlocutor: "Brixiti, minha gata." A gata que o tirara da Prado Junior, que o carregara para Portugal, que o fazia sonhar com as emoções da Eurocopa que seria disputada, dali a alguns dias, na Áustria e na Suíça, esta, terra natal de sua gata.

Brixiti, CDD, Prado Junior, minha gata, Eurocopa: "Tô tirando a maior onda", repetia.


Flip: de novo, a luta por ingressos

separador Por Fernando Molica em 10 de junho de 2008 | Link | Comentários (6)

Conseguimos enfim comprar ingressos para a Flip - isso depois de várias tentativas e aborrecimentos. É inacreditável que um evento desse tamanho não consiga, em sua sexta edição, organizar uma venda de ingressos on line. Vou tentar contar o que foi a epopéia vivida na manhã de hoje em busca dos ingressos.

. 08h50 - Entro no site da Flip e clico no link da Ingresso Rápido (Ingresso Rápido: como diria Zé Simão, o Brasil é o país da piada pronta). No site da IR não há qualquer referência à Flip.

. 8h53 - Ligo para o tal do call center da IR - 4003 1212. Uma gravação informa que sou o 53o da fila. Enquanto isso, continuo atualizando o site da empresa. E nada de Flip.

. 09h31 - Uma atendente da IR diz que a venda só começaria às 10h. Expliquei que o site da Flip dizia que o horário era outro, 9h. Ela repete a mesma informação diversas vezes, com dois "então" a cada frase. A moça diz, ENTÃO, que eu devo desligar o telefone e ligar de novo. Explico que é injusto, eu iria voltar para o fim da fila. Já que tinha conseguido ser atendido, era mais razoável ficar por ali, batendo papo com ela, esperando os tais 29 minutos que faltavam. Ela diz que isso não seria possível, que havia outras pessoas esperando para ser atendidas: argumentei que não adiantava nada atender às tais pessoas se elas teriam a mesma frustrante resposta - seria melhor deixá-las aguardando e atendê-las apenas quando os ingressos pudessem ser vendidos. A minha ligação é desligada.

. 09h39 - Começo a tentar ligar de novo para o 4003 1212, mas é impossível completar a ligação.

. 09h59 - Consigo ser atendido pelo Suporte on line do IR - a conversa é infrutífera. As pedras do calçamento de Paraty teriam sido mais receptivas. Movo o bloco que registra o dialógo travado por escrito com a atendente e o coloco no blog.

. 10h10 - Resolvo apelar e pedir reforço. Minha mulher, Bárbara, entra em campo - ou seja, fica diante do computador enquanto me arrumo e corro para o posto da Lagoa que vende ingressos.

. 10h30 - Chego no posto, umas 30 pessoas aguardam na fila, formada dentro da loja de conveniência. O atendimento começou dez minutos antes, mas nenhum ingresso foi vendido - o terminal do posto parece ser mais lento do que o da minha casa. Começo a lembrar daquelas reportagens de antigos carnavais, com pessoas que dormiam na fila dos ingressos para o desfile das escolas de samba, levavam cadeiras de armar, colchonetes, farnel.

. 10h40 - Um amigo me liga. Já é possível fazer a compra pelo site, mas não há ainda um banner da Flip. É preciso escrever o nome do evento no espaço do mecanismo de busca. Passo a informação para a Bárbara. Parece cena de filme policial vagabundo: "Eles foram por ali, corra!" - dá vontade de gritar.

. 10h50 - Um boato na fila: as vendas, pela internet, só poderiam ser concluídas com o uso do cartão Bradesco Visa Eletron. Acho estranho: a Flip é patrocinada pelo Unibanco, o site do IR prometia vantagens para quem fizesse a compra com o Itaú Card. Deve haver algum erro, é banco demais. Os sites da Flip e do IR não falavam nada em Bradesco.

. 10h55 - a Bárbara me liga - é preciso ter o Bradesco Visa Eletron. Eu tenho, mas o cartão está comigo, na fila.

. 11h10 - Bárbara volta a me ligar - precisa de números, de códigos, de senhas. Todos são repassados, mas a demora faz com que o site do Bradesco derrube a tentativa de compra.

.11h15 - A fila irrompe em aplausos: os primeiros ingressos foram, enfim, vendidos. A feliz compradora os exibe para os que ainda aguardam - a venda só foi concretizada quase uma hora depois de iniciada.

.11h16 - Desisto da loja e corro de volta para casa.

. 11h22 - Bárbara me liga e pede novos números. Atendo no meio do trânsito, dirigindo. A mão esquerda segura o volante; a direita, o celular. Uma terceira mão - como assim ?!? - tira os cartões da carteira. Pensando bem, devo ter utilizado o viva voz do celular. Não tenho três mãos.

. 11h30 - A transação foi fechada, os ingressos foram comprados. A tabela enviada por e-mail informa: além dos 25,00 por ingresso, teremos que pagar R$ 56,25 de Taxa de Conveniência. Ou seja, pagar pelos péssimos serviços prestados pela Ingresso Rápido. Isso, fora a taxa de R$ 10,00 para receber o pacote em casa.


Longe de defender bicheiro ou assemelhados: mas a organização da Flip deveria entregar a venda de ingressos para a Liesa, a entidade que domina o carnaval carioca. Eles são mais organizados e fazem questão de fazer valer o escrito - é do jogo deles.




Primeiro debate da Flip 2008 - A peleja de um mané que tenta comprar ingressos com uma atendente do Ingresso Rápido (vai sem revisão)

separador Por Fernando Molica em 10 de junho de 2008 | Link | Comentários (0)

(Retirei do diálogo apenas o nome da moça que me atendeu. A coitada, afinal, só cumpriu as determinações da empresa. Aqui, será identificada apenas pela letra R).


R:
Olá Fernando, em que posso ajudar?
R:
bom dia !!

Fernando:
Quero comprar ingressos para a Flip e não há nada sobre isso no site. A venda, segundo a Flip, começaria às 9h. Liguei às 8h53 para vocês - fiquei mais de meia hora esperando ser atendido para ouvir que a venda soh cmeçaria às 10h - e a atendente desligou a chamada!
Fernando:
Agora, sequer consigo ligarnpara o 4003 1212!
R:
sim...a partir das 10:00 hs

R:
aguardar, pois a procura é grande para esse evento..

R:
algo mais ?

Fernando:
jÁ SÃO 10H, E NÃO HÁ NADA NO SITE!
R:
favor aguardar !!

R:
dentro de instantes será iniciado.

Fernando:
Aguardar sem fazer nada!?!?!? Não consigo ligar, não há nada no site. O que faço? Durmo?
Fernando:
Tente ligar pro 4003 1212 e veja o que acontece!
Fiquei um tempão na fila, gastando ligação, e, na pratica, fui mandado de volta pro início da fila...ISso é incompetência demais.,
R:
como disse favor aguardar...ou entre em contato com nosso callcneter..

Fernando:
qual é o núemro do call center? como disse, é impossível ligar para o 4003 1212. Depois que vocês desligaram a minha cahamda, não consido complegar uma ligação!
R:
4003-1212 favor aguardar e efetue via site.

R:
tenha um bom dia !

Fernando:
se depender de vocês será um péssimo dia!
R:
tenha um bom dia !

Fernando:
Você leu o que escrevi?!? É impossível ligar para o 4003 1212...
Fernando:
Cumpra a sua obrigação e trate de dar uma solução, não me despache simplesmente. Sou um cliente, me respeite!
Fernando:
Você não é um robô! Apure o que ocorre com o site,
R:
sim...há varios cliente que tenta efetuar, as linhas estão congestionadas

Fernando:
E o site? PQ ainda não aprende* a opção FLip?
Fernando:
V
Fernando:
Você pode tentar descobrir, por favor?
R:
favor aguardar, pois produção que coloca no ar

(em seguida, ela derrubou a conversa.)
* Devo ter tentado escrever a palavra "aparece".


Wilson Martins

separador Por Fernando Molica em 09 de junho de 2008 | Link | Comentários (0)

No último sábado, o crítico Wilson Martins comentou, em sua coluna publicada no "Jornal do Brasil" e na "Gazeta do Povo", "Um livro em fuga", de Edgard Telles Ribeiro, e "O ponto da partida". O comentário está aqui.


Mudamos - enfim! - a camisa

separador Por Fernando Molica em 08 de junho de 2008 | Link | Comentários (2)

Camisa.GIFAcabei de ver que, na vitória de 2 a 1 sobre o Coritiba, o Botafogo usou uma nova camisa alvinegra. Enfim aposentamos a camisa do quase, já comentada no antigo blog (ver aqui). Claro, não podemos culpar a camisa pelas derrotas em 2007, pela falha na marcação do Obina na final do Carioca deste ano, pela incompetência do Zé Carlos na hora de bater o pênalti decisivo contra o Corinthians. Mas, sei lá, não custava nada trocar a velha camisa, aquela que subvertia a lógica das listras paralelas - algumas das listras brancas não chegavam ao fim, iam até perto do calção e voltavam, faziam uma curva, quase chegavam lá. Assim como o time que quase ganhou competições importantes em 2007 e em 2008. Técnico novo, camisa nova, boa vitória. Ufa!


Pur-tu-gal (4) - Conversa com o Poeta

separador Por Fernando Molica em 07 de junho de 2008 | Link | Comentários (1)

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Fiz essas fotos na área externa do café A Brasileira, em Lisboa, onde fica uma conhecida estátua de Fernando Pessoa. O simpático monumento tem uma cadeira de bronze vazia - volta e meia utilizada para turistas que querem posar ao lado do poeta. Mas o sujeito aí não estava interessado em poses. Pelo jeito, tinha questões mais sérias a resolver, queria mesmo ouvir conselhos, as opiniões de Pessoa - dizem que os poetas são bons nisso, né? Repare que ele fala, gesticula e, depois, parece desconsolado, triste talvez com o silêncio de Pessoa. O poeta, porém, na última foto, demonstra ter entendido o seu drama - e parece recomendar calma e tranqüilidade.



A última morte do homem que morreu três vezes

separador Por Fernando Molica em 05 de junho de 2008 | Link | Comentários (10)

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Agora é definitivo: o advogado gaúcho Antonio Expedito Carvalho Perera, personagem do meu livro "O homem que morreu três vezes" (Record, 2003), está oficialmente morto. De acordo com o advogado Hugo Xavier da Costa, contratado por Cristina (filha única de Perera), nesta quarta-feira esgotou-se o prazo para que fosse apresentado recurso contra a decisão do juiz Leonyz Lopes Campos da Silva, do Tribunal de Justiça de Goiás.

No último dia 22 de abril, o juiz reconheceu o que está explícito no livro: Perera e Paulo Parra são a mesma pessoa. Parra - nome assumido por Perera para fugir à perseguição de órgãos de segurança europeus - morreu no dia 1º. de março de 1996, foi cremado e suas cinzas estão no cemitério de Bettola, na Itália. Na sentença, o juiz declara a morte presumida de Perera e determina que o "cartório do registro civil competente" faça "o assento do óbito de Antonio Expedito Carvalho Perera". A certidão de óbito de Parra está publicada em "O homem que morreu três vezes".

Ex-militante anticomunista, Perera, no fim dos anos 60, aproximou-se da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), escondeu em seu apartamento o capitão Carlos Lamarca - que desertara do Exército -, foi preso, torturado e banido do país em 1971. Perera foi um dos 70 presos políticos libertados em troca da soltura do embaixador suíço no Brasil, seqüestrado por organizações guerrilheiras de esquerda. Na Europa, ele se transformou em aliado de Illich Ramírez Sánchez, "Carlos", o terrorista mais procurado nos anos 70.

Esta foi a segunda decisão da justiça goiana favorável à ação iniciada por Cristina Perera, filha de Expedito. Em dezembro de 2005, a morte de Perera também tinha sido reconhecida judicialmente. Mas, no início de 2006, o deputado federal José Mentor (PT-SP) deu entrada num recurso em nome do próprio Perera - que era seu cunhado. Para isso, ele se valeu de uma procuração passada por Perera para seu pai, Firmino, em 1971, ao ser banido. O pai de Perera substabeleceu a procuração para Mentor - mas, de acordo com o advogado Hugo Xavier da Costa, a justiça goiana acabou decidindo que a procuração tinha perdido a validade com a morte de Firmino, ocorrida em 2003. Mesmo assim, o processo em primeira instância teve que ser refeito.

Em novembro de 2005 (ver aqui), os jornais italianos publicaram que o Ministério Público de lá abrira, também com base nas informações de "O homem que morreu três vezes", uma investigação contra a mulher com quem Perera/Parra vivera no país. A mulher, que se apresentava como "Amanda Castello" acabou admitindo que Parra era Perera e que seu nome era falso. O livro revelou que ela e Parra usavam passaportes brasileiros falsificados.

Abaixo, a sentença do juiz Leonyz Lopes Campos da Silva:

DIANTE DO EXPOSTO, JULGO PROCEDENTE O PEDIDO FIRMADO NA INICIAL E
DECLARO QUE ANTONIO EXPEDITO CARVALHO PERERA, BRASILEIRO,SEPARADO
JUDICIALMENTE, ADVOGADO, PORTADOR DA CARTEIRA DE IDENTIDADE N.159
49B OAB/SP E PAULO PARRA, TAMBEM CONHECIDO COMO PAULO ANTONIO BLA
NCO PARRA, BRASILEIRO, PSICANALISTA, ESTADO CIVIL,CARTEIRA DE IDE
NTIDADE E CPF IGNORADOS, SAO, DE FATO, A MESMA PESSOA. DE CONSEQU
ENCIA, COM ARRIMO NO ART.7, INCISO I, DO CODIGO CIVIL, DECLARO A
MORTE PRESUMIDA DE ANTONIO EXPEDITO CARVALHO PERERA, QUE DE ACOR-
DO COM O QUE CONSTA NO DOCUMENTO DE FLS.90, OCORREU EM 01/03/1996
NA CIDADE DE MILAO, ITALIA. CUSTAS JA PAGAS. COM O TRANSITO EM JU
LGADO OFICIE-SE AO CARTORIO DO REGISTRO CIVIL COMPETENTE PARA QUE
PROCEDA AO ASSENTO DO OBITO DE ANTONIO EXPEDITO CARVALHO PERERA
OCORRIDO EM 01/03/1996, EM MILAO, ITALIA, SENDO A CAUSA MORTIS DE
SCONHECIDA. DEVERA CONSTAR NO ALUDIDO REGISTRO, AINDA, O RECONHE-
CIMENTO JUDICIAL DE QUE O DE CUJUS HAVIA ASSUMIDO, EM VIDA, A IDE NTIDADE DE PAULO ANTONIO BLANCO PARRA, E QUE SEU CORPO FORA CREMA
DO NO CEMITERIO DE BETTOLA, ITALIA. APOS, ARQUIVEM-SE OS AUTOS
COM AS CAUTELAS NECESSARIAS. CIENTIFIQUE-SE O MINISTERIO PUBLICO.
PUBLIQUE-SE. REGSITRE-SE. INTIME-SE. GOIANIA, 22 DE ABRIL DE 2008
LEONYS LOPES CAMPOS DA SILVA / JUIZ DE DIREITO.


Carta do Bruno Quintella, filho do Tim Lopes

separador Por Fernando Molica em 05 de junho de 2008 | Link | Comentários (5)

Acabo de ler esta belíssima, emocionante e corajosa carta que o Bruno Quintella, filho do amigo Tim Lopes, enviou para os colegas de "O Dia" que foram vítimas de um novo capítulo da sucessão de barbaridades e absurdos que assola nossa cidade. Fui amigo do Tim por muito tempo, mas só conheci o Bruno há alguns poucos anos, depois que nos tornamos colegas de redação. Tenho o maior orgulho de ser seu amigo, de ter trabalhado com ele; assim como tenho orgulho de ter sido amigo e de ter trabalhado com o Tim. Tim que, mais uma vez, ficaria orgulhoso do filho ao ler esta carta. Nada melhor resume o sentimento de todos, principalmente dos jornalistas, do que este trecho escrito pelo Bruno:

"Naquela edição de domingo, dia 1º, todos nós fomos ao Batan. Todos nós apanhamos, fomos eletrocutados, desmaiamos e fomos largados à beira da Avenida Brasil."

Aí vai o texto da carta. Abração, Bruno.

"Meus queridos colegas,

Ainda estou sob estado de choque pelo o que aconteceu. Não bastasse a infeliz coincidência, pela proximidade do aniversário de morte de meu pai, fui surpreendido pela má notícia quando chegava para trabalhar no plantão da madrugada, há quatro dias. A edição de domingo do jornal O Dia, lida ainda no sábado, anunciava em letras garrafais brancas e com fundo negro a covardia a qual vocês foram submetidos na Favela do Batan, em Realengo. Mais um atentado contra a imprensa e principalmente, contra o estado democrático de direito. Uma afronta não só ao jornalismo, mas ao ser humano e à dignidade. Um atentado contra nós. Uma tentativa de nos intimidar, jornalistas e cidadãos, mas, ao que parece, essa prática não é mais exclusiva dos traficantes de drogas. Não se trata mais de poder paralelo, nem poderes. Como na matemática, ironicamente sem lógica, no entanto, são projeções paralelas de um poder falido e moribundo. A milícia funciona, no sentido antropológico da questão, como anti-tráfico de drogas. É uma atividade que cresceu muito em pouco tempo, tangenciando os limites físicos e latifundiários da indústria do narcotráfico carioca, supostamente para sufocá-lo. Ora, como pode existir a milícia sem o tráfico? Como podem existir essas duas modalidades de crime, sem a ausência do Estado?

O curioso é que, passados vinte dias desde a violência sofrida pela equipe, muitos questionam a conduta do jornal e dos profissionais envolvidos, do risco, do perigo. Dai a César o que é de César - e a Deus o que é de Deus. Não podemos esquecer - e não vamos - meus colegas, da barbárie, da covardia, da violência física, dos choques, da humilhação e do trauma. Nisso, não há o que discutir. Não há o que opinar, não há conduta certa: sofrer na pele, só quem sofreu. A morte de Tim Lopes foi um divisor de águas nas questões de coberturas jornalísticas de violência e segurança pública. Fazer reportagens sobre esses temas, principalmente quando se trata de uma intimidação ao trabalho da imprensa, com tortura e, até a morte, é nosso papel, nosso ofício, dentro ou fora da redação. Porém, está na hora da mobilização. Como lembrou bem o colega Jorge Antônio Barros, nós jornalistas, também precisamos sair do casulo 'para ver melhor a dor que não sai no jornal'. Precisamos convocar para essa luta todos os cidadãos que já foram vítimas de violência, seja ela de qualquer tipo.

Não sei onde vocês estão, mas sei que estão bem, em local seguro, e me solidarizo ao que vocês passaram, porque imagino como estejam suas famílias, já estive daquele lado, na turma dos terços, das mãos dadas, do rosto molhado, das noites sem dormir. Naquela edição de domingo, dia 1º, todos nós fomos ao Batan. Todos nós apanhamos, fomos eletrocutados, desmaiamos e fomos largados à beira da Avenida Brasil. Existe exame psicológico de corpo de delito? Cicatrizam-se as chagas de um trauma? Não, vocês não são heróis. Não, não acabou o sofrimento. Vocês são corajosos, arriscaram a vida para mostrar à sociedade o drama de quem vive sob poder da milícia. Só não esqueça que tem muita gente aqui do seu lado, mesmo vocês estando longe. Sou jornalista, filho de jornalista, sobrinho de jornalista, afilhado de jornalista e escrevo a vocês como homem, como amigo e, claro, como profissional. No entanto, para nós, não é possível desvencilhar essa trinca, é?

Meu pai morreu para contar a história. Vocês também foram vítimas da violência, a do outro lado, a dos maus policiais. Ainda me pergunto se a maior afronta foi o espancamento, o cala-boca, a intimidação, a covardia, ou se foi deixá-los vivos, mesmo depois de se identificarem como policiais. A impressão que fica é quem morre vive menos, mas, quem vive morre mais. Conviver com o trauma, a pena para quem viveu o pesadelo; a certeza da impunidade, a motivação para a continuidade da atividade da milícia.

Elias Maluco, 01, Largo do Chuveirão, Favela da Grota, tribunal do tráfico, tribunal da milícia, poder paralelo, afronta, tortura, barbárie, intimidação, estado democrático de direito, resposta, cobrança, mobilização, paz, solidariedade, conduta, profissão, risco, morte e vida. São palavras do dicionário da violência do Rio. E nós, jornalistas e cidadãos, somos analfabetos que sabem escrever."


Pur-tu-gal (3) - O tráfico, lá e cá

separador Por Fernando Molica em 04 de junho de 2008 | Link | Comentários (0)

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Em quatro ou cinco dias em Lisboa recebi várias - seis, sete ou oito - ofertas para compra de drogas. As abordagens eram sempre do mesmo jeito: um sujeito, no meio da rua, vinha na nossa direção e balbuciava algo como "hax, hax" (haxixe) ou "marijuana, marijuana" (maconha). Acho que também ouvi uma proposta para compra de cocaína, mas não entendi bem - e, já meio escolado, não pedi pro cara repetir o nome do produto, tratei de driblar o vendedor e sua oferta.

As propostas aconteceram à noite e durante o dia em áreas centrais da cidade, como a Baixa e o Bairro Alto (espécie de Santa Teresa da capital portuguesa), locais movimentados, freqüentados por turistas e moradores de Lisboa. Ou seja, há venda de drogas por lá e a abordagem dos supostos consumidores é feita de forma muito mais explícita da que ocorre no Rio - não me lembro de algo semelhante ter ocorrido comigo por aqui.

O comércio de drogas não quer dizer que Lisboa seja violenta - não tínhamos o menor problema em circular a pé pela cidade, inclusive durante a noite, até mesmo na tal Santa Teresa deles. A questão é simples: tráfico de drogas existe, em diferentes versões e intensidades, em qualquer lugar do mundo, isso não é novidade. O absurdo é que, aqui no Rio, venda de drogas acabou associada ao uso ostensivo de armas de guerra em zonas urbanas e ao domínio territorial de áreas populosas da cidade.

Esses dois fenômenos - armas e dominío territorial - só prosperaram porque, mais do que incompetência, houve parceria de setores importantes da sociedade: principalmente, de policiais e de políticos. Esse assustador jabuti só subiu na árvore e ficou lá em cima porque alguém - muita gente - lhe ajudou na escalada e na permanência. Sem esta ajuda, o jabuti teria ficado no chão, oferecendo seus produtos como um camelô assustado.

Pior: a lógica do domínio territorial se expandiu, as tais das milícias provam isso. O gravíssimo e absurdo episódio da tortura à equipe de "O Dia" e a um morador da favela do Batan deve servir de ponto de referência para uma mudança radical na maneira de encararmos essa situação. Acabar com a criminalidade é algo meio utópico, garantir o controle do território é uma obrigação do Estado. Um Estado - Estado aqui no sentido amplo - que não consegue afirmar sua presença no Rio de Janeiro não tem sequer o direito de arrotar algum tipo de soberania sobre a Amazônia. É fundamental tirarmos o jabuti da árvore.


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Do Junco para a ABL

separador Por Fernando Molica em 03 de junho de 2008 | Link | Comentários (4)

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Acabo de ler no blog do Marcelo Moutinho que o grande Antônio Torres, que me honrou com um belo texto para a orelha de "O ponto da partida", oficializou sua candidatura à Academia Brasileira de Letras - concorrerá à vaga deixada por Zélia Gattai.

É um daqueles raros casos em que uma candidatura é igualmente importante para o candidato e para a instituição. Baiano do Junco (atual Sátiro Dias), autor de alguns dos mais relevantes clássicos recentes da literatura brasileira, Torres é um autor traduzido e elogiado em vários países e já recebeu, entre outros, o prêmio Machado de Assis, conferido pela própria ABL.

Eleições na ABL nem sempre são vencidas pelos melhores candidatos - mais detalhes sobre os bastidores da Academia podem ser conhecidos no ótimo e hilariante "Farda, fardão, camisola de dormir", de Jorge Amado, antecessor da mulher, Zélia, na cadeira agora em disputa. Mas, sem qualquer demérito para os outros candidatos, Torres mereceria ser eleito por aclamação. Um sujeito que estréia com um livro como "Um cão uivando para a lua" não pode ficar de fora de uma instituição que se propõe a abrigar o melhor da produção literária do país. Machado de Assis ficará orgulhoso com o novo ocupante da cadeira 23, a mesma que foi sua.


Pur-tu-gal (2) - Os portugueses voadores

separador Por Fernando Molica em 02 de junho de 2008 | Link | Comentários (0)

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Não faz tanto tempo assim - menos de 15 anos - e era possível ver em Lisboa muitos e muitos carros estacionados sobre as calçadas. Isso, em pleno centro, na bela avenida da Liberdade. A adesão à Comunidade Européia adequou boa parte da realidade político-social do país a uma imposição geográfica: Portugal acabou virando mesmo um país europeu. A velha piada sobre ir a Portugal para, depois, visitar a Europa, perdeu sentido.

Isso pode ser notado no trânsito, que por aqui no Brasil, em particular no Rio, serve para mostrar como somos muito piores do que dizemos ser. Em 1985, vi em Londres uma das melhores definições para civilização: o respeito à faixa de pedestres. Nada mais singelo do que o motorista de um carrão de não-sei-quantas dezenas ou centenas de milhares de libras ter que parar para dar passagem a um pedestre. Isso funciona - descobri então - até em Abbey Road, onde aborrecidos ingleses são obrigados a frear para permitir que turistas-panacas do mundo inteiro (eu, inclusive...) posem para fotos na faixa de pedestres celebrizada na capa do disco dos Beatles.

Aqui no Brasil, a faixa de pedestres vingou apenas em Brasília. Em Portugal, vale no país todo. Em ruas muito movimentadas há sinais de trânsito que controlam o fluxo de veículos e pedestres. Mas, na grande maioria dos casos não há sinais, apenas faixas. A regra é simples e óbvia: o pedestre pisa na faixa e o motorista pisa no freio. Simples, né? Sem reclamações, sem xingamentos, sem gritos. Eu, feliz da vida, denunciava meu susto e minha origem terceiro-mundista com discretos agradecimentos feitos com a cabeça - obrigado por não me atropelar, mermão.

Mas o português que virou europeu no trânsito urbano solta as amarras nas estradas. O dinheiro vindo dos países vizinhos implantou muitas e muitas excelentes auto-estradas. Nelas, o limite de velocidade é de 120 km/h - que, em duas semanas, vi ser respeitado por mim e por um ou outro motorista. Ao volante de um possante Corsa 1.2, volta e meia era surpreendido por um golpe de vento vindo da esquerda que, logo adiante, percebia ter sido provocado por Porshes, Mercedes, Audis e Renaults conduzidos por portugueses ensadecidos. Como correm aqueles gajos.

Mas o pior era quando passávamos nas rodovias secundárias, as estradas nacionais, de mão-dupla: os caras não têm a menor paciência para aguardar uma ultrapassagem. Sabe aquele negócio destestável e perigoso de encostar na traseira do carro da frente para constrangê-lo a acelerar ou dar passagem? Pois. Lá parece ser algo obrigatório, o sujeito deve perder pontos na carteira se não ficar a menos de meio metro do pára-choques traseiro do veículo que cometa o absurdo de ir a 80 km/h numa estrada cuja velocidade máxima permitida é de... 80km/h - ó pá. E tome de sustos com aqueles portugueses ameaçadores ali, grudadinhos na nossa traseira (ôps!).

De vez em quando me sentia como um personagem de filme, fugindo de tiranossauros metamorfoseados naquelas picapes-rex que se espalharam feito praga pelo mundo. Ansiosos, agressivos, os motoristas lusos pareciam com isso tentar provar que, apesar das regras de conduta européias que são obrigados a seguir, continuam, no fundo, a honrar a lógica do escorpião da piada, que mata o sapo que o transportava pelo rio por ser incapaz de fugir à sua vocação - mesmo que isso implicasse também na sua morte. Mas isso também tende a acabar: o abuso nas estradas já foi bem maior, explicou-me um amigo português. E a diminuição dos excessos tem, claro, a ver com o bolso: a multa por excesso de velocidade pode chegar a 500 euros.


Pur-tu-gal (1) - A muralha

separador Por Fernando Molica em 01 de junho de 2008 | Link | Comentários (1)

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As cadeiras ficam à direita da fila em ziguezague que dá acesso ao controle de passaportes no aeroporto de Lisboa. À primeira vista não dá para saber ao certo o que fazem ali sentadas aquelas pessoas - todas com jeito, cor e cara brasileiros. São como a maioria dos brasileiros, daqueles que nos acostumamos mais a ver em ônibus e trens do que em aviões, principalmente em vôos internacionais.

O avançar da fila permite entender o que ocorre: aqueles ali, sentados nas cadeiras, são brasileiros que também acabaram de chegar, mas que não foram autorizados a entrar em Portugal. Ficaram fora de suas muralhas, barrados pela polícia e encaminhados para a tal fila de cadeiras onde irão aguardar uma decisão sobre seus destinos - a possibilidade de retorno compulsório ao Brasil passa a ser muito provável.

Diante de uma das cabines onde é feito o controle dos passaportes, dois jovens sacam papéis das mochilas e explicam ao policial que foram chamados para treinar em clubes portugueses, são jogadores de futebol. A conversa demora uns cinco, dez minutos - e, ufa, os rapazes acabam recebendo nos passaportes o carimbo que garante sua entrada no país.

Logo depois deles, três mulheres nem tão jovens - entre 25 e 30 anos - vão, uma a uma, em direção às cabines. Negras, mulatas, todas usam jeans apertados e calçam sandálias de salto bem alto. Inevitável fazer uma aposta cruel e silenciosa, baseada no provável e preconceituoso olhar da polícia - serão barradas. Foram. Deu para ouvir suas explicações, justificativas para a viagem: viemos passear, fazer turismo. O policial pergunta sobre hotéis, destinos: elas se atrapalham, confundem cidades, acabam dizendo que alguém as espera. As respostas, um tanto quanto trôpegas, não se adequam à rigidez das perguntas que, embora simples, emergem duras e objetivas de formulários elaborados para barrar supostos indesejáveis como elas e como outros brasileiros encaminhados às cadeiras do lado direito da fila.

Diante da fila dos barrados, receber o carimbo no próprio passaporte dá alívio e uma certa vergonha: eu passei, eles ficaram. O meu passeio é considerado mais aceitável do que a provável intenção de trabalho de todos eles. Tudo indicava que eles não conseguiriam entrar em Portugal, um país que mandou tantos e tantos para o Brasil, que construiu boa parte de sua antiga riqueza com o ouro arrancado de sua gigantesca colônia.

Nas duas semanas seguintes, veríamos vários brasileiros em Portugal. Muitos passeando, outros trabalhando: arrumando camas (como uma paranaense de cerca de 60 anos), servindo mesas (como a mineira e o goiano no shopping, como os vários que fazem o mesmo serviço num café do aeroporto), fazendo faxina num centro comercial (como aquela outra que, calada, cumpria sua rotina ao lado de uma alegre imigrante, vinda de Guiné-Bissau).

Ao ver a fila de barrados fiquei com uma certa raiva de Portugal; já a constatação do contingente de subempregados patrícios despertou uma certa vergonha do Brasil. Afinal, Portugal tem apenas 10,6 milhões de habitantes, uma economia muito, muito menor que a nossa. É um país que teve um crescimento rápido graças ao dinheiro despejado pelos vizinhos ricos - mesmo assim, passa por uma crise, suas contas ameaçam não fechar, sua produção não consegue dar conta das despesas geradas por um alto e artificial padrão de vida obtido por parte da população, sua taxa de desigualdade é alta demais para os padrões europeus. Mesmo assim, consegue ser atraente para muitos brasileiros que se sujeitam às humilhações no aeroporto e, mesmo, a algum preconceito nas ruas. O problema maior é nosso.

*

Durante a viagem, a internet nos informou sobre a sucessão de mortes no Rio, nos contou da prisão de um ex-chefe de Polícia do Rio e de sua suposta cumplicidade com um ex-governador e ex-secretário de Segurança. Ao desembarcarmos, o ex-chefe de polícia e atual deputado já tinha sido solto; os sites destacavam a inacreditável e inaceitável tortura a integrantes de uma equipe de "O Dia". A vontade de sair correndo de volta para o avião foi grande. Um pouco de Rio ajuda a explicar o êxodo para Portugal.


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