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O discurso do general

separador Por Fernando Molica em 18 de abril de 2008 | Link | Comentários (1)

Este blog não foi feito para falar de política ou de temas institucionais. Mas como também não está impedido de falar sobre qualquer assunto (aqui quem manda sou eu, afinal), vamos lá:

Comecei no jornalismo numa época em que éramos obrigados a cobrir diversas solenidades militares: formatura na Aman, missa pelo 31 de março, homenagem aos mortos na chamada Intentona Comunista. Tínhamos que estender gravadores e microfones na direção de generais, almirantes e brigadeiros para ao menos tentar questioná-los sobre a abertura política - e tome de cara feia, de muxoxos, de empurrões e de declarações inconclusivas.

Há 20 anos fui pesquisar em jornais sobre a elaboração da Constituição de 46: notei que quase todos os dias eram publicados pronunciamentos (militar geralmente não dá entrevista, faz pronunciamentos ou alertas) de oficiais-generais. Depois, eles se cansaram das palavras e, em 64, botaram os tanques na rua.

Estava achando bom esse negócio dos militares terem sumido dos jornais - é o que se espera de um país que vive em paz com seus vizinhos. Volta e meia eles retornavam para falar de assuntos profissionais (o que é normal) ou para dar declarações enviesadas sobre documentos da épolica da ditadura (o que é lamentável). Mas tudo caminhava na direção de uma certa normalidade.

Não sou muito simpático a essa política de ceder latifúndios e latifúndios aos índios. OK, é preciso ter uma política compensatória, que reconheça direitos desses brasileiros. Mas também é necessário, talvez, ter um pouco mais de bom senso. Mas o que não pode mesmo é o comandante militar da Amazônia afrontar seus chefes - ele é subordinado ao poder civil, à população que elegeu o presidente da República - e manifestar sua discordância sobre a política implementada por um governo legitimamente eleito.

O general poderia ter ido falar com o comandante do Exército, participar de reuniões com o ministro da Defesa e até com o presidente. Mas não poderia discursar abertamente sobre o caso - o que houve foi uma evidente quebra de hierarquia. E se amanhã o governo determinar que o Exército atue na região para garantir o direito dos índios, como é que fica? Esse negócio do general dizer que o Exército deve servir ao Estado e não ao governo é de dar arrepios: as Forças Armadas servirão ao Estado se obedecerem ao governo que, repito, foi eleito pela população. Não cabe ao general se colocar acima do governo, a se arvorar em intérprete dos interesses do Estado. Da última vez que militares fizeram isso, deu no que deu - uma história que acabou não sendo boa para ninguém. .


1 Comentários Enviados

Concordo, Fernando, em tudo o que vc escreveu. Roupa suja se lava em casa. Infelizmente não podemos reclamar, principalmente pelo Presidente ter sido eleito pelo povo (embora não com meu voto!). Fazer o que, não é mesmo? Só corrigindo nas próximas eleições... Abraço, Leandro

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