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Pontos de Partida, o Blog do Fernando Molica

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abril 2008 Archives

Prosa on line

separador Por Fernando Molica em 28 de abril de 2008 | Link | Comentários (0)

O Prosa on line, versão para a internet do caderno Prosa & Verso de "O Globo", começa hoje uma nova fase. Estou lá, numa rápida entrevista feita pelo Miguel Conde. É só clicar aqui.


Poetas (2)

separador Por Fernando Molica em 27 de abril de 2008 | Link | Comentários (0)

Sem a devida permissão - pra mim, caiu na rede é peixe - aí vai um belo poema do Henrique Rodrigues. Carioca, nasceu em 1975, participou de algumas antologias. Em 2006 lançou, pela Record, "A musa diluída". Mais detalhes no seu site .

GAVETA DE MEMÓRIA

[manter o que ainda cabe
no campo do seu volume.

as coisas que, você sabe,

com o tempo ganham perfume:
acomodá-las no centro

e não deixar que se acabe

ou nem que se desarrume:
você, no dentro do dentro.]


As livrarias sem-livros

separador Por Fernando Molica em 25 de abril de 2008 | Link | Comentários (5)

Os exemplares de "O ponto da partida" ainda não chegaram às lojas Saraiva/Siciliano. Uma pena, o livro foi devidamente distribuído pela Record no início do mês, quando começou a ser exposto nas livrarias.

Não sei bem o que houve, mas parece que é algo relacionado à compra da Siciliano pela Saraiva, com atualização de sistemas. No fim vai dar certo: os caras são experientes, certamente vão resolver o problema em breve.

Mas o livro pode ser encontrado nas principais livrarias das grandes cidades brasileiras*. Pode também ser comprado pela internet (até mesmo no site da Saraiva - vá entender...).


* Aqui no Rio, em livrarias como DaConde, Travessa, Argumento, Ponte de Tábuas, Letras & Expressões - Leblon, Renovar, Timbre, Museu da República, Prefácio e Moviola.


Poetas

separador Por Fernando Molica em 24 de abril de 2008 | Link | Comentários (3)

Sou - mea culpa! mea culpa! - um mau leitor de poesia. Não é que não goste, é que tenho dificuldades para me adequar ao ritmo exigido pela leitura de um poema - mais lento e cadenciado, mais subordinado ao tempo determinado pelo autor. Leio prosa com muita velocidade, mas com freqüência tropeço na poesia. Talvez, no fundo, inveje o controle de tempo/ritmo dos poetas.

É possível que esta minha dificuldade tenha sido forjada há muitos anos, quando era aluno da Escola de Comunicação da UFRJ. Lá, a produção de poetas era intensa, um padrão que - em quantidade e qualidade - parece ter sido copiado pela atual indústria chinesa. Eram tantos os poemas (a maioria tão ruim...) que acabei meio cético e preguiçoso, vítima de uma espécie de overdose lírica.

Mas nos últimos dias tenho esbarrado em bons poetas: fui no lançamento do novo livro do Álvaro Miranda ("A casa toda nave cega voa", 7 Letras), o Henrique Rodrigues colocou um site no ar (é só clicar aqui) e conheci a Paula Cajaty (autora da resenha sobre "O ponto da partida" que cito no post anterior). Assim, para redimir parte da minha culpa prosadora, colocarei, ao longo da próxima semana, um poema de cada um deles.

Por ordem alfabética, o primeiro é do Álvaro, velho amigo, com quem trabalhei em "O Globo".

44

A casa o tempo o tempo a casa toda:
sempre a casa sem tempo casa vaga
nos meandros do tempo de seu vôo
a casa que se finca e nada guarda.
Rompe um dia raiz do solo tempo
casa antes tão gigante casa infante
e o tempo a casa toda na vacância
sem metro esquadro ou luz - ela outra e a mesma.
A casa temporal que é todo tempo
e depois estiagem sem ninguém,
casa-tempo, relógio de parede
nesse corpo-ponteiro que retém:
rugas e dobras, fuga deste anverso
espelho, velha face do silêncio.



Nova resenha

separador Por Fernando Molica em 23 de abril de 2008 | Link | Comentários (0)

A blogueira Paula Cajaty publicou uma resenha (clique aqui) muito interessante sobre "O ponto da partida". Quase uma visão psicanalítica do personagem principal do livro e de suas conflituosas relações com o mundo.

O curioso é que esta resenha, ao se concentrar em um aspecto, digamos, mais melancólico do livro, acaba servindo de contraponto a pelo menos duas análises publicadas anteriormente, escritas pelo Sérgio Rodrigues, do blog Todo Prosa, e pelo Felipe Moura Brasil, do JB.

Como autor, fico feliz em ler observações tão interessantes, diferentes e, ao mesmo tempo, complementares - todas se sustentam no texto.


Rio etc - é hoje!

separador Por Fernando Molica em 22 de abril de 2008 | Link | Comentários (1)

Renata Abranchs e Tiago Petrik lançam nesta terça, a partir das 19h, na Travessa de Ipanema (Visconde de Pirajá,572), o primeiro número da revista Rio etc - a alma encantadora das ruas. Além da homenagem explícita a João do Rio, haverá uma outra, esta, de corpo presente, ao grande Oliveira, garçom do Hipódromo, ali do Baixo Gávea.

A convite dos organizadores, eu e outros autores (Marcelo Moutinho, "Somos todos iguais nesta noite", Rocco; Alexandre Fraga, "Canibal de Copacabana", PTK), estaremos lá fazendo mais uma rodada de lançamento de nossos livros - todos têm o Rio como cenário, daí nossa presença na festa.


Notícias

separador Por Fernando Molica em 21 de abril de 2008 | Link | Comentários (0)

Uma é boa; a outra, bem ruim. As duas chegaram por e-mail - e foram checadas, neste feriado, com a ajuda do bravo pessoal do Google.

A boa:
O deputado Antonio Palocci (PT-SP) vai apresentar na Câmara dos Deputados um projeto que facilita a vida de biógrafos e de jornalistas. O projeto do Palocci altera o artigo número 20 da Lei Federal nº 10.406 - o tal artigo diz que "a divulgação de escritos, a transmissão da palavra, ou a publicação, a exposição ou a utilização da imagem de uma pessoa poderão ser proibidas, a seu requerimento e sem prejuízo da indenização que couber, se lhe atingirem a honra, a boa fama ou a respeitabilidade, ou se se destinarem a fins comerciais."

Pelo projeto do Palocci, seria livre "a divulgação de informações biográficas sobre pessoas públicas ou que tenham participado de acontecimentos de interesse da coletividade." Melhor assim. Se houver excessos, crimes contra a honra, que a justiça condene os infratores, sem impedir a circulação dos livros, revistas e jornais. O projeto, se aprovado, facilitará a vida até mesmo dos eventuais biógrafos do Palocci, que andou meio enrolado em episódios ocorridos em seus tempos de ministro.

A ruim:
O escritor angolano José Eduardo Agualusa está no centro de uma inacreditável polêmica em seu país. Tudo por que deu uma entrevista ao jornal "Angolense" em que dizia que alguns heróis da pátria, como Agostinho Neto, eram poetas medíocres. Pois: Agualusa levou bordodadas do "Jornal de Angola" , onde foi acusado de tentar humilhar "grandes nomes da poesia e da intelectualidade" do país e está sendo ameaçado de processo por "ultraje à moral pública".



Belo musical - apesar das músicas

separador Por Fernando Molica em 19 de abril de 2008 | Link | Comentários (1)

once_l.jpg

"Apenas uma vez" é legal, sensível, delicado - confirma que é possível se fazer boa ficção a partir de histórias mais ou menos banais, que o recurso a grandes viradas - assaltos, homicídios, adultérios - serve, muitas vezes, apenas para esconder a incapacidade de se elaborar uma boa trama.

O diretor John Carney chega a brincar com alguns chavões cinematográficos. Fornece pistas que dão ao espectador a ilusão de saber o que vai acontecer na cena seguinte - os adivinhos quebram a cara. A falta de emoções fortes é a grande sacada de "Apenas uma vez" ("Once", no original). O filme segue mais ou menos no ritmo da vida, essa que a gente leva no dia-a-dia: uma chateação crônica ali, desilusões que vamos empurrando com a barriga, a esperança ilusória de um novo e redentor amor.

A história do encontro entre um músico de rua (interpretado pelo roqueiro irlandês Glen Hansard) e uma imigrante (a também música Markéta Irglová) é simpática, conduzida com base em imagens ágeis - espertas, como se dizia há algum tempo - e cortes docemente abruptos. Tudo isso com o minúsculo orçamento de 150 mil dólares.

O filme é um musical não-convencional, os diálogos não são interrompidos para números de canto e dança. Mas a música é parte fundamental do longa - volta e meia os personagens aparecem cantando, dentro da ação. E o chato é ter que ouvir o tempo todo uma série de canções insuportavelmente açucaradas (diabéticos devem tomar doses extras de insulina antes da sessão). Uma delas, "Falling Slowly", de Hansard e Markéta, ganhou o Oscar este ano - e é uma legítima representante daquelas gororobas melosas e retumbantes que costumam faturar o prêmio.

Vale o ingresso? Vale, claro. Mas saí do cinema torcendo para que "Apenas uma vez" não sirva de inspiração para um filme semelhante estrelado por Oswaldo Montenegro ou Fábio Junior.


Resenhas

separador Por Fernando Molica em 18 de abril de 2008 | Link | Comentários (1)

De volta a temas mais amenos: resenhas sobre "O ponto da partida" já estão no site, é só clicar aqui.


O discurso do general

separador Por Fernando Molica em 18 de abril de 2008 | Link | Comentários (1)

Este blog não foi feito para falar de política ou de temas institucionais. Mas como também não está impedido de falar sobre qualquer assunto (aqui quem manda sou eu, afinal), vamos lá:

Comecei no jornalismo numa época em que éramos obrigados a cobrir diversas solenidades militares: formatura na Aman, missa pelo 31 de março, homenagem aos mortos na chamada Intentona Comunista. Tínhamos que estender gravadores e microfones na direção de generais, almirantes e brigadeiros para ao menos tentar questioná-los sobre a abertura política - e tome de cara feia, de muxoxos, de empurrões e de declarações inconclusivas.

Há 20 anos fui pesquisar em jornais sobre a elaboração da Constituição de 46: notei que quase todos os dias eram publicados pronunciamentos (militar geralmente não dá entrevista, faz pronunciamentos ou alertas) de oficiais-generais. Depois, eles se cansaram das palavras e, em 64, botaram os tanques na rua.

Estava achando bom esse negócio dos militares terem sumido dos jornais - é o que se espera de um país que vive em paz com seus vizinhos. Volta e meia eles retornavam para falar de assuntos profissionais (o que é normal) ou para dar declarações enviesadas sobre documentos da épolica da ditadura (o que é lamentável). Mas tudo caminhava na direção de uma certa normalidade.

Não sou muito simpático a essa política de ceder latifúndios e latifúndios aos índios. OK, é preciso ter uma política compensatória, que reconheça direitos desses brasileiros. Mas também é necessário, talvez, ter um pouco mais de bom senso. Mas o que não pode mesmo é o comandante militar da Amazônia afrontar seus chefes - ele é subordinado ao poder civil, à população que elegeu o presidente da República - e manifestar sua discordância sobre a política implementada por um governo legitimamente eleito.

O general poderia ter ido falar com o comandante do Exército, participar de reuniões com o ministro da Defesa e até com o presidente. Mas não poderia discursar abertamente sobre o caso - o que houve foi uma evidente quebra de hierarquia. E se amanhã o governo determinar que o Exército atue na região para garantir o direito dos índios, como é que fica? Esse negócio do general dizer que o Exército deve servir ao Estado e não ao governo é de dar arrepios: as Forças Armadas servirão ao Estado se obedecerem ao governo que, repito, foi eleito pela população. Não cabe ao general se colocar acima do governo, a se arvorar em intérprete dos interesses do Estado. Da última vez que militares fizeram isso, deu no que deu - uma história que acabou não sendo boa para ninguém. .


Todo prosa

separador Por Fernando Molica em 17 de abril de 2008 | Link | Comentários (0)

No seu Todo Prosa, um ótimo lugar de discussão de livros e de tendências do mercado editorial, Sérgio Rodrigues faz uma generosa análise de "O ponto da partida". Confira aqui.


Flores em vida

separador Por Fernando Molica em 16 de abril de 2008 | Link | Comentários (2)

Se não me engano, foi o amigo e grande botafoguense Arthur Dapieve que, certa vez, comparou o lançamento de um livro a um velório. Na visão dele, o autor representava - só o Dapieve pra pensar nisso, não é mesmo, Agamenon? - o papel do defunto. Cito as justificativas de memória: lançamento de livro é uma grande reunião de amigos, dá pra rever gente há muito desaparecida, todo mundo se diverte. Todo mundo, menos o autor. Ele é o único que não aproveita nada do evento - tal e qual o defunto no velório.

Vai-se a um velório por causa do morto; ao lançamento, por causa do autor. Mas este, coitado, fica ali sentado, sozinho, torcendo pra que todo mundo apareça, morrendo de medo de esquecer o nome da própria mãe, se sentindo culpado por não poder dedicar mais tempo a amigos que não via há um tempão, sofrendo para tentar não repetir dedicatórias (e tem uns sacanas que ficam comparando dedicatórias bem na frente do autor! Isso deveria ser crime, quem faz isso deveria ser obrigado a tomar umas quatro taças de vinho branco de joelhos!).

Por tudo isso, caríssimas e caríssimos, não me abandonem hoje à noite; não esqueçam de exigir o papelzinho com seus nomes; compreendam se, na hora H, não sair nada além de "um abraço". Será um abraço sincero, forte, apertado, cheio de carinho. E recorro ao Nelson Cavaquinho - citado várias vezes em "O ponto da partida" - para acrescentar mais um item às tais coincidências que o doido do Dapieve viu entre velório e lançamento de livro: as flores.

Volta e meia os autores recebem flores em noites de autógrafos. Mas, ao contrário daqueles que já partiram desta para a supostamente melhor, estamos vivos para recebê-las. Flores reais ou mesmo as virtuais, aquelas que nos chegam, alegram e perfumam em forma de abraços, cumprimentos e beijos. Muito melhor assim. Flores em vida, como pediam Nelson e Guilherme de Brito.

Abraços, inté.

Como está aí ao lado: lançamento de "O ponto da partida", hoje, 16 de abril, a partir das 19h - sem hora pra terminar -, na livraria DaConde, na Conde de Bernadotte, 26, loja 125, Leblon.


Pedido ao adversário

separador Por Fernando Molica em 14 de abril de 2008 | Link | Comentários (3)

É esquisito fazer isso, mas peço um favor aos rubro-negros - um pedido válido para o caso de nos enfrentarmos na final do campeonato. Não deixem de levar para o Maracanã aquela, digamos, estátua da avó do Zico (ou do tio-avô do Doval). Aquele trambolho horroroso que tanta sorte deu ao Botafogo. Ah, um amigo alvinegro lembra que a presença do Ronaldo no estádio também será bem-vinda. Cadeira cativa pra ele - ou duas cadeiras, pra que ele fique mais confortável.


Resenha: Jornal do Brasil

separador Por Fernando Molica em 12 de abril de 2008 | Link | Comentários (5)

A brutalidade tratada com humor

Ao som do violão de Nelson Cavaquinho, Fernando Molica narra desencanto de repórter

Jornal do Brasil, Caderno Idéias&Livros, 12/04/2008

Felipe Moura Brasil
Jornalista e escritor

Jornalista experiente, de muitas redações, Fernando Molica é também um desses escritores que complicam o trabalho do resenhista. O ponto da partida, seu terceiro romance, é tão enxuto e amarrado, tão belo e verossímil, tão melancólico e engraçado, que, quando se vê, o livro já tomou as rédeas de qualquer discernimento literário mais específico, qualquer atenção aos truques narrativos, qualquer atino sobre forma e conteúdo capaz de guiar uma análise mais detalhada. E aí é preciso voltar.
É preciso voltar para saber como Ricardo Menezes - repórter cinqüentão, ex-militante de esquerda, antirubro-negro, chegado numa ronda pelos botecos do Rio e fã do samba sofrido de Nelson Cavaquinho - repensa sua carreira, sua cidade e sua família, enquanto apura mais um crime carioca, ali mesmo entre um corpo feminino esquartejado no Arpoador, metido num saco preto, de madrugada, e um viúvo incrédulo, sentado num banquinho, à beira da praia.
Sim, é diante da brutalidade que ele aciona seu mecanismo favorito de defesa (no caso, de fuga): relembrar os casos cômicos do antigo colega João Carniça - do tempo em que repórter não precisava escrever. Mas daí para o ódio à ex-mulher, aquela "deslumbrada" e "consumista", uma advogada que levou - e "estragou" - seus filhos, como foi mesmo que Molica passou?
 A narração em terceira pessoa, sorrateira e freqüentemente desviada à primeira para revelar os pensamentos de Ricardo, somada à linguagem de desabafo em mesa de bar (às vezes, literalmente, como no Jobi) e ao manejo de situações e tempos intercalados, impõe ao texto um ritmo leve e inescapável.

Diálogos hilariantes

O que poderia resultar numa nostalgia para lá de macambúzia se converte, através do humor crítico do personagem, num divertido desencanto profissional e pessoal - ao qual a experiência do autor no ambiente jornalístico empresta a devida veracidade. Dele, não escapam os jovens editores dos cadernos de cultura - que não conhecem Guilherme de Brito, o maior parceiro de Nelson! - a filha gatinha do Leblon - que quer se embrenhar na Índia, numa "viagem profunda" com um tal de Hamiltinho - o filho "chato, conservador, careta, competente" - que escolhe sempre um candidato político oposto ao de Ricardo - e, claro, a "porca reacionária" da ex-mulher. Com cada um desses, ao longo da história, ele trava ao menos um diálogo explosivo, franco e, por isso mesmo, hilariante.
E é justamente ao culpar os outros pelas suas angústias que Ricardo vai revelando e sentindo suas fragilidades e omissões, e Molica vai traçando um paralelo entre as tragédias do personagem e as do Rio, desde a ditadura até o domínio do narcotráfico - temas familiares a seus dois primeiros romances, Notícias do Mirandão e Bandeira negra, amor. Isto sem jamais se eximir do enfoque humano e da capacidade de olhar as coisas de fora, escapando a qualquer caricatura, gênero ou reducionismo semelhante. Tudo que Ricardo tem de óbvio, teimoso e estereotipado é devidamente alfinetado pelos demais, levando-o também, ainda que aos solavancos, na direção de romper suas crisálidas.

Universo próprio

Quem espera do crime uma investigação à la Luiz Alfredo Garcia-Roza (transposta de Copacabana para Ipanema); da crueza urbana e narrativa uma volúpia à la Rubem Fonseca; ou do desencanto familiar um certo lirismo à la Cristóvão Tezza (do belíssimo O filho eterno) seguirá apenas pistas falsas rumo ao universo próprio de Fernando Molica, em que tudo ("ficção e realidade, comédia e tragédia, humor e dor", como apresenta Antônio Torres) se mistura em doses homeopáticas.
Quiçá, diga-se, como nos filmes argentinos de Juan José Campanella (de O filho da noiva), em especial O mesmo amor, a mesma chuva, que também acompanha, com ternura e graça - e com jovens editores igualmente arrogantes - o drama de um jornalista deslocado, em meio à crise da imprensa e do país.
Talvez agora, aliás, os cineastas brasileiros já tenham (com o perdão do trocadilho) O ponto da partida - e a trilha sonora, sem dúvida - para a versão brasileira. Um livro que, como um lindo samba de Nelson Cavaquinho ou uma boa história de João Carniça, será sempre gostoso de lembrar.


Trilha sonora

separador Por Fernando Molica em 12 de abril de 2008 | Link | Comentários (1)

Já que o resenhista - que não conheço, não é meu amigo - destacou que "O ponto da partida" cita sambas de Nelson Cavaquinho: parte da trilha sonora do livro está disponível aqui no site, em clipes que foram puxados do You Tube. Ouvir Nelson Cavaquinho sempre é bom.


Autoridades anônimas

separador Por Fernando Molica em 12 de abril de 2008 | Link | Comentários (0)

Quem é jornalista sabe: volta e meia alguém - geralmente com mais de 70 anos - chega e diz: "Eu também sou jornalista!". Para provar, o sujeito saca e exibe como arma uma carteirinha velha, amarelada e armafanhada de um tal Clube de Imprensa de São João da Barra. Isso se não tiver, plastificada, ali, bem à mão, uma cópia de artigo publicado no "Sentinela de Muriqui" que trata dos problemas causados pelo trânsito de charretes na cidade.

Esta profissão desperta em muita gente o direito de exercê-la. A internet e o número infindável de blogs só reforçam isso. O curioso é que agora até promotor público e uma juíza resolveram assumir também a função de editor de jornal, de decidir o que pode e o que não pode ser publicado. Os dois são de Águas de Lindóia, São Paulo, onde circula o semanário "Tribuna das Águas". O jornal, pelo que li no ótimo site "Consultor Jurídico", é o único da cidade e, portanto, cabe a ele publicar os atos oficiais da prefeitura.

O problema começou quando o promotor achou que o jornal estava elogiando demais o prefeito - e isso ofenderia o princípio da Constituição que impede que dinheiro oficial seja usado para fazer propaganda dos ocupantes de cargos públicos. Ou seja, a publicidade do governo federal não pode citar o nome do Lula, e assim por diante. Mas, para o promotor, o mesmo princípio deve ser adotado nas reportagens do semanário. Resultado, recorrreu à justiça, que determinou que o jornal não pode publicar nomes de autoridades.

Nunca li o "Tribuna das Águas", nunca fui a Águas de Lindóia - acho esquisito viajar pra beber água. É até possível - não sei, repito, nunca li o jornal - que o semanário, como tantos e tantos veículos espalhados pelo país, principalmente fora dos grandes centros, viva principalmente de verbas oficiais e que seja simpático demais às autoridades que garantem seu sustento. Mas isso não justifica a atitude do promotor e da juíza. O "Tribuna das Águas" deve prestar contas aos leitores, que, de um modo geral, costumam rejeitar veículos subservientes aos poderosos. Com todo o respeito: ao se passarem por jornalistas, o promotor e a juíza acabaram virando censores.


Resenha: Zero Hora

separador Por Fernando Molica em 11 de abril de 2008 | Link | Comentários (0)

Fernando Molica e os viciados em jornalismo

Zero Hora, 09/04/2008

Carlos André Moreira


Muitos jornalistas de imprensa diária comem mal, bebem demais, fumam muito, têm vida familiar errática e mesmo assim só vão tentar a sorte em outro emprego quando forçados por uma demissão. Entender por que tanta gente de imprensa se dedica a esse vício no limite da autodestruição é difícil para quem não é do ramo, e é exatamente isso que diminui como realização final o bom romance O Ponto de Partida, do jornalista carioca Fernando Molica, repórter especial do Fantástico com passagens anteriores por Folha de S. Paulo, O Globo e O Estado de S. Paulo. Como muitas histórias escritas sobre um determinado meio por alguém "de dentro", o livro cede freqüentemente a um saudosismo romântico que compromete a narrativa bem estruturada e de ritmo ágil, um eficiente retrato urbano.

O Ponto de Partida conta a história de Ricardo Menezes, jornalista cinqüentão que corresponde perfeitamente ao perfil estereotipado do primeiro parágrafo. Separado de uma advogada de sucesso, pai de dois filhos que cresceram revoltados com sua ausência, sempre comprometido com o jornal. Quando o romance começa, ele está de plantão nos limites entre as praias do Arpoador e do Diabo, no Rio, acompanhando a história de uma mulher encontrada esquartejada dentro de um saco plástico. Ordenado a esperar a retirada do corpo pela perícia, ele, para driblar o tédio, recorda histórias antigas de jornalistas que conheceu no passado, fazendo uma história informal do próprio ofício de reportagem. Entremeadas a essas lembranças, que evoca para disfarçar seu verdadeiro mal-estar, emergem constantemente as lembranças de sua vida até aquele ponto: a militância política dos anos 1970, a relação mal encaminhada com os filhos, o fracasso do casamento. Molica tem um texto solto, ágil, e embora os causos de antigos repórteres sejam narrados com verve e graça, a abordagem particular do personagem Ricardo é bem mais interessante, pelo mergulho na psique ao mesmo tempo orgulhosa e derrotada do protagonista.

O romance O Ponto de Partida funciona quase como espelho ficcional de outro livro que recentemente trouxe a assinatura de Molica, a coletânea 50 Anos de Crimes, recolha de 19 reportagens policiais lançada no ano passado compilando textos sobre grandes casos policiais dos anos 1950 até hoje. Curiosamente, a leitura da antologia oferece um panorama mais rico das mudanças da reportagem policial no Brasil do que a versão ficcional.


JB

separador Por Fernando Molica em 11 de abril de 2008 | Link | Comentários (0)

Como diria o Zózimo, uma raposa felpuda me informou que amanhã sairá uma resenha de "O ponto da partida" no caderno Idéias, do Jornal do Brasil. A conferir.


Uma proposta modesta

separador Por Fernando Molica em 10 de abril de 2008 | Link | Comentários (0)

As cenas, os palcos e as falas são praticamente os mesmos: atores e produtores teatrais vão a Brasília e reforçam o lobby para conseguir mais dinheiro público para suas iniciativas privadas. Até aí, nenhuma novidade - outros setores da economia também nunca conseguiram viver longe do colo estatal.

Desta vez, a cobertura tem sido um pouco mais crítica: reportagens ressaltam que, já há algum tempo, o dinheiro arrecadado nas bilheterias dos teatros deixou de ser assim tão importante. O que viabiliza as produções é a grana investida por patrocinadores que, depois, lhes é devolvida pelo Estado - aquele dinheirinho meu, seu e nosso.

O sistema passou a funcionar de uma maneira tão curiosa que chega a lembrar o argumento principal de "Os produtores", hilariante musical de Mel Brooks em cartaz no Rio. Produtores teatrais bolam um esquema que só daria certo se montassem uma peça que desse prejuízo, saísse de cartaz imediatamente: eles ficariam com o dinheiro arrecadado dos patrocinadores que, por sua vez, herdariam o prejuízo.

No Brasil é mais ou menos assim: como os custos da produção são, geralmente, bancados pelo indireto patrocínio estatal, fazer sucesso pode ser um grande problema: a verba é prevista para bancar a produção apenas por um determinado número de meses. Ficar em cartaz além disso significa depender apenas - oh! - da bilheteria. Mel Brooks morreria de rir.

Mas, enfim, vamos à tal proposta do título. Todas as obras - hospitais, pontes, estradas - feitas com dinheiro público têm que ostentar uma placa que informa o quanto o Estado está investindo ali. A mesma lógica poderia ser utilizada nas atividades artísticas feitas com dinheiro público. Os produtores seriam obrigados a divulgar, antes do início de cada sessão, o valor que, compulsoriamente, o bravo povo brasileiro investiu naquela peça, filme ou exposição.

Enquanto isso não vem, continuo a sugerir um passeio pela página no Ministério da Cultura: lá dá pra saber, por exemplo, que o cantor Orlando Morais conseguiu autorização para captar R$ 1,5 milhão para custear 15 shows pelo Brasil. Sua colega Ana Carolina conseguiu amealhar R$ 700 mil no passado para financiar suas apresentações. Vale conferir.


De cabeça erguida

separador Por Fernando Molica em 09 de abril de 2008 | Link | Comentários (0)

DeCabecaBaixaFRENTE.jpg
O recém-lançado romance "De cabeça baixa", de Flávio Izhaki, traz uma ousada e bem-construída teia que fornece muita linha para a pipa dos que gostam de discutir relações entre autor, obra e personagem. Ou melhor, tudo isso aí no plural: autores, obras, personagens. A trama pode até parecer complicada, mas não é: Izhaki conduz a história com segurança, sem perder o fio da meada. O livro trata de outro livro ("Desencanto") e de seu autor, Felipe Laranjeiras. A partir de um pequeno incidente - a descoberta, numa livraria de Curitiba, de um exemplar do seu livro recheado de comentários nas páginas -, Laranjeiras dá início a um jogo que não deixará de surpreendê-lo. O autor - Laranjeiras, não Izhaki - acaba virando personagem de uma outra história, a ponto de não saber mais qual o seu papel naquela trama. De autor - fracassado, mas onisciente -, passa a personagem, pólo passivo de uma outra história, que não deixa de ser a sua. Laranjeiras (coitado) se sai melhor como personagem - imprevisível, surpreendente - do que como autor. No fim de tudo resta uma incerteza e uma certa angústia que têm muito a ver com a boa literatura - e, claro, com a vida.


Profissão de fé

separador Por Fernando Molica em 08 de abril de 2008 | Link | Comentários (3)

Um e-mail que acordou na minha caixa de entrada alerta que hoje é dia do jornalista. Bem, o tal dia foi ontem. Nunca vi jornalista comemorar a tal efeméride; de um modo geral, somos céticos demais para isso (que bom!). Mas, em homenagem ao tal dia, aí vai um trechinho do "O ponto de partida". Nele, Ricardo Menezes, 50 - repórter e protagonista do livro -, lembra uma fala do pai, Mário Menezes, que morrera de enfarte na redação. MM, como era conhecido, também era jornalista, um homem apaixonado pelo seu trabalho.

"Fazer jornal, meu filho, é brincar um pouco de ser Deus. A gente é que decide o que é importante. Só é importante o que sai no jornal. Não adiantava Deus fazer e acontecer, criar o dia e a noite, o macho e a fêmea, as estrelas, o Himalaia, o Garrincha, o cacete a quatro: se não saísse no jornal, ninguém ficaria sabendo. Por isso, Ele também criou a Bíblia, o jornal Dele. A Bíblia é igualzinha a um jornal, é cheia de boas histórias, a maioria, difícil de ser checada. Há alguns exageros, umas forçadas de barra, umas cascatas, um certo culto à personalidade: tudo como num jornal. Mas tá cheia de notícias. Uma boa equipe de repórteres, correspondentes no mundo inteiro, jornalistas com acesso a fontes privilegiadas. E que comentaristas -- retumbantes, proféticos! O tal do Moisés era uma espécie de repórter especial. O sujeito entrevistava Deus em on, veja só! Deus dava entrevista pra Moisés on the record, não pedia off. Imagina, Deus chegando pro repórter e dizendo: 'Pode publicar que fui Eu que disse.' (...) ."

A dor que sai nos jornais

separador Por Fernando Molica em 06 de abril de 2008 | Link | Comentários (1)

O amigo Guilherme Fiuza, autor do livro "Meu nome não é Johnny" - que deu origem ao filme -, decidiu expor publicamente um drama pessoal em nome de um interesse maior. Em seu blog, publicado no site da revista "Época", Fiuza, que é jornalista, critica a cobertura do caso da menina Isabella Nardoni a partir da narrativa de uma terrível experiência pessoal: a morte, em 1990, de seu primeiro filho, que caiu do oitavo andar do prédio onde a família morava.
No artigo, Fiuza conta que além de conviver com a tragédia, ele e sua então mulher tiveram que suportar o peso de uma acusação: num primeiro momento, caiu sobre eles a suspeita de assassinato do filho. O casal teve que contratar um advogado antes mesmo de enterrar o menino.

Embora vivêssemos em harmonia e fôssemos particularmente tranqüilos, o advogado vinha relatar depoimentos comprometedores do síndico e de vizinhos à polícia. Eles diziam ter ouvido ruídos altos de portas batendo, discussões febris, gritaria.
Foi longo o tempo até encerrar esse processo insano e provar que os vizinhos tinham delirado. Mas foi muito rápido, instantâneo, o castigo imposto pelos homens da lei, de mãos dadas com os vizinhos diligentes: ser tratado como suspeito da morte do próprio filho.

No artigo, de leitura obrigatória, Fiuza conta que ele e a mulher saíram do prédio deitados no chão do carro para escapar do assédio de jornalistas - e conclui que a coletividade deve entender que a vida dos outros "não é um Big Brother".
No último dia 2, Clóvis Rossi publicou, na "Folha de S.Paulo", um artigo que deveria ser lido em forma de oração por todos os jornalistas, e por todos os policiais - e, mesmo, por todos que, diante de um crime, se apressam em apontar o dedo na direção de um suposto culpado.
Nele, Rossi lembra o caso da Escola Base para ressaltar o absurdo comportamento da polícia na apuração da morte de Isabella: nas duas situações, os delegados divulgaram suspeitas não confirmadas para a imprensa, que, com diferentes níveis de ênfase, tratou de amplificá-las. Os donos da escola foram absolvidos das acusações de abuso sexual contra crianças, mas carregam até hoje as marcas do massacre que sofreram.
Tragédias como as mortes de Pedro - o filho de Fiuza - e de Isabella deveriam servir para que todos, em particular, policiais e de jornalistas refletissem sobre seu trabalho. Não proponho a criação de um equivalente ao Conar - Conselho de Auto-Regulamentação Publicitária. Há profundas diferenças entre a informação publicitária e a jornalística - seria difícil transpor para um código todas as nuances envolvidas numa cobertura, há sempre o risco de as boas intenções servirem de biombo para uma simples censura.
Em reportagem publicada no site Comunique-se, Benny Cohen, da TV Alterosa, de Minas, diz que há três anos os noticiários da emissora não divulgam nomes ou imagens de suspeitos de crimes. Há mais de uma década que a "Folha" não publica nomes de seqüestrados sem autorização de sua família. Todos que trabalhamos no jornalismo sabemos como é difícil tomar uma atitude como esta: sou jornalista há 27 anos, apenas um acaso me livrou de, em 1990, estar entre os repórteres que cercavam o carro onde estavam Fiuza e sua mulher, de correr atrás deles. Na época, era chefe de reportagem de "O Globo" ou da sucursal da "Folha" - devo, portanto, ter determinado ou autorizado a ida de uma equipe para o local. Era minha obrigação fazer isso: como não cobrir/publicar aquilo que toda a concorrência vai divulgar? Fui, de alguma forma, cúmplice daquele cerco.
A popularização da internet tornou ainda mais difícil o controle do que divulgar - o público já não depende apenas de jornalistas para apurar e disseminar informações. Mas isso não desobriga jornalistas e veículos de uma reflexão sobre o que fazer. Não publicar nomes de suspeitos pode ser um bom começo, ainda que isso tenha outras implicações: pouparíamos das páginas e dos telejornais políticos acusados de falcatruas? Até que ponto isso não seria apenas um presente que daríamos a notórios corruptos?
Acho difícil estabelecer uma regra geral, válida para todos os casos - até sob pena de inviabilizarmos a necessária busca de informação por parte da sociedade e, no limite, inviabilizarmos o jornalismo. Creio que não deveríamos pensar em leis, em códigos, em obrigações - mas em posturas, em decisões pessoais e editoriais. Talvez um bom começo seria aproveitar algo mencionado por Fiuza em seu artigo, por mais doloroso que isso seja: que tal nos imaginarmos - Deus nos livre! - no centro de uma tragédia? Seria um bom exercício para pensarmos no como deveria ser feita a cobertura do caso, nos limites que deveriam ser obedecidos.


Sala de parto

separador Por Fernando Molica em 03 de abril de 2008 | Link | Comentários (8)

"O ponto da partida" chega às livrarias nesta sexta, dia 4. O lançamento, como está aí ao lado, é no dia 16, na Livraria DaConde, na Conde de Bernadotte.


A tuberculose de todos nós

separador Por Fernando Molica em 03 de abril de 2008 | Link | Comentários (0)

Tá certo: o país está crescendo, os índices vão bem, o consumo explode, Lula dá bronca no Bush, nunca antes na história, aquelas coisas. Mas as notícias positivas ajudam também a iluminar nossas sombras, nossas vergonhas: nosso crescimento ressalta também as nossas misérias. Como a dengue, como a tuberculose.
Lembro que na minha infância a palavra "tuberculose" era pronunciada quase aos sussurros - meus pais, afinal, são de uma geração que nasceu numa época em que a doença não tinha cura. Sair da chuva, não ficar descalço eram, para a minha avó, providências essenciais para não ficar tuberculoso. Quando nasci, a doença já era curável, não chegou, portanto, a fazer parte do meu razoável repertório de medos (implicava muito com a possibilidade do fim do mundo - e, parodiando Woody Allen, não adiantava ninguém me dizer que o fim do mundo nunca chegaria a Piedade).
Anos depois, um professor, animado com os rumos do Brasil Potência, chegou a dizer na minha sala de aula que, por aqui, ninguém morria mais de tuberculose. Perdeu, perdeu: só ano passado, cinco mil pessoas morreram vítimas da doença no Brasil. A cada ano são mais 85 mil novos casos.
E por que? Porque o país ainda não tomou vergonha na cara. A tuberculose é uma espécie de vingança dos pobres, dos que comem e vivem mal. Como assim "vingança" se eles são as principais vítimas da doença? Simples: ao adoecerem, ao - por ignorância - resistirem completar o tratamento (muitos o abandonam quando a doença se torna assintomática), eles não apenas morrem. Também jogam o bacilo de Koch na nossa cara - literalmente, até. Transmitem a bactéria e disseminam a notícia de uma indignidade. A morte de qualquer pessoa por tuberculose e mesmo a simples manifestação da doença representam um constrangimento para todos nós.
Na semana passada, gravei uma reportagem sobre tuberculose que foi ao ar ontem no Bom Dia Brasil. Apurá-la foi um novo mergulho num país que muitos fingem não existir. Colocar no rosto a máscara que impede contaminação para entrevistar uma mulher que está no isolamento de um hospital não é apenas um gesto de proteção. É também um gesto que se torna político, que dá a dimensão do tamanho do buraco em que ainda estamos. Tive que colocar a tal máscara, mas fiz isso envergonhado, com vontade de pedir desculpas à minha entrevistada - todos temos alguma responsabilidade pela doença daquela mulher.

A tuberculose e a reportagem foram tema de comentários da Míriam Leitão, no BDBR e na CBN - este último comentário pode ser ouvido aqui.


Um ponto de partida

separador Por Fernando Molica em 02 de abril de 2008 | Link | Comentários (0)

O Portal Imprensa publicou ontem uma nota sobre "O ponto da partida", que chegará às livrarias nesta sexta-feira. Está aqui, ó: Portal Imprensa .


Histórias de um João

separador Por Fernando Molica em 01 de abril de 2008 | Link | Comentários (5)

Meus amigos, "João" - um documentário sobre o grande botafoguense João Saldanha - é muito legal. Os diretores, André Iki Siqueira e Beto Macedo, fizeram um filme que tem a cara do homenageado. Engajado e informal, sério e brincalhão, o longa não se arrisca a uma tarefa que seria inglória: separar o que é verdade e o que é lenda em torno de João Saldanha. Melhor, entra no jogo e chega a apresentar várias versões de um mesmo fato, numa montagem hilariante.
Como bem observou um amigo, os diretores tiveram a sacada de deixar que o próprio João conduzisse o filme. Ele é quem mais fala, quem mais palpita - e o cara falava muito bem, uma linguagem correta e informal de dar inveja. O filme é imperdível para quem acompanhava seus comentários e para os que não o conheceram. João foi pioneiro ao mostrar que luta, paixão, prazer e diversão não eram incompatíveis. Quem lê seus artigos - publicados em vários livros - percebe como ele, um comunista, defendia os jogadores, não se alinhava com os cartolas. Uma atuação pioneira e corajosa num universo tão conservador como o futebol.
Para os que têm a felicidade de se deixar conduzir pela estrela solitária, um momento arrepiante: ao som do hino do clube, imagens do timaço do Botafogo de 67/68, bicampeão da Taça Guanabara e do Campeonato Carioca. Cito de cabeça: Manga (Cao), Zé Carlos, Moreira, Leônidas e Valtencir; Carlos Roberto e Gérson; Rogério (Zequinha), Jairzinho, Roberto e Paulo César. Sei não, sei não: acho que a estréia de "João" (que concorre ao festival "É tudo verdade") é um sinal das conquistas que se anunciam neste, ao que tudo indica, glorioso 2008.

Obs: mais detalhes da vida de João Saldanha no livro "João Saldanha, uma vida em jogo", do André Iki Siqueira, um dos diretores do filme.

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BG
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