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Pontos de Partida, o Blog do Fernando Molica

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Instituto de FHC foi beneficiado por lei que PSDB quer investigar

separador Por Fernando Molica em 26 de maio de 2016 | Link | Comentários (0)

O Instituto Fernando Henrique Cardoso arrecadou quase R$ 12 milhões com base na Lei Rouanet, mecanismo de incentivo fiscal que 25 deputados do PSDB querem investigar em uma CPI. As doações foram feitas entre 2005 e 2011, nos governos dos petistas Lula e Dilma Rousseff.

Parlamentares do partido de FHC foram os que mais colaboraram com assinaturas para a criação da Comissão Parlamentar de Inquérito proposta, ontem, por dois deputados do DEM e que já tem número de adesões suficientes para ser instalada.

Entre as empresas que fizeram doações estão o Itaú, a Ambev, a VBC Energia (do grupo Camargo Corrêa) e o Credit Suisse.

O instituto que leva o nome do ex-presidente tucano recebeu R$ 11,967 milhões de grandes empresas para dois projetos: Preservação, catalogação e digitalização do Acervo Presidente Fernando Henrique Cardoso e Tratamento técnico e difusão dos acervos Presidente Fernando Henrique Cardoso e Antropóloga Ruth Cardoso.

As prestações de contas dos dois projetos foram aprovadas pelo Ministério da Cultura em 2011 e 2015, no governo Dilma.

O Itaú foi o que mais colaborou com o IFHC: as doações de diferentes empresas do grupo (entre elas,a Dibens Leasing e a Provar Negócios de Varejo) somaram R$ 3,6 mihões - todo o valor poderia ser abatido do imposto de renda devido pelo conglomerado.

Outros grandes doadores foram a Ambev (o grupo colaborou com R$ 2,2 milhões) e a VBC Energia (R$ 1,7 milhão).

O Safra Leasing e a Embraer doaram R$ 1 milhão; o grupo financeiro Credit Suisse, R$ 600 mil; a Sabesp, empresa de economia mista ligada ao governo paulista, R$ 500 mil.

Em 1997, no governo de FHC, a Telebras - estatal que seria privatizada no ano seguinte - doou, também com base na Lei Rouanet, R$ 224.999,98 para a edição do livro 'Fernando Henrique Cardoso - História da Politíca Moderna no Brasil'.

A proposta de edição foi apresentada por Sonia Sabat Morgensztern e aprovada em 1996, no segundo ano do mandato do tucano na Presidência.

Os projetos e as doações estão disponíveis no site do Ministério da Cultura.


Eu e Cauby

separador Por Fernando Molica em 17 de maio de 2016 | Link | Comentários (0)

Foi em 1990. Artistas de alguma forma ligados à bossa nova se apresentariam no Scala num show em benefício do Lúcio Alves. No elenco, entre outros, Tom Jobim, Caetano, Os Cariocas, Leny Andrade e Cauby Peixoto.

Eu e outros colegas da sucursal Rio da 'Folha' compramos nossos ingressos. Pouco antes de sairmos, o editor da 'Ilustrada', acho que era o Mario Cesar Carvalho, ligou e pediu que, no dia seguinte, eu fizesse um texto para o jornal. Um texto, não uma reportagem.

Aceitei, mas deixei claro que eu estava indo como espectador, não como jornalista. Faria lá minhas anotações, mas iria me divertir, beber - tinha me planejado para isso, comprara o ingresso, caramba. O show foi lindo, emocionante. Até o uísque, que não era lá essas coisas (Passaport, se não me engano), desceu bem.

Mas talvez eu tenha exagerado um pouco. Lembro que, ao sairmos, já quase na rua, vimos o Cauby passar por nós. Confesso que, em homenagem ao cara - que interpretara 'Conceição' e 'People' -, puxei o coro de "Cauby! Cauby! Cauby". Espero que ele tenha ficado feliz.


O voto no Temer

separador Por Fernando Molica em 17 de maio de 2016 | Link | Comentários (0)

Cidadãos favoráveis ao impeachment provocam os que são contra: alegam que estes, quando votaram na Dilma, também elegeram o Temer, logo, não podem reclamar de nada. O argumento faz algum sentido, mas há outras questões a serem levadas em conta.

1. A entrega da vice a um outro partido implica em concessões, legítimas (no caso, um governo mais ao centro) e ilegítimas (aquelas que a gente conhece). Mas, em tese, a chapa estaria unida em torno de um proposta de governo - e, em 2014, havia projetos muito bem definidos, a eleição adquiriu no segundo turno um viés ideológico claro, algo que contribuiu para o acirramento de paixões e para a divisão do eleitorado.

Outro dia, consultei no site do TSE o programa de governo da chapa Dilma-Temer. É um negócio bem genérico, muito voltado para as realizações de governos petistas. Mas é uma referência, algo que, com o eventual afastamento da presidente, deveria ser seguida pelo vice. Mas o programa que ele apresentou em outubro passado, o Uma ponte para o futuro, não tem nada a ver com o que ele ratificou em 2014 (e que nem vinha sendo assim tão respeitado pela Dilma).

O Plano Temer, como era chamado pelo Moreira Franco, é até mais radicalmente liberal que o defendido pela chapa Aécio-Aloysio. Fala em desindexação do salário mínimo de inativos, em idade mínima para aposentadoria, no fim da vinculação constitucional de verbas para saúde e educação. Quem votou em Dilma-Temer em 2014 não ratificou o programa que o então vice apresentaria um ano depois.

2. Votar na chapa que unia PT e PMDB incluía a possibilidade de permitir que Temer chegasse ao poder (políticos também ficam doentes, podem morrer no exercício do mandato). Mas ninguém imaginaria que o vice fosse trabalhar abertamente pelo impeachment da titular. Não dava para prever que, dez meses depois da posse, ele apresentasse um programa de governo voltado não para 2018, mas para 2016, para ser aplicado após a derrubada da presidente. É como se, lá atrás, o PFL de Antonio Carlos Magalhães tivesse se aliado ao impeachment de FHC tentado pelo PT. Isto para fazer com que o vice, o pefelista Marco Maciel, virasse presidente. Tucanos arrancariam suas penas e bicariam sem dó os ex-aliados caso isso tivesse ocorrido.

3. A história não costuma ser simples - a nossa, então, é complicada demais. Eleitores da Dilma são obrigados a reconhecer que votaram também no Temer, mas têm o direito de dizer que não votaram neste Temer, mas naquele que compartilhou uma outra proposta de governo, que jurou fidelidade à companheira de chapa e que parecia conformado no papel de vice decorativo.


O impeachment e os gringos

separador Por Fernando Molica em 13 de maio de 2016 | Link | Comentários (0)

Sempre achei que a visão estrangeira nos ajuda a entender o que se passa diante de nossos olhos viciados no cotidiano. Costumo pregar que um bom repórter deve também se comportar como um gringo que acabou de desembarcar por aqui - li que o Bob Kennedy, em 1965, numa visita à PUC do Rio, foi questionado sobre o racismo nos EUA. Ele então observou que não havia negros na plateia de estudantes. Muitas vezes, só alguém de fora consegue ver o óbvio, gritar que o rei está nu.

É preciso não considerarmos normais práticas que são corriqueiras, Ótimas reportagens foram resultado da adoção de uma perspectiva diferente da habitual, basta mudar de ângulo para perceber o estranho, o esquisito, o que está fora da ordem.

Não que devamos dar ao forasteiro o direito de nos definir, mas não podemos ignorar esses olhares externos. Editoriais - artigos que refletem a opinião dos jornais - publicados ontem e hoje por dois dos mais importantes jornais do mundo, The New York Times e El País, ressaltam os problemas do processo que levou Michel Temer ao poder.

Os dois editoriais vão na mesma direção, dizem que as características deste impeachment deverão piorar a nossa crise política. O NYT afirma que Dilma tem razão ao questionar os motivos de seu afastamento e a autoridade moral dos que a julgam, ressalta que ela foi eleita duas vezes e que a ira hoje direcionada à presidente afastada pode se voltar contra seus algozes.

Para o jornal espanhol, a destituição de Dilma "não soluciona nada e aumenta a instabilidade no país". Frisa que Temer não renunciou à vice-presidência quando seu partido decidiu abandonar o governo da petista - sua permanência, por aqui, foi questionada por apenas algumas vozes isoladas. O El País também lembra que o PMDB está atormentado por escândalos na justiça.

Insisto: não podemos ter a postura colonizada de achar que os estrangeiros é que conhecem nossas vidas e nossos problemas, mas não podemos deixar de saber o que eles estão pensando a nosso respeito. Até porque a credibilidade de um país e de suas instituições é fundamental neste, aí vale o chavão, mundo tão globalizado. Niguém investe numa república de bananas.

Para terminar: o correspondente Jens Glusing, do site da revista alemã Der Spiegel, escreveu que "o drama em torno da presidente é um vexame para um país afundado na crise". O portal Terra frisa que, segundo o jornalista, "o grande e orgulhoso Brasil terá que se resignar a, no futuro, ser citado por historiadores ao lado de Honduras e Paraguai - e não só por causa de apresentações bizarras de seus representantes populares. Também em Honduras e Paraguai, presidentes eleitos foram afastados de forma questionável do cargo." Para ele, o "espetáculo indigno" apresentado pelos políticos brasileiros "prejudicou de forma duradoura as instituições e a imagem do país".


Os olhos bem abertos da Justiça

separador Por Fernando Molica em 05 de maio de 2016 | Link | Comentários (0)

A segunda instância do Judiciário fluminense transformou em prestação de serviços comunitários a pena do sujeito que fez pega num túnel interditado, atropelou e matou um jovem e, com a ajuda do pai, subornou PMs. Ele, fica a sugestão, bem que poderia prestar serviços comunitários a outros criminosos - poderá, por exemplo, ensiná-los a driblar a Justiça.

A Justiça paulista deixou que a mulher condenada por matar os pais possa comemorar nas ruas o Dia das Mães - como destacou o Meia Hora, é o caso de liberar o ex-goleiro Bruno no Dia dos Namorados.

E o ministro Teori, do STF, conclui, quase cinco meses depois do pedido de afastamento feito pelo Janot, que o Cunha é feio, bobo e cara de mamão. Conclusão sacramentada depois de o presidente da Câmara atuar de forma decisiva para derrubar a Dilma e garantir o aumento do Judiciário.

Por conta das sucessivas trapalhadas e roubalheiras promovidas por integrantes do Executivo e do Legislativo, tendemos a ser mais complacentes com o Judiciário, um poder que sabe cuidar de suas aparências, de seus rituais. É como se seus integrantes estivessem acima dos homens e mulheres comuns, como se aquelas capas pretas os preservassem os pecados e das tentações que nos cercam. A frase "A Justiça decidiu!" é sempre exclamativa, pronunciada em tom de verdade absoluta.

Besteira, trata-se do único poder constituído sem voto popular - basta passar num (difícil) concurso para o sujeito poder mandar prender e mandar soltar. Ainda muito jovens, os caras passam a ter poderes absurdos, e salários recheados de vantagens, de penduricalhos. A nomeação de desembargadores e de ministros de tribunais superiores é um processo tão político quanto qualquer outro, os candidatos são obrigados a fazer campanha eleitoral, a buscar votos entre aqueles que têm o poder de nomeá-los.

Fiscalizar o Judiciário é mais complicado. Ao contrário do que ocorre nos outros poderes, todos são do mesmo partido, uma lógica que favorece uma troca de favores que seria encarada de forma escandalosa se tivesse lugar no Executivo ou no Judiciário.

O Judiciário é tão político quanto o Executivo e o Legislativo. Só que exerce seu poder de maneira mais inteligente, e com os olhos bem abertos.


O impeachment e o precedente

separador Por Fernando Molica em 04 de maio de 2016 | Link | Comentários (1)

A pressa do senador Antonio Anastasia (PSDB-MG) manifestada na entrega de seu relatório de 126 páginas favorável ao impeachment da Dilma é mais um ato que colabora para fragilizar um processo muito grave, que envolve o afastamento de um presidente da República.

O depoimento de advogados convocados pela defesa da presidente terminou na noite de ontem, é impossível que o teor dos longos debates tenha sido levado em conta pelo senador e por seus assessores que, menos de 15 horas depois do término da sessão, protocolaram o relatório.

Todo mundo sabia qual seria a conclusão do senador, mas o Anastasia poderia ter esperado uns dias. Isto, pelo menos, para passar à Nação a ideia de que agira com cuidado, com atenção, com rigor. .

Senadores, deputados e políticos como Michel Temer parecem não atentar para um fato óbvio. Tudo o que está sendo feito hoje terá consequências graves daqui pra frente. Eles não estão apenas afastando uma presidente impopular, estão abrindo um precedente gravíssimo - o próximo presidente a ser eleito num pleito com 143 milhões de eleitores não passará de um refém dos 594 senadores e deputados.

O voto destes parlamentares passará a valer muito mais do que o nosso. Eles terão, a partir do impeachment, uma espécie de poder revisor do voto popular. Em nome de Deus e da família, suas excelências é que dirão se o nosso voto pode valer. Não deixa de ser irônico que isso ocorra depois de tanta luta pela volta das eleições diretas para presidente.

Antes, um presidente assumia preocupado em ter base parlamentar para poder governar; a partir de agora, qualquer futuro presidente, de qualquer partido, saberá que precisará cortejar os deputados e senadores, que deverão ser mimados, atendidos, e - por que não? - muito bem comprados. Caso contrário, o presidente correrá o sério risco de ser derrubado. O mercado de compra e venda de votos no Congresso, veja só, sai fortalecido depois de tanta luta contra a corrupção.

Não haverá falta de pretextos para o impeachment - até as colunas do Palácio do Planalto sabem que Dilma não está sendo derrubada pelas tais pedaladas. As grandes manifestações contra Dilma começaram em março do ano passado, dois meses e meio depois de sua nova posse na presidência.

Não me lembro de ter visto, naqueles primeiros atos, qualquer referência a supostas fraudes orçamentárias - havia uma justa revolta com a roubalheira revelada pela Lava Jato, inconformismo com a derrota do Aécio e até ódio ao suposto comunismo representado pelo PT.

Mas aquelas pessoas vestidas de verde e amarelo não falavam nas pedaladas. O pretexto veio depois e, insisto, abre um grave precedente. O relatório que pede o impeachment do presidente a ser eleito em 2018 já deve estar sendo esboçado em algum gabinete do Congresso Nacional.


Resenha publicada no 'Guia Folha', 'Folha de S.Paulo'

separador Por Fernando Molica em 30 de abril de 2016 | Link | Comentários (0)

Narrado na segunda pessoa, este romance é uma longa carta de um brasileiro que viaja pela Europa à ex-mulher. "Eu fugi de você e você deu um jeito de vir": o sujeito não consegue curtir a viagem solo e tem de narrar sua crise de meia-idade -pelo menos é o que o leitor acredita no começo.

O narrador é um jornalista, como o autor do romance, editor de "O Dia". Estamos novamente no terreno da autoficção (talvez este "Guia" precisasse um dia abrir a seção "Ficção Biográfica"). Narram-se manifestações contra a Copa e negociatas entre governo e publicitários; doleiros e policiais federais são personagens.

Narra-se, sobretudo, a derrocada moral de um jornalista que virou assessor de imprensa no mundo político, enriqueceu, envolveu-se com duas mulheres ao mesmo tempo, traiu companheiros e largou na estrada os ideais marxistas da juventude e os ideais românticos de partilhar a vida com alguém.

Promíscuo, cínico e vazio, ele simboliza nossa época desiludida -em que uma viagem existencial é só motivo pra clicar um autorretrato vulgar que ninguém vai ver. (RONALDO BRESSANE)

UMA SELFIE COM LENIN
AUTOR Fernando Molica
EDITORA Record
QUANTO R$ 30 (112 págs.)
AVALIAÇÃO ** (MUITO BOM)

30/4/2016


'Uma selfie' na rede

separador Por Fernando Molica em 28 de abril de 2016 | Link | Comentários (0)

Aí vão comentários postados no Facebook sobre 'Uma selfie com Lenin'. Até aqui, a recepção tem sido bem legal - e é muito bom perceber as diferentes leituras do livro.

Antônio Torres,escritor:

LIVROS À CABECEIRA

Bom ver que nem tudo está parado ou que o país não parou de vez. Conquanto estejam pondo o pé no freio, por motivos óbvios, há editoras que ainda arriscam suas fichas, pelo menos em relação às pratas da casa, como é o caso da Record, que acaba de mandar às livrarias os livros assinalados abaixo, pela ordem de chegada à minha cabeceira:

1. "Uma selfie com Lenin", de Fernando Molica - curto romance, em número de páginas, mas longo em significados, e no qual as atualidades políticas, existenciais e "lavajatorias" nele se colam, com malícia, ambição, sedução, grana, num texto cheio de ginga, bem carioca.

2. "Os contos completos", de Alberto Mussa, premiadíssimo romancista que surpreende pela encantadora fabulação e fina carpintaria destas pequenas histórias.

3. "Luxúria" - romance de Fernando Bonassi, também conhecido como roteirista de cinema e dramaturgo, e que narra, "com ironia e realismo, um momento em que a soberba se espalhou pelo país, convencendo até o lascivo homem comum".

4, Por fim, mas não por último, "Welcome to Copacabana", reunião de 20 histórias de outro romancista consumado, muito lido, premiado e traduzido mundo afora, que se assina Edney Silvestre, um autor sempre bom de ler. Sim, distintas e distintos navegantes: se confiam minimamente no gosto literário deste que vos escreve, corram à livraria mais à mão.

Parabéns, caríssimo editor Carlos Andreazza, pelas suas vigorosas apostas.


Henrique Rodrigues, escritor:

Recomendo pacas Uma selfie com Lenin, romance do Fernando Molica. O protagonista é um antinefelibata, que durante um voo passa a limpo sua história e a do país numa longa carta. Incrível como o Molica joga com o particular e o público de forma equilibrada com o difícil recurso da segunda pessoa.


Sergio Leo, escritor e jornalista:

Não vou fazer resenha aqui, porque o sujeito é amigo meu de algumas décadas e não tenho imparcialidade. Mas sou crítico com o que escrevo e com o que os amigos escrevem, e acabo de terminar, deliciado, "Uma Selfie com Lenin", do Fernando Molica _ obrigado feriadão de Tiradentes.

O "Notícias do Mirandão", dele, é leitura indispensável para quem se interessa pelas tenebrosas transações entre tráfico, politica e imprensa no Rio de Janeiro. Aprendi muito, divertindo-me com ele. Já esse Selfie com Lenin, de timing perfeito, é uma amarga introdução ao mundo da corrupção banalizada, que atrai talentos na política e no jornalismo, e se quer respeitável.

Ousadia pesada, essa, de fazer do romance uma longa carta, e de mesclar a história com digressões que caberiam num textão de facebook, não fossem tão bem desenvolvidas, tão cuidadosamente escritas, tão calculadamente precisas, tão economicamente literárias.

Mas, como eu dizia, não vou fazer resenha porque adoro o sujeito por trás do livro. E, se fosse mulher, só não daria para ele porque está na cara que não deve ser muito bom de cama. mas escreve pacas.


Cid Benjamin, jornalista:

Pessoal, acabei de ler o último livro do Fernando Molica: "Uma selfie con Lenin". É muito bom. Uma leitura leve, agradável e instigante. Recomendo.


Ricardo Lísias, escritor:

Comecei a prestar atenção em Uma selfie com Lenin depois de ver a capa compartilhada pelo autor no Facebook. Eu me lembrava vagamente da estátua do velho líder comunista, embora não conseguisse identificar na memória onde a tinha visto. Deve ter sido na viagem que fiz ao Leste Europeu em 2002. Em um velho álbum de fotos (não era ainda a época das imagens perfeitas do iPhone), localizei o lugar: um parque em Budapeste onde a administração da cidade, depois da queda do regime comunista, teve a feliz ideia de recolher as maciças estátuas que outros países, como a Romênia ou a Polônia, fizeram a besteira de destruir.

Um pouco depois, quando Fernando Molica compartilhou também um trecho do livro, pude confirmar minha suspeita: "Mas os caras foram mais criativos. Reuniram aqueles monstrengos, os despacharam para a periferia da cidade e criaram o Memento Park, um Jurassic Park do socialismo, o nome remete, veja só, a preces que tratam dos vivos e dos mortos. Entre os mortos-vivos de lá estão Marx, Lenin, Engels e, personagem principal, o povo." Fico fascinado quando leio algo que me faz lembrar os lugares que me marcaram.

Uma selfie com Lenin é um livro fascinante. No enredo, personagens que tomaram conta do nosso dia a dia, como o doleiro, o lobbysta, um inequívoco Lindbergh Farias (sem o nome, por certo), malas de dinheiro e as manifestações de 2013. Há algo que me fascina ainda mais do que ler sobre os lugares que me marcaram: o mundo contemporâneo. Por isso, li o romance de Molica em uma tarde. Trata-se de um longo monólogo, em que em alguns momentos o narrador finge estar escrevendo uma carta. O artifício de ocultar um gênero no outro não é gratuito, já que no livro todo mundo parece estar fingindo alguma coisa.

Todos os relacionamentos descritos na novela têm um interesse disfarçado. O narrador mal esconde o ressentimento por trás do cinismo. É difícil aqui não adiantar alguma coisa do enredo, mas vale a máxima de que quem engana um dia será enganado. O narrador, por exemplo, tenta enganar o leitor já no início ao afirmar que viaja por causa de uma desilusão amorosa. O próprio leitor não vai se deixar enganar quando aparece a famosa estagiária sedutora. Claro que ele vai cruzar com a garota nos braços de outra pessoa, mas depois o leitor também é enganado pelo narrador: não é bem ela que o aguarda em uma determinada portaria carioca.

Enganar significa evidentemente fazer movimentos de um lado para o outro. O narrador, portanto, tinha que estar mesmo viajando. Uma selfie com Lenin é um desses livros que parecem estar com todos os procedimentos no lugar. Mas mesmo isso serve para incomodar o leitor, pois a narrativa mostra um extremo deslocamento de padrões éticos. De início, achei que esse descompasso pudesse ser um possível defeito literário. Como usar tão bem as ferramentas formais para criar uma narrativa em que nada está no lugar que deveria estar?

Devo dizer que li o romance de Fernando Molica na semana que antecedeu a votação do pedido de impeachment na câmara dos deputados. Inclusive, reli todos os trechos que tinha grifado no mesmo dia em que Michel Temer fez vazar o seu tenebroso áudio via whatsapp. Foi então que notei a coerência do romance: a falta de qualquer sentido ético em qualquer um dos planos de vida das personagens é de fato perfeita aqui, já que torna forma literária a grande tragédia brasileira - e latino-americana. Por isso, Uma selfie com Lenin é de fato um ótimo livro.


Flavio Izhaki, escritor:

Terminei em poucos dias a leitura do novo livro do Fernando Molica, "Uma selfie com Lenin". É um interessante romance-confissão. Na minha leitura, um livro sobre dominação. Uma personagem subjuga a outra, interfere sobre a outra, monta sobre a outra. Mas com o correr das páginas, o personagem subjugado, aquele que confessa, vai percebendo que no fundo ele não estava preso, fez as escolhas que fez também por decisão sua, os fins dele também ignorando os meios. Talvez não subjugados, mas embaralhados no desastre iminente da queda.

Estruturar um romance como uma longa carta é um risco altíssimo. Muita coisa pode dar errado - a falta de enredo, o mesmo tom se arrastando por várias páginas, a falta de interlocução ou uma troca falsa - mas Molica consegue se equilibrar na corda bamba o tempo todo e desconstruir o próprio discurso do narrador e o mundo (da política) que é apresentado.


Leandro Resende, jornalista:

Meu avô Jaime, responsável pela minha introdução aos livros, não viveu pra ver que desenvolvi uma peculiaridade (que depois soube, felizmente não ser só minha): findada a leitura, releio a última frase, fecho e releio orelhas e contra-capa. É uma forma de adiar o fim do livro, talvez, e de criar um vínculo com o que, afinal, acabou de terminar.

Enquanto sacolejo sob Copacabana no metrô, posto este retrato com Fernando Molica, autor de "Uma Selfie com Lenin", lançado esta semana e que - vamos ao lide - é um livro incrível, a ser lido por todos os angustiados nestes tempos confusos em que vivemos.

Há um trecho, que destaco sem spoiler, em que o protagonista revela nosso gosto por verdades tortas, grosso modo um resumo da nossa inabilidade em nos admitir e verbalizar nossas convicções, já que elas expõem tantas contradições. Parto daí para contar, tão somente, que trata-se de romance onde um angustiado protagonista redige uma carta para sua ex-chefe e ex-amante, tentando passar às palavras sua mudança de jornalista idealista, para mais um no meio de uma tensa rede de corrupção.

Mais que isso, Uma Selfie com Lenin radiografa nossos tempos ao tratar do egoísmo das redes sociais, da cortina de fumaça que cobre os monumentos e os ídolos, da grave crise que se espalhou sobre todas as camadas da nossa política. Tudo relatado na forma de reflexão de um personagem que roda a Europa em busca de si, e escreve ensandecidamente para desnudar seus anjos e seus demônios. Tudo, ainda, sem a pretensão de esgotamento legada aos romances.

São passagens incríveis como a análise do museu britânico, a descrição inicial tensa dos aeroportos, e o Gouveia, político idealista rei do "não é bem assim". Meu vô Jaime, para quem indicaria o livro em gratidão , iria gostar muito das últimas páginas, surpreendentes à Sidney Sheldon. Viva Molica e as boas coisas que a gente tem sorte de ler!


Obra lança um olhar irônico sobre os relacionamentos

separador Por Fernando Molica em 26 de abril de 2016 | Link | Comentários (0)

Matéria do jornal 'Metro', edição de Vitória, 26/4..

Dilemas políticos, éticos e amorosos são o ponto de partida do livro "Uma selfie
com Lenin", do jornalista e escritor Fernando Molica. A obra, lançada neste mês,
traz um olhar irônico sobre a política do país ao narraras manifestações ocorridas
em 2013 e 2014.

A obra é escrita como uma longa carta do narrador à ex-chefe e ex-namorada,
Eloísa. O personagem é um jornalista recém-saído de um trabalho como
assessor de políticos, que embarca numa viagem pela Europa após se desiludir
com a carreira. Dentro do avião, durante um voo entre Amsterdã
e uma cidade asiática, ele decide escrever a carta, em que passa a limpo seus
amores e os dilemas políticos do Brasil, sempre de uma forma irônica.

"Quis mostrar o impacto da política na vida do personagem. Ele escreve uma carta
como uma prestação de contas da vida sentimental e do trabalho, além de comentar
algumas situações políticas do país e tentar explicar seu sumiço. Na carta, o personagem
faz algumas ironias com a ex-mulher, com ele mesmo e com a política
do país, sempre de maneira crítica, que é uma forte característica do personagem",
relatou Fernando Molica.

O título da obra "Uma selfie com Lenin" refere-se a uma passagem do livro, em que
o personagem faz uma visita ao Memento Park, em Budapeste. Como forma de
protesto, ele tira uma foto com uma estátua de Vladimir Ilitch Lenin, um dos
maiores símbolos da extinta União Soviética.

Os interessados em comprar a obra, da editora Record, podem procurá-la em
livrarias físicas e virtuais, por R$ 29,90.

Formado pela Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro,
o jornalista Fernando Molica é autor dos romances "Notícias do Mirandão", "O
ponto da partida", "O inventário de Julio Reis" e "Bandeira negra, amor", além do
infanto-juvenil "O misterioso craque da Vila Belmira".

Por duas vezes, o autor foi finalista do Prêmio Jabuti e, atualmente, assina
uma coluna diária no jornal O Dia.


Lísias e 'Uma selfie com Lenin'

separador Por Fernando Molica em 19 de abril de 2016 | Link | Comentários (0)

No blog 'Peixe Elétrico', o escritor Ricardo Lísias publica resenha sobre 'Uma selfie com Lenin':

Não é nada disso

Comecei a prestar atenção em Uma selfie com Lenin depois de ver a capa compartilhada pelo autor no Facebook. Eu me lembrava vagamente da estátua do velho líder comunista, embora não conseguisse identificar na memória onde a tinha visto. Deve ter sido na viagem que fiz ao Leste Europeu em 2002. Em um velho álbum de fotos (não era ainda a época das imagens perfeitas do iPhone), localizei o lugar: um parque em Budapeste onde a administração da cidade, depois da queda do regime comunista, teve a feliz ideia de recolher as maciças estátuas que outros países, como a Romênia ou a Polônia, fizeram a besteira de destruir.

Um pouco depois, quando Fernando Molica compartilhou também um trecho do livro, pude confirmar minha suspeita: "Mas os caras foram mais criativos. Reuniram aqueles monstrengos, os despacharam para a periferia da cidade e criaram o Memento Park, um Jurassic Park do socialismo, o nome remete, veja só, a preces que tratam dos vivos e dos mortos. Entre os mortos-vivos de lá estão Marx, Lenin, Engels e, personagem principal, o povo." Fico fascinado quando leio algo que me faz lembrar os lugares que me marcaram.

Uma selfie com Lenin é um livro fascinante. No enredo, personagens que tomaram conta do nosso dia a dia, como o doleiro, o lobbysta, um inequívoco Lindbergh Farias (sem o nome, por certo), malas de dinheiro e as manifestações de 2013. Há algo que me fascina ainda mais do que ler sobre os lugares que me marcaram: o mundo contemporâneo. Por isso, li o romance de Molica em uma tarde. Trata-se de um longo monólogo, em que em alguns momentos o narrador finge estar escrevendo uma carta. O artifício de ocultar um gênero no outro não é gratuito, já que no livro todo mundo parece estar fingindo alguma coisa.

Todos os relacionamentos descritos na novela têm um interesse disfarçado. O narrador mal esconde o ressentimento por trás do cinismo. É difícil aqui não adiantar alguma coisa do enredo, mas vale a máxima de que quem engana um dia será enganado. O narrador, por exemplo, tenta enganar o leitor já no início ao afirmar que viaja por causa de uma desilusão amorosa. O próprio leitor não vai se deixar enganar quando aparece a famosa estagiária sedutora. Claro que ele vai cruzar com a garota nos braços de outra pessoa, mas depois o leitor também é enganado pelo narrador: não é bem ela que o aguarda em uma determinada portaria carioca.

Enganar significa evidentemente fazer movimentos de um lado para o outro. O narrador, portanto, tinha que estar mesmo viajando. Uma selfie com Lenin é um desses livros que parecem estar com todos os procedimentos no lugar. Mas mesmo isso serve para incomodar o leitor, pois a narrativa mostra um extremo deslocamento de padrões éticos. De início, achei que esse descompasso pudesse ser um possível defeito literário. Como usar tão bem as ferramentas formais para criar uma narrativa em que nada está no lugar que deveria estar?

Devo dizer que li o romance de Fernando Molica na semana que antecedeu a votação do pedido de impeachment na câmara dos deputados. Inclusive, reli todos os trechos que tinha grifado no mesmo dia em que Michel Temer fez vazar o seu tenebroso áudio via whatsapp. Foi então que notei a coerência do romance: a falta de qualquer sentido ético em qualquer um dos planos de vida das personagens é de fato perfeita aqui, já que torna forma literária a grande tragédia brasileira - e latino-americana. Por isso, Uma selfie com Lenin é de fato um ótimo livro.


Um livro sobre dominação

separador Por Fernando Molica em 19 de abril de 2016 | Link | Comentários (0)

Do escritor Flávio Izhaki sobre 'Uma selfie com Lenin':

Terminei em poucos dias a leitura do novo livro do Fernando Molica, "Uma selfie com Lenin". É um interessante romance-confissão. Na minha leitura, um livro sobre dominação. Uma personagem subjuga a outra, interfere sobre a outra, monta sobre a outra. Mas com o correr das páginas, o personagem subjugado, aquele que confessa, vai percebendo que no fundo ele não estava preso, fez as escolhas que fez também por decisão sua, os fins dele também ignorando os meios. Talvez não subjugados, mas embaralhados no desastre iminente da queda.

Estruturar um romance como uma longa carta é um risco altíssimo. Muita coisa pode dar errado - a falta de enredo, o mesmo tom se arrastando por várias páginas, a falta de interlocução ou uma troca falsa - mas Molica consegue se equilibrar na corda bamba o tempo todo e desconstruir o próprio discurso do narrador e o mundo (da política) que é apresentado.


Teocracia brasileira

separador Por Fernando Molica em 19 de abril de 2016 | Link | Comentários (0)

Ou seja, o Brasil é uma teocracia gerida por homens e mulheres que, em nome de Deus, defendem os interesses de suas próprias famílias. A julgar pelas declarações de voto, estados e cidades não são espaços onde ocorre uma legítima disputa de interesses conflitantes, mas entidades etéreas, sem história, sem disputas, sem gente.


Brizola tinha razão

separador Por Fernando Molica em 19 de abril de 2016 | Link | Comentários (0)

Morto há 12 anos, Leonel Brizola teria agora o direito de dizer algo como "Eu avisei". Em 1992, o então governador do Rio evitava reforçar o coro pelo impeachment de Fernando Collor de Mello. Ao contrário de outros partidos de oposição, em especial o PT, o pedetista tratava do assunto de forma evasiva, escorregadia. O gesto lhe traria sérias consequências políticas -- seus 11,168 milhões de votos em 1989 cairiam para pouco mais de 2 milhões na eleição presidencial de 1994.

Na época, Brizola foi acusado de privilegiar seu bom relacionamento com Collor, que chegara a adaptar, para o governo federal, o programa de construção de escolões desenvolvido no Rio de Janeiro. Mas quem ouvisse com atenção seus pronunciamentos e entrevistas veria que a preocupação do governador era outra. Herdeiro e representante do trabalhismo, Brizola acompanhara a derrubada da Presidência de duas de suas referências políticas, Getúlio Vargas e João Goulart. Em 1961, então governador do Rio Grande Sul, ele comandara, de armas na mão, a resistência aos ministros militares, que tentavam impedir a posse de Goulart; três anos depois, acompanharia a deposição do presidente e cunhado, vítima de um golpe articulado em quartéis e grandes empresas.

O veterano político sabia que, por mais graves que fossem os crimes atribuídos a Collor, o impeachment do primeiro presidente eleito pelo voto direto desde 1961 criaria um perigoso precedente para a jovem democracia brasileira. Sabedor da tendência conservadora da maioria dos parlamentares, o pedetista, que ainda tinha esperança de chegar ao Palácio do Planalto, não queria deixar nas mãos de senadores e deputados o direito de poder derrubar um presidente.

Neste domingo, o temor de Brizola se revelou procedente. A abertura do processo que deve levar Michel Temer ao poder revela que os votos dos 594 integrantes do Congresso Nacional pesam muito mais do que os de 143 milhões de eleitores. Mais do que abrir a porteira para o impeachment, a oposição ressuscitou a eleição indireta para presidente. As declarações de voto dos oposicionistas evidenciaram que eles não condenavam as tais pedaladas fiscais, apenas trataram de conquistar, no plenário, uma vitória que lhes fora negada nas urnas. Agora, cada político que for eleito para a Presidência será refém dos senadores e deputados, terá que agradá-los, cortejá-los, cumprir suas vontades, quitar suas faturas. Não bastará vencer a eleição, será preciso entregar anéis e dedos -- e sabe-se lá mais o quê -- para permanecer no cargo.

(Coluna Estação Carioca, O DIA, 18/4)


Os antigos aliados do PT

separador Por Fernando Molica em 19 de abril de 2016 | Link | Comentários (0)

O que espanta não é o fato de tantos deputados votarem contra Dilma. O curioso é saber que, até anteontem, esses mesmos parlamentares sustentavam governos petistas. Há mais de uma década que o PT desistiu de formar uma bancada consistente, afinada com as propostas do partido - há muito abandonara a prática de pedir votos na legenda, no 13.

Sacou que comprar votos no Congresso era mais simples e mais barato do que eleger seus próprios quadros. De uma hora para outra, Lula ficou mais próximo de Sarney do que do Chico Alencar. No sufoco, voltou a contar com os velhos companheiros, mas não conseguiu travar o desembarque dos amigos de ocasião.

Em nome de Deus, da Pátria (e do Mato Grosso, de Minas, de Itaguaí, de Santa Catarina) e da Família, os antigos apoiadores do petismo voltaram para ninhos mais compatíveis com suas próprias histórias - e deixam para o PT a lição de que nem sempre o caminho mais curto é o melhor.


Deus e o impeachment

separador Por Fernando Molica em 19 de abril de 2016 | Link | Comentários (0)

A quantidade de deputados que fala em Deus ao votar pelo impeachment revela como é preocupante esta opção de políticos por algo que não deveria ser objeto da política - a religião. A opção pelo divino exime deputados de discutir problemas concretos, terrenos. Ficam assim livres de falar em crescimento, distribuição de renda, reforma agrária, desemprego, crise econômica, saneamento, saúde, educação, transportes.

A ênfase no Céu revela também o interesse de muita gente em manter eleitores afastados da política real - e, mais grave, demonstra como a discussão política é algo estranho à vida de milhões de brasileiros, pessoas que, de maneira sincera, duvidam de sua própria capacidade de influir nos destinos de suas comunidades, de seu país. Preferem terceirizar esta tarefa, entregá-la nas mãos de quem se diz representante de Deus.

A derrota anunciada também mostra o oportunismo petista de, nas últimas décadas, cortejar integrantes da bancada evangélica. Em nome dos votos, o PT abriu de discutir política com os fiéis evangélicos, preferiu conchavar com os pastores, mesmo com aqueles acusados de tantos e tantos crimes - no fim das contas, nesta semana, o Bispo Macedo, sequer aceitou se reunir com Lula
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Dilma também optou por fingir uma fé que, todos sabemos, não tem. Ela, que enfrentou situações tão terríveis, preferiu se apresentar como católica, negou bandeiras que faziam parte da luta histórica do movimento feminista. Ao fazer isso, o PT e Dilma apostaram no atraso, reforçaram a ideia de que um ateu não é tão digno ou confiável quanto um cristão. Agora, se veem obrigados a engolir uma derrota também imposta em nome de um deus que tantos petistas dizem não existir.


Mãe de candidato pode ser vice?

separador Por Fernando Molica em 16 de abril de 2016 | Link | Comentários (0)


Quanto é que vai ganhar o leiloeiro
Que é também brasileiro
E em três lotes vendeu o Brasil inteiro?
Quem dá mais?

'Quem dá mais?' ('Leilão do Brasil'), Noel Rosa

Independentemente do resultado de amanhã, o processo de impeachment e a campanha de Temer à presidência mudarão muitos dos conceitos relacionados à eleição direta no país.

Candidatos a cargos majoritários terão muito mais cuidado na hora de escolher seus vices. Antes do Golpe de 64, o vice-presidente era eleito de forma separada, o que volta e meia gerava crises institucionais. Ao grudar presidente e vice na mesma chapa, buscou-se acabar com o problema. O cargo de vice passou a ser oferecido a outros partidos como forma de garantir uma aliança. Isso não acabou com as rusgas, mas nunca antes um vice conspirou tão abertamente contra um presidente - Temer tem programa de governo, articula apoios e tem até discurso de posse. E agora? O que farão os partidos? Vão clonar o Marco Maciel, vice de FHC? Vão tentar fazer um novo José Alencar, vice do Lula? Como escolher um vice? Mãe de candidato pode ser vice?

Todo esse processo deu um poder absurdo ao Congresso Nacional. Deputados e senadores notaram que podem derrubar um presidente da mesma forma como se tira o cargo de um primeiro-ministro. Os parlamentares descobriram que são capazes de mudar a decisão dos eleitores - eles ganharam o direito de fazer um terceiro turno pela via indireta. Sacaram que formam um colégio eleitoral como o que havia na ditadura. Agora, todos os futuros presidentes da República assumirão sabendo que poderão ser chantageados pelo Congresso por conta de seus erros ou por seus acertos.

Por seu caráter majoritário, a eleição para o Executivo permite a escolha de candidatos menos identificados com a política tradicional, foi o que permitiu a ascensão de Lula e, mesmo, de FHC - Marina Silva tem chance de virar presidente, mas sabe que seu partido jamais terá uma grande bancada. A esquerda, de um modo geral, não gosta muito do parlamentarismo por saber que, neste sistema, suas chances são bem menores. O Congresso Nacional, esse congresso que conhecemos, com tantos parlamentares acusados de crimes, sabe, mais do que nunca, que tem o poder de enquadrar qualquer abusado que ouse fazer diferente. Deputados de senadores têm a força. Marina Silva e outros presidenciáveis (até Bolsonaro, veja só ) deveriam prestar mais atenção nisso.

Partidos mais, vá lá, ideológicos passarão a ter mais cuidado com suas alianças. O exemplo do PT é claro. Antigamente, o partido insistia no voto no 13 - tanto que os caras viraram campeões no voto de legenda. Ao conquistar a presidência e governos estaduais, o PT mudou também em relação a esse ponto. Descobriu que não precisava eleger tantos deputados, era mais fácil, digamos, fazer o que todos os outros partidos faziam - ir ao mercado e adquirir os apoios necessários. A adesão do José Alencar ocorreu desse jeito - Lula conversava com ele na sala enquanto que, no quarto, Zé Dirceu, Delúbio e Valdemar Costa Neto acertavam as contas - o apoio do PL ao PT foi comprado por R$ 10 milhões, dinheiro para a campanha do partido do vice.

O Mensalão e, mais ainda, o Petrolão mostraram que ficou perigoso demais operar no sistema antigo. Em tese, partidos, pelo menos os que não se contentam em ser um balcão de oportunidades, terão que investir mais em seus próprios quadros. O problema é que dificilmente um partido terá maioria absoluta nas casas do Congresso - e, hoje, graças ao processo de impeachment e à campanha eleitoral do Temer, o passe dos parlamentares passou a valer mais. Como na música de Noel, quem dá mais?


A foto e o artigo

separador Por Fernando Molica em 15 de abril de 2016 | Link | Comentários (0)

1. A foto do sujeito que exibe maços de dinheiro desviado da merenda de escolas de São Paulo sintetiza o período em que vivemos. Pela arrogância, pelo escárnio e mesmo pela hipocrisia de muita gente.

2. O artigo/manifesto de Vladimir Safatle na Folha de hoje, um quase Aux armes, citoyens, dá pistas sobre o que pode ocorrer a partir de domingo.


Michel Temer e a Indireta Já

separador Por Fernando Molica em 15 de abril de 2016 | Link | Comentários (0)

Mais do que o impeachment de Dilma, o que está em jogo é a volta, ainda que provisória, da eleição indireta para presidente da República. Em 1992, buscava-se retirar Fernando Collor de Mello do poder -- a ascensão do vice, Itamar Franco, não era o objetivo principal de daquele processo.

Agora, o jogo é claro. Em busca de sua eleição e de carona na impopularidade de Dilma, Michel Temer faz campanha, negocia cargos, aprontou discurso de posse e divulgou, em outubro, seu programa de governo. Batizado de 'Uma ponte para o futuro' e chamado de "Plano Temer" por Moreira Franco -- um dos principais aliados do vice --, o texto traduz anseios do empresariado e ajuda a explicar a articulação que, ao gritar "Indireta já!", quer fazer do vice o novo presidente.

As propostas, que tentam organizar a economia, dificilmente seriam vitoriosas numa eleição direta. Assim, o atalho escolhido para eleger Temer representa uma oportunidade única de defender o ajuste como parte de um plano de salvação nacional. Como o atual vice não seria candidato à reeleição, ele poderia arcar com o ônus da impopularidade trazida pela adoção de medidas duras: no esboço de seu discurso, Temer alertou que haverá necessidade de "sacrifícios".

O plano defende o fim "de todas as indexações, seja para salários ou benefícios previdenciários". Reajustes, entre eles o do salário mínimo, seriam negociados com o Congresso, e não haveria garantia de reposição da inflação. Aposentados também perderiam direito ao salário mínimo dos trabalhadores ativos: "(...) é indispensável que se elimine a indexação de qualquer benefício ao valor do salário mínimo", diz a proposta. O programa também prevê idades mínimas para a aposentadoria, 65 anos para homens e 60 anos para mulheres.

O documento quer flexibilizar a aplicação das leis trabalhistas -- defende que "convenções coletivas prevaleçam sobre as normais legais, salvo quanto aos direitos básicos". O Plano Temer pretende acabar com a obrigatoriedade constitucional de se gastar com Educação 18% da receita resultante de impostos. O governo também deixaria de ter que aplicar na Saúde 15% de sua receita corrente líquida.

A eleição de Temer, se vingar, será indireta, mas seu programa não poderia ser mais direto.

O DIA, 13/4


Tédio

separador Por Fernando Molica em 14 de abril de 2016 | Link | Comentários (0)

Lembrei de um trecho do meu romance 'O ponto da partida', de 2005:

"Desde quando há falta de notícia por aqui? Isso aqui por acaso é a Suécia? Imagine o tédio de um plantão de domingo em jornal de Estocolmo. Nada acontece, ninguém mata ninguém, não tem chacina, invasão de favela, guerra de facções, bloqueio de via expressa. Que chatice. Os suicídios na Suécia devem ser mais comuns entre jornalistas, coitados."

Acrescentaria que, na Suécia, deputados não se reúnem num domingo para votar derrubada de governante.


Brasil do fim do século XX e início do XXI

separador Por Fernando Molica em 08 de abril de 2016 | Link | Comentários (0)

Resenha de Uma selfie com Lenin escrita por Jaime Cimenti e publicada no 'Jornal do Comércio., Porto Alegre.


O quinto romance do escritor Fernando Molica, nascido no Rio de Janeiro em 1961, Uma selfie com Lenin (Record, 112 páginas), acima de tudo, faz uma narrativa que retrata o Brasil entre fins do século XX e início do XXI.

Molica é autor dos romances Notícias do Mirandão e Inventário de Julio Reis, publicados pela Record, do livro-reportagem O homem que morreu três vezes (Record) e da narrativa infantojuvenil O misterioso craque da Vila Belmira, editado pelo Rocco. Molica já teve dois de seus livros lançados na Alemanha e por duas vezes foi finalista do Prêmio Jabuti.

Em Uma selfie para Lenin, o leitor vai acompanhar a trajetória altamente conflitante de um jornalista que vê seus ideais de juventude serem corroídos pelo galopante avanço de uma estrutura política baseada na corrupção. Tema, aliás, de dura atualidade para nós brasileiros.

O protagonista conta, com humor e certa dose de melancolia, seus caminhos profissionais e os rumos tortuosos que acabou trilhando pela vida.
O romance está escrito em formato de longuíssima carta, redigida durante um voo internacional, na qual o protagonista tenta, ao menos, fazer um ambicioso balanço de sua vida. Correspondência íntima, próxima da confissão, a carta revela para o leitor as muitas contradições do personagem. O leitor vai pensar se o narrador está em busca de sentido ou se está relatando passos que planejou. Acerto de contas ou registro de viagem programada?

Entre as idas e vindas pessoais e profissionais do protagonista, o leitor vai apreciando retratos de nossa história recente, dessas últimas décadas, tão tumultuadas. As muitas transformações e contradições do mundo contemporâneo estão emboladas com os trajetos do personagem. A selfie, índice máximo do individualismo promovido pelas redes sociais, é aqui realizada pelo narrador desiludido, buscando registrar seu encontro com um monumento em homenagem a um dos símbolos da busca por uma sociedade mais igualitária, Lenin.Com olhar irônico, o autor da carta vai descrevendo o vertiginoso declínio de determinados ideários políticos e, ao mesmo tempo, fala da ausência de novas alternativas.

"Acordei com o dia claro, envolto em lençóis úmidos, manchados pelo sangue que saíra da minha perna. Doia um pouco. Levantei, catei as roupas no chão, joguei tudo no box e tive, enfim, coragem de me ver no espelho. Eu envelhecera, Eloisa." Este é um dos trechos do romance, uma amostra da narrativa forte e impactante, dessas que têm tudo a ver com os tempos velozes, estilhaçados e doidos que vivemos.


BG
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