Estação Piedade: a biografia de Fernando MolicaEstante: livros públicados pelo MolicaPáginas Amarelas: textos, artigos e outras palavras maisJulio Reis: Biografia, Músicas e PartiturasBlog: Pontos de PartidaFoto MolicaClique para voltar a página principalFoto Molicawww.fernandomolica.com.brEntre em contato com o Fernando MolicaInformações para imprensa

Blog

Pontos de Partida, o Blog do Fernando Molica

separador
BG

Vivan de Moraes: "Saborosa narrativa"

separador Por Fernando Molica em 17 de janeiro de 2022 | Link | Comentários (0)

Em resenha sobre 'Elefantes no céu de Piedade' publicada em seu blog, Vivian de Moraes afirma que o "contraste entre a fase sombria da política brasileira e a vida de gente simples, morando em um subúrbio carioca, é o lance de mestre de Fernando Molica nesta obra, muito recomendada".

"O mais recente lançamento de Fernando Molica é um romance que apresenta uma deliciosa reconstrução histórica do início dos anos setenta em contraponto ao difícil momento político da época. O longo período, conhecido como ditadura militar brasileira, foi constituído por sucessivos governos que se alternaram no comando do poder Executivo, por meio dos generais: Castello Branco (1964-67), Costa e Silva (1967-69), Garrastazu Médici (1969-74), Ernesto Geisel (1974-79) e João Figueiredo (1979-85). O livro tem a sua ação focada durante o governo Médici, quando a repressão aos movimentos de esquerda se intensificou, assim como a propaganda institucional representada por slogans como o "Brasil Ame-o ou Deixe-o!".

O autor procura recontar esse período histórico de uma forma diferente, pelo ponto de vista ingênuo de uma criança de dez anos, um protagonista que tenta compreender o que está acontecendo à sua volta e é influenciado pela postura dos pais, familiares e amigos. De fato, o distanciamento político era característico nas famílias brasileiras. De um lado o sequestro a diplomatas e assaltos a banco pelos movimentos de esquerda e, do outro, pessoas sendo torturadas e mortas nos porões da ditadura. Neste ambiente, a recomendação dos pais era para que os filhos não se envolvessem com política, assunto evitado e proibido, portanto.

Um fato que contribuiu muito para a apatia política generalizada foi a exaltação do "milagre econômico" brasileiro com grandes obras de infraestrutura e o aumento da taxa do PIB o que, juntamente com a propaganda ufanista de direita, criou na população a expectativa de crescimento econômico e oportunidades. O lançamento do Opala, antes da crise do petróleo, é um símbolo desta fase, destaque no capítulo inicial do romance, quando a compra do novo carro, em substituição ao tradicional Fusquinha, é uma demonstração do progresso do país.


"O que mais me impressionou foi o tamanho do banco dianteiro. Imenso, contínuo, sem aquela divisão de onde, no Fusca, brotava a alavanca usada para a troca de marchas. Era bem diferente, a haste do câmbio ficava presa ao volante, liberava espaço, fazia com que na frente do carro houvesse quase uma cama. Haveria espaço também para mim, entre meu pai e minha mãe, talvez fosse preciso revezar com Fátima, minha irmã; um dia ela, no outro, eu. Mas, na estreia, na primeira volta, o lugar seria meu, claro que seria. Não daria pra ficar triste quando tivesse que ir para o banco traseiro, também espaçoso e confortável, em nada parecido com o do Fusquinha: duro, apertado, de lá era difícil até ver o que se passava do lado de fora. Para chegar aos meus olhos, o mundo precisava se espremer e só então penetrar por janelinhas esquisitas, triângulos de pontas arredondadas, vidros que só podiam ser abertos um pouquinho, e no sentido oposto ao da entrada do ar. Para que algum vento chegasse aos passageiros seria preciso que o veículo rodasse em marcha ré. No Opala, a conversa seria outra, havia janelas amplas também no banco traseiro, eu receberia na cara o ar quente do Rio, vento que jogaria meus cabelos para trás." (pp. 7-8)

A vida da famíla de classe média, narrada em primeira pessoa por Francisco, incluindo sua irmã Fátima de treze anos e os pais, transcorre tranquilamente no bairro de Piedade, no Rio de Janeiro, mas uma série de eventos irá afetar radicalmente o cotidiano de todos, iniciando com a chegada de um misterioso primo do Espírito Santo para um pretenso tratamento de saúde e, também, da suspeita do envolvimento de um outro parente em um assalto a banco para financiamento de ações de movimentos políticos de esquerda.


"Estava certo, sim, fazer o quê? Lembrei da música do Caetano que Roberto Carlos tinha acabado de lançar. Tudo estava certo como dois e dois são cinco. A soma dos fatos narrados pelo meu pai fazia tanto sentido quanto o resultado da conta citada na canção. Receberíamos a visita de um parente que seria mantida em segredo, ninguém deveria saber de sua presença em nossa casa. Um rapaz que tinha uma doença que poderia e, ao mesmo tempo, não poderia ser passada para outras pessoas. As explicações tortas provaram que, sim, o resultado de dois mais dois poderia ser cinco. Como aprenderia anos depois na faculdade, números também podem ser torturados, constrangidos a expressar a verdade que interesse ao seu algoz. Meu pai elaborara uma equação torta, violência matemática que traria consequências sérias para nossa família, episódios que em muito superariam a brincadeira formulada pelo autor da música. [...]" (pp. 38-9)


Aos poucos, fica evidente para o jovem protagonista que o primo Carlos Alberto não está doente de fato, mas fugiu de seu Estado por ser procurado pelas autoridades de repressão política locais. A situação de manter um foragido político escondido na própria casa altera toda a organização da família e o convívio com amigos e vizinhos, provocando diversos conflitos e a constatação do que realmente está ocorrendo no país, fatos, até então, de pouca relevância para todos. Este contraste entre a fase sombria da política brasileira e a vida de gente simples, morando em um subúrbio carioca, é o lance de mestre de Fernando Molica nesta obra, muito recomendada. Ah, sim! o curioso título ficará claro ao longo da leitura do romance, deixarei o prazer da descoberta com vocês, mais um dos méritos do autor nesta saborosa narrativa.


"Depois do futebol, a conversa com os amigos se revelaria estranha para mim. Os assuntos de sempre haviam se tornado dispensáveis, pouco interessantes, banais. Não disputei o direito de dar palpites sobre a menina de 13 anos, idade da Fátima, moradora da parte alta da rua e que, todo mundo sabia, deixava os garotos passarem a mão na sua bunda e pegar nos seus peitinhos. Isso não era para nós, meninos de 10, 11 anos, mas para os caras mais velhos, de 14, 15 anos, quase adultos. Um dos integrantes da roda garantiu que vira a tal menina trocar de roupa com a janela aberta, reparou nos seus peitos, no tufo de cabelo entre as pernas, Muito gostosa, cara! E, ó, quer saber?, ela me viu olhando, e nem deu bola, ainda abriu mais a janela - Piranha! - proclamou um dos meninos, para a concordância geral." (pp. 92-3)
"


Livros_da_de: "O final é devastador"

separador Por Fernando Molica em 05 de janeiro de 2022 | Link | Comentários (0)

Outra ótima resenha que trata de 'Elefantes no céu de Piedade' - esta, publicada no Instagram, por @livros_da_de:

Elefantes no céu de Piedade foi um dos últimos livros que li em 2021. Que leitura gostosa! Agradeço demais à Valéria da @oasyscultural que sempre me manda livros nacionais de excelente qualidade e bom gosto.
.
O livro é narrado por Francisco, uma criança de dez anos. No início dos anos 70, plena ditadura militar no Brasil, sua família é aquela que prefere não ver os absurdos, a violência, e acredita que foi melhor assim: os militares salvaram o país dos comunistas e trouxeram enfim ordem e progresso para o Brasil (mais de cinquenta anos depois, ainda tem gente com medo do golpe comunista... as pessoas não aprenderam nada mesmo) . Chamavam os que eram contra o governo de terroristas e defendiam a repressão do governo
.
Só que, de uma hora pra outra, aparece na casa deles um primo jovem, estudante de economia, que segundo os adultos, veio do Espírito Santo para fazer um tratamento de saúde. Mas logo fica claro que não era nada disso: Carlos veio para fugir da policia política. E a confusão na cabeça do menino está feita: quem está certo, Carlos ou seus pais?

O final é devastador. Eu, que adoro os livros que retratam esse período, fiquei chocada. E o pior é pensar que a história pode ser real. Pra quem gosta do assunto, fica a recomendação - a gente lê muito rápido porque é bem escrito e envolvente, e a história com certeza vai mexer com você.


Caio Barbosa: "Golaço"

separador Por Fernando Molica em 05 de janeiro de 2022 | Link | Comentários (0)

Mais um comentário sobre 'Elefantes no céu de Piedade' que me deixa muito feliz. Desta vez, do camarada Caio Barbosa:


Li em duas etapas o livro que é de se ler em uma só. Molica é um querido amigo, seu último livro já estava na lista de prioridades da vida e foi o primeiro a ser destrinchado entre os muitos que comprei para ler neste fim de ano. Elogiada por craques muito mais gabaritados do que eu, inclusive porque não tenho gabarito algum, é uma obra necessária ao nosso tempo.

De fácil leitura - o autor é bom nisso -, o livro trata as memórias de um jovem de 11 anos criado por uma família de classe média no subúrbio carioca até certo ponto alheia às atrocidades da ditadura. Uma realidade totalmente oposta à minha, mas idêntica à maioria das famílias brasileiras, o que ajuda a entender e explicar muita coisa. E tomara, evitar tantas outras. Golaço, @fmolica.


Cíntia Moscovich: "Uma maneira de começar o ano a bordo de excelente literatura"

separador Por Fernando Molica em 02 de janeiro de 2022 | Link | Comentários (0)

Escritora brilhante, Cíntia Moscovich fez esta coluna na 'Zero Hora' sobre 'Elefantes no céu de Piedade'. Ela, que já havia me honrado com a orelha do livro, agora se aprofunda em outros aspectos do livro:


CintiaMoscoZeroHora.jpg


Leandro Resende: "A história que Molica conta é excelente e, sobretudo, um alerta"

separador Por Fernando Molica em 02 de janeiro de 2022 | Link | Comentários (0)

O querido camarada Leandro Resende escreveu esta resenha bem legal sobre 'Elefantes no céu de Piedade':

Tirei essa foto sob o céu do Largo São Francisco da Prainha e guardei para o momento em que, enfim, tivesse lido sobre o que havia no céu de Piedade a ponto de elefantes voarem por lá. Como lá e cá, à época dos fatos, como em todo o país hoje, imensos Dumbos serpenteiam pelo ar por mais que os ignoremos. Os mamíferos sobre nossas cabeças vem de uma piada mineira que meu compadre @fmolica ressignifica para situar seu romance na ditadura militar. A piada, ele explica no livro, também nos revela como permanecemos atônitos e coniventes diante do arbítrio, que é indiscreto como só poderiam ser os paquidermes suburbanos do meu parceiro.

O livro é um thriller, acelerado, em que toda a ação se constrói na tensão que há entre o novo morador do quartinho de empregada (e faz pensar na própria existência do local e do termo, o espaço onde fica o que tentamos ignorar) e a vida feliz de uma família de classe média, vascaína e contente com seu Opala dos tempos do milagre econômico. O morador é contestador e faz o personagem mais novo desconfiar que, afinal, havia algo estranho em Piedade e no país.

Mais não digo, porque o livro vai de uma tacada só. Há, ainda, uma singela reflexão sobre o lugar da memória nesses tempos bicudos, valeria o escrito só por ela.

O velho Marx diz que a história se repete, primeiro como tragédia, depois como farsa. Tem um sentido histórico aí que não me cabe, e gente mais capacitada do que eu sabe discutir os conceitos da frase no detalhe. Mas o que a vida brasileira tem mostrado é que se repete, sim, mas primeiro como tragédia, depois como prolongamento de uma mesma tragédia. Da nossa insistência em ignorar violências e violações variadas, imensas como elefantes no céu.

A história que Molica conta é excelente e, sobretudo, um alerta.


André Giusti: "Precisamos falar disso sempre"

separador Por Fernando Molica em 27 de dezembro de 2021 | Link | Comentários (0)

Em seu blog, o escritor e jornalista André Giusti também recomendou a leitura de 'Elefantes no céu de Piedade'.

Ao contrário de Argentina, Chile e Uruguai o Estado e a sociedade brasileiros, de modo geral, não olham de frente as marcas da ditadura militar.

No lugar disso, de uns anos para cá há um trabalho espúrio de tentar abrandar suas chagas.

No Brasil, o avivamento da memória desse tempo de horror é tarefa executada principalmente pelas artes, e a literatura se destaca em manter em evidência as hashtags Para que Nunca Esqueçamos Para que Jamais se Repita.

Elefantes sobre o Céu de Piedade, novo livro de Fernando Molica, arregaça as mangas e faz esse trabalho, mostrando um ângulo de visão diferente sobre a brutalidade daqueles tempos.

Revela também que não apenas quem se envolveu na luta armada, promoveu reuniões, participou de passeatas ou lia e guardava livros "suspeitos" sofreu as consequências de 20 estúpidos anos da vida nacional.

Como toda forma de expressão que é veículo para que não se esqueça da barbárie, o livro de Molica é importante, principalmente nesses tempos em que o passado vive de ameaçar o presente e assuntar o futuro.


Olga de Mello sobre 'Elefantes no céu de Piedade': "Um trabalho sensível e primoroso de reconstituição de uma época"

separador Por Fernando Molica em 27 de dezembro de 2021 | Link | Comentários (0)

Em texto publicado na coluna de Anna Ramalho, a jornalista e escritora Olga de Mello incluiu 'Elefantes no céu de Piedade' entre indicações de presentes natalinos:

"Já aquele tio que sente saudade dos anos de chumbo pode se interessar pelas recordações de uma infância ficcional na Zona Norte do Rio nos anos 60/70 em Elefantes no céu de piedade (Patuá, R$ 45), de Fernando Molica. A rotina de um menino se transforma quando sua família de classe média típica precisa abrigar um parente que se tranca na casa e esconde um passado misterioso. O menino observar as estranhezas do comportamento dos adultos, que não comentam também a prisão de um tio depois do assalto ao banco em que ele trabalhava. Um trabalho sensível e primoroso de reconstituição de uma época em que pequenos e grandes segredos turvam a inocência das crianças."


O Botafogo continuará a ser meu

separador Por Fernando Molica em 25 de dezembro de 2021 | Link | Comentários (3)


Botafogotaca.jpg


Alguns amigos perguntam o que achei da venda do Botafogo. Acho um negócio meio esquisito, mas, pelas condições, inevitável. Clubes são resultado de decisões comunitárias, todos são criados por um grupo de amigos, vizinhos, correligionários. Não são fundados por uma pessoa, mas por um coletivo.

E o Botafogo de futebol - na prática, o que está sendo vendido - nasceu de maneira poética, é fruto do arroubo de alguns adolescentes que se reuniam no Largo dos Leões. Uma criação quase mitológica, que se encaixa tão bem nos textos de Paulo Mendes Campos sobre nossa paixão em comum.

Há muito que os grandes clubes deixaram de representar apenas determinados grupos ou comunidades, ainda que mantenham alguns pontos desse DNA. Descendentes de portugueses são, majoritariamente, vascaínos. Por ter sido criado na Zona Norte, por imigrantes ligados ao comércio, até hoje o Vasco tem uma torcida reduzida na Zona Sul.

Os clubes que ficaram presos às suas comunidades foram perdendo força, casos de Bonsucesso, Olaria, Campo Grande, São Cristóvão - que, não por acaso, carregam seus bairros de origem em seus nomes (essa é outra característica curiosa do futebol carioca, percebida também no Botafogo e no Flamengo, instituições que, ao longo dos anos, superaram as limitações geográficas originais).

Por conta do crescimento, os grandes clubes superaram seus fundadores, são muito mais representados por suas torcidas do que pelos seus sócios, frequentadores de suas sedes. Isso, na prática, já representou um rompimento com suas origens. Eles cresceram, ganharam o mundo, que bom.

De alguma forma, os clubes passaram a pertencer - não apenas no campo simbólico - aos seus torcedores, mesmo que estes não fossem sócios das respectivas agremiações. A pressão exercida sobre dirigentes reforça essa ideia de pertencimento, o quem manda aqui somos nós.

Mas, enfim, o mundo mudou, futebol virou um grande negócio, gigantes europeus pertencem a empresas, conglomerados, e nem assim deixaram de ter torcedores. O amadorismo que resistia à profissionalização tem a ver com o amor, mas também propiciou oportunismo, interesses políticos e roubalheira - muitos e muitos dirigentes ditos amadores ficaram ricos com o futebol.

Há algumas décadas times com características do Botafogo até conseguiam tocar o barco, beliscar títulos importantes. O problema é que, por conta de diversos fatores - entre eles, o pagamento das cotas de TV, valores que há até pouco tempo eram baseados apenas no tamanho das torcidas -, o futebol brasileiro ficou mais hierarquizado. Hoje, poucos times podem sonhar com o título do Brasileirão - triunfos de equipes como Guarani, Coritiba, Sport e Bahia ficaram para trás.

Nas atuais condições, o Botafogo não teria como repetir a vitória de 1995, estaria condenado a lutar para ficar na Série A, a batalhar por uma vaga na Sul-Americana e a sonhar com uma Pré-Libertadores. É muito pouco. Futebol é competição, envolve investimentos e busca de títulos, não dá para viver na base do hors-concours, o Botafogo não pode ser apenas um retrato na parede.

É constrangedor almejar ser vendido, ficar como as crianças pobres que, no Peru, há uns 30 anos, ofereciam bugigangas aos turistas aos gritos de "Compra-me, señor". É meio como estar na calçada, na batalha, torcendo para ser chamado por um senhor rico, a bordo de um carrão. Não é bom, mas era isso ou o fim. A questão agora é torcer para que a diretoria do Botafogo tenha brigado para colocar no contrato pontos que garantam o investimento no time e a preservação da marca e dos símbolos alvinegros.

O Botafogo sempre foi meu, apesar dos muitos dirigentes desprezíveis que passaram por lá - um deles, o pior, chegou a vender nossa sede e nosso estádio. Continuaremos botafoguenses, nossa estrela seguirá nos conduzindo. O Botafogo, a sua história e a memória de cada um de nós permanecerão, a despeito dos novos donos do futebol do clube. E, agora, teremos a perspectiva de um futuro.

Continuarei a ser dono do dia em que meu pai me levou para ver o primeiro jogo, em General Severiano; do caderno em que anotava o resultado de todas as partidas; da comemoração dos títulos de 1989 e de 1995; do grito de campeão em 2010 ao lado do filho mais novo (o mais velho viajara para fora do país, me ligou quando eu ainda estava no Maracanã); da ida com os dois filhos à inauguração do hoje Nilton Santos; do autógrafo do Nilton Santos; da comemoração, na arquibancada, da volta à Série A; da gaveta que guarda dezenas de camisas do clube - continuarei a hesitar na hora de escolher a que me levará ao estádio e abrirá caminhos para a vitória.

Continuarei a ser dono dos dribles do Garrincha, dos passes do Didi, da força e da técnica de Jairzinho, da rebeldia de Paulo Cézar e Afonsinho, do brilho solitário de Mendonça, das provocações e da pontaria de Túlio e de Loco Abreu. Continuarei a ser dono do que mais me define, do fogo no meu peito que nunca vai se apagar.



Ancelmo Góis: Antônio Torres indica 'Elefantes no céu de Piedade'

separador Por Fernando Molica em 23 de dezembro de 2021 | Link | Comentários (0)

Meu presente de Natal chegou cedinho: a indicação, pelo mestre Antônio Torres, de meu romance 'Elefantes no céu de Piedade'.
A nota foi publicada por outro querido mestre, Ancelmo Góis. O texto traz palavras de Torres sobre o livro:

A dica de hoje de um livro de presente neste Natal é do querido escritor "quase conterrâneo" Antônio Torres, 81 anos, baiano de Junco.

Ele sugere "Elefantes no céu de Piedade", romance de Fernando Molica publicado pela Patuá.

"A obra tem ao fundo os mandos e desmandos da ditadura militar, sob a ótica de um garoto que à época tinha 11 anos e aos poucos vai perdendo a inocência em relação às mentiras fabricadas pelo novo regime, nas quais a sua família acreditava. A trama é eletrizante".



Décio Torres: "Linguagem bastante atrativa ao leitor, por vezes com tons poéticos"

separador Por Fernando Molica em 21 de dezembro de 2021 | Link | Comentários (0)

Escritor, crítico literário, professor de literatura da UFBA, poeta (lançou 'Paisagens interiores' pela Editora Patuá), Décio Torres publicou no Facebook esse texto pra lá de gentil sobre 'Elefantes no céu de Piedade'. Aí vai a resenha:

O jornalista Fernando Molica é também um excelente romancista. Seu novo livro, "Elefantes no céu de Piedade", lançado pela Editora Patuá, conta a história de uma família classe média que mora no subúrbio carioca de Piedade, cuja vida é alterada pela chegada de um primo, vindo do Espírito Santo. Mas não há qualquer interferência divina de piedade do espírito santo sob o destino do primo. O que paira no ar o tempo todo é a presença simbólica de elefantes no céu que todos se recusam a ver, preferindo estabelecer um pacto de silêncio criminoso.

O enredo é narrado sob a perspectiva de um garoto de 11 anos na época da ditadura militar no Brasil. Essa visão de um momento histórico sob a perspectiva infantil nos remete ao primoroso filme de Edgard Navarro, "Eu me lembro" (2005), que se utilizou da mesma estratégia narrativa.

No romance de Molica, o garoto vai, aos poucos, perdendo sua inocência à medida em que vai descobrindo as mentiras fabricadas pelo novo governo, nas quais todos ao seu redor acreditavam. Só após descobrir o envolvimento de membros de sua família nas ações contra a ditadura, o personagem narrador começa a desconfiar da história oficial inventada para o controle da população. Com uma linguagem bastante atrativa ao leitor, por vezes com tons poéticos, o narrador nos conduz a um tempo antigo em que cenários de uma novela escondiam uma luta silenciosa pela liberdade e pela recuperação de direitos civis subtraídos.

Destaca-se, no livro, o capítulo sobre a memória como construção, como exercício de criação e ficção, e a tentativa do escritor de ser fiel aos fatos, mesmo sabendo que eles passam pelos filtros da memória através dos anos: "O passado é vivo, mutável, escorregadio. Não somos, ao reconstruirmos histórias, as mesmas pessoas que as vivenciaram ou testemunharam" (p. 138). Apenas pela leitura deste capítulo já vale a pena lê-lo. Mas a história de Cacá e seu primo sobre um período fatídico de nossa História nos arrebata e justifica toda sua leitura, do início ao fim.


Sérgio Rodrigues: "Um romance tão bonito e tão cheio de verdade"

separador Por Fernando Molica em 10 de dezembro de 2021 | Link | Comentários (0)

Autor, entre tantos ótimos livros, de 'A visita de João Gilberto aos Novos Baianos' e 'O drible', Sérgio Rodrigues publicou no Instagram este texto em que faz uma leitura bem legal de 'Elefantes no céu de Piedade', romance que lancei pela Editora Patuá. Fiquei, claro, bem feliz. Obrigado, meu caro.


"O @fmolica escreveu um romance tão bonito e tão cheio de verdade sobre uma infância suburbana de classe média no Brasil da ditadura, início dos anos 70, que só depois do ponto final a gente entende que ele está falando de hoje, de agora. E também que não, não somos menos tristes do que aqueles personagens - talvez até sejamos mais, porque tivemos a chance de aprender e não aprendemos, não estamos aprendendo. Ou estamos?"


'Benditos livros', sobre 'Elefantes no céu de Piedade': "Uma história que mexeu com a minha paz"

separador Por Fernando Molica em 08 de dezembro de 2021 | Link | Comentários (0)


benditoslivros.jpg

Uma bela e sensível resenha sobre 'Elefantes no céu de Piedade' publicada em @benditoslivros (e vale muito a pena ir até lá, ler comentários sobre outros livros):

Mais uma vez digo : 2021 é o ano no qual os livros curtos ganharam o meu coração. Em pouco mais de 150 páginas, Fernando Molica, em" Elefantes no céu de Piedade", conseguiu entregar uma história que mexeu com a minha paz.

Nesse livro temos Francisco, um menino típico do subúrbio carioca , que está vendo a vida de sua família prosperar durante a ditadura, e que não tem motivos para duvidar do que ouve sobre o governo militar na escola e na TV.
Isso até o momento em que conhece o primo Carlos Alberto, jovem universitário que vem passar uma temporada na casa da família, no Rio de Janeiro.

Essa visita inesperada vai provocar uma ruptura familiar, quebrar o encanto da infância e trazer muitos aprendizados. Francisco e o leitor vivenciarão pequenas e grandes descobertas sobre o cotidiano social, sobre as relações familiares e sobre o que realmente foi construído ( e destruído) no país sob o discurso do crescimento econômico e a segurança politica.

Ver acontecimentos tão duros pelos olhos de um menino do subúrbio foi uma boa maneira de suavizar o impacto da narrativa histórica e também de discutir como a memória pode ser fluida, um constante exercício de construção e desconstrução .
Hoje somos capazes de enxergar que a narrativa oficial era bem diferente da realidade vivida, e que a ditadura brasileira, período sombrio da nossa história, ainda é repetidamente subestimado .

Contudo, é preciso ler, aprender, e nunca esquecer. Fernando Molica, em poucas páginas, apresenta uma história delicada e dolorosa que mexeu comigo.
Seus elementos de não ficção mostram atos e fatos que desconhecemos, ou que relevamos com o passar dos anos.

Obrigada, @oasyscultural, por mais um livro incrível!


'Chimarrão e livros': "É daqueles livros importantes demais"

separador Por Fernando Molica em 30 de novembro de 2021 | Link | Comentários (0)

Resenha de Danielle Gonzales, responsável pelo 'Chimarrão e Livros' sobre 'Elefantes no céu de Piedade',


Um céu nublado para ilustrar Elefantes no Céu de Piedade, de Fernando Molica.

Narrado em primeira pessoa por Francisco, um menino que se muda com os pais para uma nova casa. O livro se passa na década de 70, durante a ditadura militar e vamos conhecendo as impressões do menino sobre esse período, muito pautadas pelo pensamento dos pais.

O pai de Francisco está prosperando, vendo o negócio crescer, comprando uma nova casa e um novo carro para a família e, como muitos que viveram durante esse período, acreditavam que por eles e as pessoas ao seu redor estarem bem, aqueles que eram contra a ditadura estavam errados.

Tudo ia muito bem, até que um novo elemento entra em cena e, Francisco, com a curiosidade típica de uma criança, passa a questionar todos e a se perguntar se o que os pais e professores dizem é mesmo verdade.

O livro é super fluido e é fácil se envolver com os personagens criados pelo autor. A ditadura é plano de fundo e parte central do enredo, mas o livro vai além: fala da vida em família, de segredos, descobertas e do fim da inocência.

Preciso destacar o epílogo, que fala sobre memória de uma forma linda!

É daqueles livros importantes demais, é uma ficção, mas com aquele toque de realidade necessário.


Antônio Torres sobre 'Elefantes no céu de Piedade': "Eletrizante"

separador Por Fernando Molica em 29 de novembro de 2021 | Link | Comentários (0)

Fernando Molica chega ao seu quinto romance merecendo muitos aplausos. Apresento aqui apenas um motivo para você correr atrás dele: é eletrizante. Lê-se "Elefantes no céu de Piedade" sem pestanejar.

Os outros motivos você vai encontrar na apresentação do livro, feita pela querida escritora Cintia Moscovich, e nos arremates do não menos queridíssimo Marcelo Moutinho, na contracapa: "Este é um livro sobre a inocência, mas também sobre a importância da memória como antídoto contra as tiranias".

A edição, muito boa de ler, é da Patuá:
www.editorapatua.com.br
E-mail: editorapatua@gmail.com

Vamos ler, gente boa!


A ficção trata da dor que não sai no jornal

separador Por Fernando Molica em 24 de novembro de 2021 | Link | Comentários (0)

A querida Lu Lacerda me pediu este depoimento sobre o ponto de partida de meu romance 'Elefantes no céu de Piedade'. O resultado pode ser lido em sua página, na coluna De Próprio Punho:

Meu romance "Elefantes no céu de Piedade" (Editora Patuá) é talvez resultado da constatação de que a maioria dos relatos publicados em livro sobre a ditadura implantada em 1964 privilegiou um olhar da classe média; mais, de uma classe média intelectualizada e mais afinada com a oposição aos militares.

Não conheço, claro, toda a produção literária referente ao período, mas arrisco dizer que esses livros, de ficção ou não-ficção, tendem a apresentar/justificar dúvidas e comportamentos relacionados à busca da melhor maneira de se enfrentar o arbítrio. No limite, uma escolha entre a adesão a um projeto de guerrilha ou a opção por uma resistência pacífica. Muitos traduzem na perspectiva individual o dilema que fez rachar a esquerda nos anos 1960.

São livros que têm como protagonistas jornalistas céticos ou engajados, líderes estudantis, militantes veteranos, políticos desiludidos ou comprometidos com mudanças sociais; homens e mulheres moradores da zona sul do Rio ou de áreas nobres de São Paulo, que frequentavam escolas ou faculdades particulares de elite ou instituições públicas de referência, como colégios de aplicação. Quase todos circulavam em ambientes que não correspondiam ao universo que eu havia vivenciado na minha infância e adolescência.

Em Piedade, subúrbio carioca onde eu morava, pouco se falava de política --o assunto, pelo menos, não entrava nas conversas de meus pais, tios e de seus amigos. O medo da repressão e a censura à imprensa colaboravam para o silêncio, mas havia também outras explicações, temas ainda hoje incômodos, como uma determinada aprovação aos governos militares.

Eram tempos de milagre brasileiro, de crescimento econômico, de boom da Bolsa de Valores, quando foi registrado o aumento do poder aquisitivo de parte considerável da população. Havia também um sentimento de ordem e de organização, algo que contrastava com a agitação de anos anteriores.

Presidente no período mais duro da ditadura, o general Emílio Garrastazu Médici era aplaudido quando ia ao Maracanã com radinho de pilha colado à orelha, cidadãos expunham em seus carros adesivos como o que pregava amar ou deixar o Brasil. Notícias relativas à atuação de grupos envolvidos com a tentativa de luta armada -- assaltos a banco, sequestros de diplomatas -- geravam insegurança e apreensão, pelo menos no meu mundo.

Não se pode generalizar, é mais do que razoável supor que em Piedade e em tantos outros bairros periféricos havia inconformismo e revolta com a ditadura. Mas é impossível negar que, em muitos setores, havia uma avaliação positiva do regime - ecos dessa aprovação chegam à atualidade, levam multidões às ruas, fomentam gritos por implantação de uma nova ditadura, tiveram influência decisiva na eleição de 2018. Construído com base na escravidão, o país naturalizou a violência ao longo de sua história; até hoje boa parte da população aceita e justifica a tortura.

A conciliação que viabilizou o projeto de entrega do poder aos civis serviu também para impedir uma maior discussão sobre o impacto da ditadura no Brasil; A tentativa de negação da história tem consequências trágicas, impede a correta e necessária análise de crimes, erros e responsabilidades, permite a disseminação de versões que minimizam o horror praticado naquele período.

Até por ser jornalista, respeito e me submeto aos fatos. Mas sei também que a objetividade jornalística não dá conta de tudo, muitas vezes não chega ao que não é dito, ao que não é revelado, que não consta de documentos. A ficção é fundamental para que possamos ao menos tatear o que não se revela, o que se esconde.

'Elefantes no céu de Piedade' nasce, portanto, do desejo de narrar uma história que ainda não tivesse sido contada, a de uma família suburbana, conservadora e simpática ao regime que, em determinado momento, se vê às voltas com contradições relacionadas ao seu apoio à ditadura.

Trata de uma dor que, como no samba de Luís Reis e Haroldo Barbosa, não sai nos jornais. É uma ficção, ainda que ancorada em uma realidade que vivenciei, do jeito que dela me recordo, da maneira que poderia ter acontecido se aqueles personagens fossem reais.

Histórias privadas não são dissociadas de outras, mais gerais, que envolvem a sociedade como um todo. Essa interação gera conflitos importantes, capazes de possibilitar narrativas aqui e ali incômodas, mas que podem acrescentar novos elementos à história de cada um de nós. Elefantes, voadores ou não, são grandes e pesados demais para que sejam ignorados.


Bravo! indica 'Elefantes no céu de Piedade'

separador Por Fernando Molica em 01 de novembro de 2021 | Link | Comentários (0)

Bravoindicaelefantes.png

A revista Bravo! incluiu meu romance 'Elefantes no céu de Piedade' entre as indicações da semana, Os paquidermes voadores estão muito bem acompanhados.


Aziz Filho: 'Um livro obrigatório'

separador Por Fernando Molica em 28 de outubro de 2021 | Link | Comentários (0)

O jornalista Aziz Filho fez este generoso e sensível comentário sobre 'Elefantes no céu de Piedade':

Quero dividir com vocês o prazer que senti lendo "Elefantes no céu de Piedade". Lendo não, devorando. Pela elegância de quem soube condensar tudo o que importa e dispensar gordura, pela habilidade de vasculhar a alma de um povo que queria acreditar no progresso dos anos 70 mas não podia ignorar o odor dos quartéis. E pela intensidade com que o autor ensina a arte de ser fiel à realidade nas invenções que precisam ser feitas para rechear os lapsos da memória. A maturidade da escrita é irresistível.

Parabéns, Fernando Molica. Você fez um livro obrigatório.


Os que pensam e temem como Maurício Souza

separador Por Fernando Molica em 28 de outubro de 2021 | Link | Comentários (0)

A condenação ao preconceito explicitado pelo Maurício Souza é necessária, mas não pode se limitar às acusações de homofobia e à execração do atleta. Até para que se possa combater o preconceito é preciso admitir que o jogador verbalizou um pensamento de muitos e muitos brasileiros - talvez da maioria da nossa população.

Pessoas que condenam a simples exposição de representações que buscam naturalizar o que é natural, a possibilidade de amor e desejo entre pessoas do mesmo sexo. Para essas pessoas, tais representações não passam de um incentivo, como se imagens fossem capazes de alterar algo tão profundo como o desejo (alguém aí mudaria de time por conta de incentivo, campanha publicitária ou mesmo grana?).

Sim, denunciar e condenar o preconceito são atitudes fundamentais. Vale também processar os responsáveis por homofobia, que, equiparada ao racismo pelo STF, passou a ser crime. Punir é importante, mas não suficiente. É preciso mostrar que o preconceito contra gays é o mesmo que se revela contra negros, nordestinos, gaúchos, cariocas, paulistas, brasileiros, candomblecistas, umbandistas, evangélicos.

O preconceito contra qualquer ser humano dá margem para preconceito contra qualquer outra pessoa. Todos podemos ser enquadrados numa determinada categoria capaz de ser alvo de preconceito - até mesmo você, homem branco, rico, hétero - quantas vezes você teve que justificar à imigração americana o que estava indo fazer nos EUA? Se você fosse britânico, o tratamento seria bem diferente.

Insisto. É preciso ressaltar a ilegalidade do preconceito, mas não se pode negar a adesão de muita gente a esse tipo de pensamento. E isso precisa ser trabalhado. A lógica do preconceito é profunda, tem a ver também com insegurança, medo do outro - um tipo de pavor que com frequência é utilizado na política para justificar atitudes contra a democracia, a história está cheia de exemplos.

É preciso ter cuidado para que a condenação ao preconceito não transforme os preconceituosos em vítimas, que não vire uma arma que tenha consequências na vida política e eleitoral do país.


Elefantes caem sobre nossas cabeças

separador Por Fernando Molica em 25 de outubro de 2021 | Link | Comentários (0)


elefantesoasys.jpeg

O site da Oasys Cultural - responsável pelo agenciamento e divulgação de 'Elefantes no céu de Piedade' - publicou esta entrevista, em que falo do processo de criação do romance e cito a necessidade de a sociedade brasileira discutir melhor a relação com a ditadura implantada em 1964. O processo entre nós é bem diferente do que ocorre, por exemplo, na Argentina, o que se reflete na produção literária dos dois países.

"Elefantes no céu de Piedade" (Ed. Patuá), novo romance do escritor e jornalista Fernando Molica, se passa no início dos anos 1970 e tem como foco uma família suburbana, moradora do bairro de Piedade (RJ), favorável à ditadura de 1964. A aparente harmonia é interrompida pela chegada de um primo capixaba, universitário que, motivos de saúde, precisa passar uma temporada na casa dos parentes. Logo descobrem que o rapaz não está doente, mas saiu de seu estado por ser procurado pela polícia política. Leiam a entrevista com com o autor.

Vamos começar pelo instigante título do seu livro: por que "Elefantes no céu de Piedade?

R: O título tem a ver com uma piada sobre dois mineiros que ouvi há alguns anos. Uma piada que trata de pessoas que fingem não ver a realidade, que tentam ignorar o óbvio, que tentam assim fugir do inevitável. Ao escrever o livro, achei que poderia usar essa historinha para o meu romance.


Um dos atrativos do romance é a minuciosa reconstrução histórica, com detalhes sobre automóveis, utensílios e canções dos anos 60 e 70. Fez pesquisa para compor esse "acervo"? Ou guarda tudo na cabeça? Ou usou a imaginação?

R: Citei quase tudo de memória, era criança nos anos 1960, comecei a entrar na adolescência na década seguinte. O que tive foi o cuidado de checar as informações. Houve também a preocupação de não fazer com que esses detalhes atrapalhassem a narrativa, são apenas elementos que integram a história, não podem substituí-la, disputar os holofotes com ela.


A ditadura é pouco abordada em obras de ficção no Brasil. Na Argentina, ao contrário, os anos de chumbo são tema recorrente. Por que essa diferença entre países tão próximos e que viveram esse drama quase ao mesmo tempo?

R: A abrangência da ditadura argentina foi muito maior. A população deles é muito menor que a nossa, mas o número de desaparecidos durante os governos militares é em torno de dez vezes superior ao registrado aqui. A matança produzida por lá gerou mais cicatrizes na sociedade. Além disso, há na Argentina um histórico de mobilização política muito maior que o nosso.


Tal qual o protagonista de seu livro, você também era criança, em Piedade, no período da ditadura. Quais são suas lembranças pessoais daquela época?

R: O livro é uma ficção, mas é claro que usei muito da minha memória, inclusive em relação à avaliação que se fazia do regime militar. Havia um medo da repressão, mas também aprovação à lógica de ordem implantada pela ditadura. E, principalmente, havia entusiasmo pelos resultados do tal milagre econômico. Naquele início dos anos 1970 muitos ganharam dinheiro, havia a ilusão do Brasil grande, a Bolsa de Valores batia recordes. Ações de grupos de esquerda, como sequestros de diplomatas e assaltos a bancos geravam medo, apreensão em Piedade.


O Brasil vive agora algo semelhante ao que se passou na década de 60? Acredita que a literatura é capaz de ajudar numa tomada de consciência, à semelhança do que acontece em seu romance?

R: Os processos são diferentes. Nos anos 1960 havia uma ditadura, pessoas foram presas, perseguidas, torturadas. É bem diferente do que ocorre hoje, apesar das ameaças autoritárias. Não vejo na literatura um poder de mudar a consciência das pessoas, mas acredito na sua capacidade de enxergar o outro, de lançar alguma luz sobre o que está nas sombras. O atual presidente nunca escondeu sua simpatia pela ditadura, e mesmo assim foi eleito. É preciso tentar entender as razões dessa certa saudade do autoritarismo que se manifesta em parte da população.


Subúrbio e ditadura em 'Elefantes no céu de Piedade' segundo Thaís Velloso

separador Por Fernando Molica em 24 de outubro de 2021 | Link | Comentários (0)


ElefantesMachado.jpg


No blog Além de Machado, Thais Velloso faz uma bela e original leitura de 'Elefantes no céu de Piedade'.

Destaca a pouca oferta de romances passados em subúrbios de nossas grandes cidades um viés suburbano e ressalta temas relacionados à memória da ditadura citados pela escritora e crítica argentina Beatriz Sarlo.

Dois trechos:

"Quando criança, andava pelas ruas de Piedade sem imaginar que seus nomes poderiam ser mencionados em uma obra de ficção. No colégio, eu e meus amigos estávamos lendo, para a prova do bimestre, um livro que falava da Delfim Moreira, da Ataulfo de Paiva, de jovens, bem mais velhos que nós, andando de bicicleta pelo Leblon. Aquele cenário era muito diferente da minha realidade, e o protagonismo do bairro da Zona Sul na narrativa significava para mim que a Avenida Suburbana não tinha importância alguma em comparação com a Delfim Moreira. Eu, uma criança do subúrbio, estudando em um colégio da Zona Norte com um livro que discorria apenas sobre o Leblon, constatava que "o mundo passava longe de Piedade", como diz o narrador do romance de Fernando Molica."

"(...) 'Elefantes no céu de Piedade', ao abordar a perspectiva de uma família de classe média do subúrbio carioca a respeito da ditadura brasileira, nos faz refletir sobre a construção dessa memória coletiva e, ao mesmo tempo, salienta como é importante conhecer a história, esta escrita com inicial maiúscula, para termos consciência do significado de 'nunca mais'."


BG
Arquivo do Blog
bullet janeiro 2022
bullet dezembro 2021
bullet novembro 2021
bullet outubro 2021
bullet agosto 2021
bullet junho 2021
bullet maio 2021
bullet abril 2021
bullet maio 2020
bullet março 2020
bullet dezembro 2019
bullet novembro 2019
bullet outubro 2019
bullet agosto 2019
bullet julho 2019
bullet maio 2019
bullet abril 2019
bullet março 2019
bullet fevereiro 2019
bullet janeiro 2019
bullet outubro 2018
bullet setembro 2018
bullet agosto 2018
bullet junho 2018
bullet maio 2018
bullet abril 2018
bullet fevereiro 2018
bullet janeiro 2018
bullet dezembro 2017
bullet outubro 2017
bullet setembro 2017
bullet agosto 2017
bullet julho 2017
bullet junho 2017
bullet maio 2017
bullet abril 2017
bullet março 2017
bullet fevereiro 2017
bullet janeiro 2017
bullet dezembro 2016
bullet novembro 2016
bullet outubro 2016
bullet setembro 2016
bullet agosto 2016
bullet julho 2016
bullet junho 2016
bullet maio 2016
bullet abril 2016
bullet março 2016
bullet dezembro 2015
bullet novembro 2015
bullet outubro 2015
bullet agosto 2015
bullet julho 2015
bullet junho 2015
bullet abril 2015
bullet março 2015
bullet dezembro 2014
bullet junho 2014
bullet maio 2014
bullet abril 2014
bullet dezembro 2013
bullet novembro 2013
bullet outubro 2013
bullet setembro 2013
bullet agosto 2013
bullet julho 2013
bullet maio 2013
bullet abril 2013
bullet março 2013
bullet fevereiro 2013
bullet janeiro 2013
bullet dezembro 2012
bullet novembro 2012
bullet outubro 2012
bullet setembro 2012
bullet agosto 2012
bullet julho 2012
bullet junho 2012
bullet maio 2012
bullet abril 2012
bullet março 2012
bullet fevereiro 2012
bullet janeiro 2012
bullet dezembro 2011
bullet novembro 2011
bullet outubro 2011
bullet setembro 2011
bullet agosto 2011
bullet julho 2011
bullet junho 2011
bullet maio 2011
bullet abril 2011
bullet março 2011
bullet fevereiro 2011
bullet janeiro 2011
bullet dezembro 2010
bullet novembro 2010
bullet outubro 2010
bullet setembro 2010
bullet agosto 2010
bullet julho 2010
bullet junho 2010
bullet maio 2010
bullet abril 2010
bullet março 2010
bullet fevereiro 2010
bullet janeiro 2010
bullet dezembro 2009
bullet novembro 2009
bullet outubro 2009
bullet setembro 2009
bullet agosto 2009
bullet julho 2009
bullet junho 2009
bullet maio 2009
bullet abril 2009
bullet março 2009
bullet fevereiro 2009
bullet janeiro 2009
bullet dezembro 2008
bullet novembro 2008
bullet outubro 2008
bullet setembro 2008
bullet agosto 2008
bullet julho 2008
bullet junho 2008
bullet maio 2008
bullet abril 2008
bullet março 2008

separador bullet Arquivo Geral

separador bullet Blog Anterior (Online)
bullet Blog Anterior (PDF)
© Todos os direitos reservados. Todos os textos por Fernando Molica, exceto quando indicado. Antes de usar algum texto, consulte o autor. créditos do site    Clique para ver os créditos do site