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Pontos de Partida, o Blog do Fernando Molica

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Brasília e o plano de voo rumo à tragédia

separador Por Fernando Molica em 08 de dezembro de 2016 | Link | Comentários (0)

Há algumas décadas que políticos e outros atores da vida nacional atuam como comandantes irresponsáveis que cultivam o hábito de esticar ao máximo a autonomia dos aviões. Lideranças brasileiras consideram normal conduzir o país em rota que desafia as regras elementares de segurança de voo - e que se danem os passageiros.

Em poucos meses, o Brasil expeliu presidentes da República e da Câmara dos Deputados - o do Senado escapou por pouco, graças a uma manobra em pleno ar. Lideranças do Judiciário e do Ministério Público entraram em guerra com o Legislativo, um presidente que tem medo de vaia em velório se acha capaz de fazer uma reforma radical na Previdência e de arrochar gastos públicos, um ministro do STF levantou dúvidas em relação à sanidade mental de um colega de tribunal, um presidente do Senado se achou no direito de não aceitar decisão da Justiça, que, desrespeitada, ignorou a turbulência e tratou de fazer um conchavão.

Ao, em 1998, em tempos de FHC, dizer que o governo atuava no "limite da irresponsabilidade", Ricardo Sérgio de Oliveira, então diretor do Banco do Brasil, formulou uma definição que vale também para as administrações seguintes. Na conversa, grampeada, com o então ministro Mendonça de Barros, ele tratava da participação de fundos de pensão de estatais na privatização da Telebrás.

Os governos petistas também fizeram muitas piruetas na cabine de comando. Ampliaram os limites das relações com empreiteiras, mergulharam fundo no tradicional mercado de compra e venda de votos no Congresso e aderiram ao estica-e-puxa do orçamento, prática que forneceria o mote para o impeachment. O afastamento que começou a ser desenhado ainda em outubro de 2014, quando o PSDB atrapalhou o novo desembarque de Dilma no Planalto, não aceitou o resultado das eleições e chegou a protocolar pedido para anulação da chapa vencedora. O partido iniciou assim um processo que agora pode abater um governo do qual participa.

A lógica do deixa comigo e o princípio do la garantia soy yo fortaleceram o processo de derrubada da presidente que, concluído, abriria os hangares para novas decolagens sem rumo definido. Escolhido presidente da Câmara mais pelos seus defeitos do que por suas eventuais qualidades, Eduardo Cunha apostou na sua capacidade de voar com combustível vindo de refinarias suspeitas - transportou Dilma até a fogueira e hoje se vangloria do feito na cadeia.

Em nome da moralidade pública e da estabilidade, Temer, representante maior do PMDB de sempre, era visto como Sucatão e passou a Boeing 787 - chegou a ser apontado como símbolo de renovação. A acabou entronizado ao som das ruas, à luz da Lava Jato e à sombra da Torre de Geddel. Um desfecho que teve a contribuição do juiz que, depois de mandar prender quase toda a tripulação, tratou de, no momento mais crítico do voo, vazar um grampo que depois admitiria ser ilegal.

Procuradores da República que comandam a mais dura e bem-sucedida operação de caça-corruptos da história brasileira concluíram não ter instrumentos jurídicos para caçar os corruptos que abatem todos os dias. Insatisfeitos, munidos de fúria bíblica, propuseram uma nova versão dos Dez Mandamentos, tábuas que, ao admitirem a legalização de provas ilícitas e a relativização do habeas corpus, fazem com que as regras ditadas a Moisés se equiparem a normas de acampamento infantil. Operadores do Direito também demonstram prazer em voar entre montanhas em dias de tempestade.

Assustados, de olho no passado e nas antigas relações perigosas e lucrativas com a Odebrecht, deputados reagiram à iniciativa do Ministério Público e, na madrugada em que o país chorava a morte de jogadores e jornalistas, abusaram de sua autoridade ao aprovar um projeto contra abuso de autoridade que assusta até mesmo advogados que tentam livrar réus do martelo de chumbo de Sérgio Moro.

No tribunal que tem a responsabilidade de defender a Constituição, um ministro interrompeu uma votação decidida, pediu vistas num processo e, na prática, salvou da degola o presidente do Senado. Um outro ministro chutou o balde e, com uma liminar, afastou do cargo aquele que o colega salvara - e, por conta disso, foi chamado de doido e teve seu impeachment pedido por um de seus pares. Logo depois, sua decisão seria derretida, transformada no queijo que cobriu a pizza levada ao forno por conspiração que uniu os três poderes da República.

Nos estados e municípios, governadores e prefeitos não se constrangeram em aplicar o mesmo plano de voo federal, esbanjaram em obras superfaturadas e/ou desnecessárias, plantaram estádios, teleféricos, vagões ferroviários e colheram barcos, helicópteros, anéis, pulseiras, colares e, em alguns poucos casos, hospedagem forçada no cárcere. A trilha sonora do caos vem dos sons das bombas e morteiros de policiais e manifestantes que se engalfinham em frente à Assembleia Legislativa do Rio. Dá pra prever o que ocorrerá quando for posto em votação o projeto da aposentadoria eterna, aquela que será concedida apenas depois da morte e que garantirá às almas vida confortável no Paraíso.

Nosso combustível está acabando, não há como sustentar tamanha insensatez. Em meio a uma pesada recessão, o país se mostra frágil, risível, uma caricatura de si mesmo, espantalho que trata de inibir investimentos internos e externos. É preciso que os pilotos tenham o juízo de traçar um plano de voo razoável, que permita um pouso tranquilo. A insistência em desafiar os limites do razoável vai acabar matando todo mundo. Do além, De Gaulle manda e-mail para o Elio Gaspari: "Merde, como me arrependo de não ter dito aquela frase sobre o Brasil!".


A autocrítica do MP e do Judiciário

separador Por Fernando Molica em 05 de dezembro de 2016 | Link | Comentários (0)

Magistrados, procuradores e promotores que protestam contra possíveis limitações ao seu trabalho poderiam fazer uma autocrítica. A tradicional ausência de corrompidos e de corruptores na cadeia está também ligada, na grande maioria dos casos, à atuação ineficiente de integrantes das duas categorias.

Cabe ao Ministério Público propor e conduzir ações que devem ser apreciadas pelo Judiciário. A Constituição garante independência das duas instituições, os caras têm muito poder. E, mesmo assim, conseguiram muito pouco - o Mensalão e a Lava Jato são exceções à regra de impunidade.

A 'Folha' publica hoje matéria que mostra como o MP fluminense propôs arquivar ações contra Sérgio Cabral - a complacência com o ex-governador chegou a ser criticada por um dos dos juízes federais que decretaram sua prisão. Na esfera federal, sucessivos presidentes, ministros e parlamentares também se beneficiaram da falta de rigor de quem deveria vigiá-los e puni-los.

Houve mudanças recentes na legislação que favoreceram o combate à corrupção (a lei que regula a delação premiada e a que prevê punição de empresas são de 2013), mas não dá pra dizer que, antes, fosse impossível punir protagonistas de tantas safadezas.
Políticos há décadas associados à corrupção - um deles teve seu nome adaptado para verbo que exprime o ato de roubar - continuam por aí, livres. Alguns deles chegam a fazer discursos contra a roubalheira.

Todos somos todos capazes de citar muitos e muitos casos de desvios publicados em jornais e revistas. Episódios que terminaram com a absolvição de acusados, foram para o arquivo ou dormem, tranquilos, em gavetas do MP ou da Justiça. Neste momento de faxina, um mea culpa de muitos dos chamados operadores do Direito seria muito bem-vindo.


As Medidas e os Mandamentos - muita calma nessa hora

separador Por Fernando Molica em 01 de dezembro de 2016 | Link | Comentários (0)

É quase impossível buscar um pouco de calma no Brasil, mas não custa tentar. Ficamos tão radicais que entramos na lógica do 8 ou 80, do tudo ou nada, do bem e do mal. Não custa também dar uma lida nas propostas originais das 10 Medidas, no que foi retirado, no que foi aprovado. O mesmo vale para a responsabilização de juízes e integrantes do MP.

É claro que a maioria dos deputados favoráveis às mudanças no projeto das 10 Medidas, criado por integrantes do MP-PR, votou pensando em seus próprios interesses, mas algumas modificações foram corretas. Foram limados, ao longo da tramitação, o teste/pegadinha de honestidade, a validação de provas obtidas de forma ilícita, a remuneração de delatores, a limitação do habeas corpus.

Houve outras mudanças complicadas, que dificultam punições, e que precisam ser rediscutidas e reavaliadas - mas com calma, com cuidado. Como disse o Pierpaolo Bottini, professor de Direito da USP num debate recente, na FGV - o Deltan Dallagnol estava na mesa -, mudanças na legislação ocorridas em 2012 e 2013 já permitiram o aumento do combate à corrupção: ele frisou que a Lava Jato só é possível graças a essas alterações. A operação está sendo conduzida com a legislação em vigor, e não dá pra dizer que corruptos não estejam sendo punidos. A lei pode melhorar, mas também pode piorar; então, muita calma nessa hora.

A emenda que estabelece punições para promotores e juízes também peca pelo gosto da vigança, há questões muito subjetivas, é complicado provar que um integrante do MP ou um magistrado perseguir um determinado partido político. Mas a ideia de responsabilizar exageros é razoável, as funções, por mais nobres e importantes que sejam, são exercidas por seres humanos - e todos somos capazes de cometer vilanias, ninguém pode estar acima da lei. Ao proibir que juízes falem de processos em andamento, o projeto apenas prevê punição para algo que consta do Estatuto da Magistratura.

Talvez o principal erro tenha sido propor o pacote no meio da Lava Jato, no rastro do impeachment - isto, para pegar uma onda favorável à punição de corruptos. O fato de a proposta ter a assinatura de 2 milhões de brasileiros é importante, mas não definitivo - uma emenda constitucional para criar a pena de morte teria mais de cem milhões de assinaturas, uma outra favorável ao fechamento do Congresso Nacional também seria muito apoiada. O país tem quase 150 milhões de eleitores, não dá pra dizer que a maioria aprova as tais medidas, nem, principalmente, que a maioria aprova TODAS as medidas - Dez Medidas não podem ser confundidas com 10 Mandamentos, são criações humanas, não de Deus.

O mais prudente seria dar uma segurada na votação no Senado, deixar passar um pouco a pressa dos procuradores e o desespero de parlamentares que se sentem ameaçados. Eventuais mudanças na legislação não incidirão sobre crimes já cometidos, não terão qualquer influência nos casos que estão sendo apurados. Também não seria bom - e este parece ser o principal temor da Força Tarefa da Lava Jato - estabelecer punições para juízes e integrantes do MP que atuam em casos já abertos. Leis não podem ser feitas no calor dos acontecimentos, ainda mais num momento tão grave.

Não é bom também que MP/Judiciário e Congresso entrem em choque direto. Deputados e senadores, por piores que sejam, foram eleitos, têm uma legitimidade popular. E todos - procuradores, promotores, parlamentares - precisam ter cuidado para não aprofundar a crise institucional que estamos vivendo. A ameaça de procuradores da Força Tarefa de abandonar a Lava Jato só aumenta o Fla-Flu, joga lenha numa fogueira em que todo o país pode ser queimado.


A escolha da Lamia

separador Por Fernando Molica em 29 de novembro de 2016 | Link | Comentários (0)

Importante apurar a razão de a Chapecoense ter optado por um voo fretado de uma pequena empresa quando poderia ter optado por voos regulares, de companhias mais sólidas. Foi por conta do preço? Não havia disponibilidade de lugares para tantas pessoas em outras empresas?
Segundo o 'El País', a Lamia, Línea Aérea Mérida Internacional de Aviación, tinha apenas dois aviões, não fazia voos regulares e, nos últimos dois anos, "sua especialidade vinha sendo o transporte, em voos fretados, de times de futebol sul-americanos e da própria Bolívia".

Também de acordo com o 'El País', a Lamia "já transportou vários times de futebol latino-americanos, devido ao seu custo baixo e à flexibilidade de voos fretados". Vários sites informam que a seleção argentina que jogou no início do mês em Belo Horizonte viajou no mesmo avião acidentado na noite de ontem. A Latam, a Copa e a Avianca têm voos regulares para Medellin - todos têm duração semelhante à jornada que seria cumprida pela delegação do time catarinense.

Matéria do Globoesporte.com informa que o voo comercial que decolou de São Paulo com o time da Chapecoense decolou às 15h45 em direção a Santa Cruz de la Sierra. Lá, a delegação embarcaria no avião fretado - a chegada a Medellin estava prevista para as 21h, hora local (meia-noite no horário de Brasília, o que daria quase nove horas de voo), mas o acidente ocorreu por volta das 22h15. O voo, portanto, duraria mais do que o previsto.

A julgar pela programação de companhias aéreas para a próxima segunda-feira, ontem houve voos regulares de São Paulo para Medellin. O site da Latam informa que, na próxima segunda-feira, há um voo para Medellin que sai às 15h50 de São Paulo e chega às 21h59 (hora local) em Medellin (há conexão em Bogotá), um total de nove horas e nove minutos.

Sites de viagens mostram que, na próxima segunda, um voo da Copa Airlines sairá às 13h15 de São Paulo; haverá conexão na Cidade do Panamá, e chegará às 20h14 em Medellin, um total de nove horas e cinquenta e nove minutos de viagem. A Avianca também oferece voo de São Paulo para Medellin com escala em Bogotá - duração de nove horas e catorze minutos.


Os jornais e os sambistas "desoccupados"

separador Por Fernando Molica em 28 de novembro de 2016 | Link | Comentários (0)

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Esta nota, publicada em reportagem do Chico Alves sobre os cem anos do samba, é da edição de 9/8/1920 do 'Correio da Manhã'. Mais do que relatar a repressão policial a um grupo de sambistas, a notícia reforça o preconceito contra "o pessoal do batuque", os "desoccupados".

Serve também para ilustrar mais uma das muitas contradições presentes na trajetória do samba, marcada pela convivência entre a importância de afirmação de uma cultura e a necessidade de diálogo com os poderes institucionais - a busca de legitimação é algo muito presente na história na nossa mais importante forma de expressão cultural.

O paradoxo está presente também nos jornais. A imprensa criticava os sambistas, mas, naquele mesmo início do século 20, jornais expunham, em suas sedes, estardantes de entidades carnavalescas. Em 1932, o jornal 'O Mundo Sportivo', de Mário Filho, organizou uma disputa entre escolas de samba.

No mais, os sambistas detidos estavam reunidos na Rua Visconde de Niterói, em frente ao morro onde, em 1928, seria fundada a Estação Primeira de Mangueira.


As angústias narrativas do feto de McEwan

separador Por Fernando Molica em 23 de novembro de 2016 | Link | Comentários (0)

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No seu ótimo romance 'Enclausurado', o camisa 10 Ian McEwan faz mais do que conferir uma improvável verossimilhança a uma história contada por um feto na barriga da mãe. O livro é também metáfora do processo de uma gestação literária: o inglês brinca com a lógica do narrador-deus, onipresente, onipotente e onisciente, algo questionado por alguns escritores.

Narradores improváveis não chegam a ser novidade. No fim do século 19, Machado de Assis deu voz - e que voz! - a um defunto, o sujeito que dedica o livro ao primeiro verme que degustara suas carnes. Mas Brás Cubas trata de memórias, de situações já vividas. O quase bebê de McEwan é, como o repórter Esso, testemunha de uma história, de fatos em tempo real que ocorrem diante de sua casca de noz (o título original do livro é 'Nutshell').

Ao se responsabilizar pela narrativa, o feto se depara com problemas conhecidos pelos ficcionistas. Em tese, ele é o dono da bola, sabe de tudo, poderia mudar os rumos da trama, redigir a versão preferida de uma história 'real', que afirma ter vivenciado - ele nos contou uma possibilidade dos fatos, poderia, como romancista, optar por outra.

Mas, isolado em seu escritório apertado e desconfortável - o ventre materno -, o colega acaba se dando conta de como é relativo o poder de quem inventa e/ou relata uma história. Apesar de saber de tudo o que acontece, de poder mexer na narrativa, de criar alguns incidentes (não abre mão de dar uns chutes voluntários na barriga da mãe), ele não tem o domínio absoluto de seus personagens.

Antes de sentar para escrever meu primeiro romance, duvidava de escritores que se diziam reféns de seus personagens, que, em palestras e entrevistas, contavam que se viram obrigados a seguir os caminhos determinados por suas criaturas. Sempre achei que isso não passava de uma tentativa de conferir mistério e valor ao ato de escrever.

Há tempos que admito meu erro de julgamento. Os poderes do autor diminuem muito depois que ele escala seu time e o coloca pra jogar - não dá pra inventar um pênalti quando a jogada se passa no meio do campo. Em apresentações do Teatro do Oprimido, em que incentivava a intervenção do público nas peças, Augusto Boal reprimia soluções mágicas, que considerava desconectadas do enredo. Ao perceber este tipo de tentativa, ele gritava 'Stop, c'est magique' - a ficção não deve abrir mão de alguma lógica.

Lembro também de uma novela em que o personagem do Mário Lago escrevia e publicava livros com novos finais para antigos clássicos - nada de mortes trágicas de protagonistas, de desfechos tristes (se não me engano, Capitu e Betinho terminavam felizes para sempre). As recriações acabavam encalhadas, ninguém comprava os livros, leitores desprezam falsidades no reino da invenção.

Confinado à barriga da mãe, o feto fica sabendo de tudo o que está sendo dito e tramado, quer dar um jeito de mudar a sequência da história, pensa em soluções mágicas e até em abandonar de maneira trágica sua participação naquele enredo, como um autor que apagasse tudo o que havia escrito ou queimasse a única versão de seu manuscrito.

Revoltado com o que se passa, com o que escuta, o feto se revolta, mas, bom escritor que é, acaba admitindo suas limitações, percebe a impossibilidade de produzir um novo fim para aquela trama. Dá para mexer aqui e ali, criar algumas armadilhas para os personagens, mas não é viável mudar o que estava escrito antes mesmo de ser digitado ou impresso. Ele descobre, como confessa na penúltima frase do romance, que o significado chega depois da história.


Os chinelos que ressaltam a tragédia

separador Por Fernando Molica em 21 de novembro de 2016 | Link | Comentários (0)

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Publicada na edição de hoje de 'O Globo', a foto de Pablo Jacob mostra mais do que o desespero de um pai ao encontrar o corpo do filho, um dos sete moradores da Cidade de Deus mortos no fim de semana.

A imagem que documenta a dor do homem é emoldurada pelos pés de seus vizinhos, pés - pretos ou quase pretos - calçados com os chinelos que traduzem a pobreza da Cidade de Deus.

A cabeça enfiada no chão e os pés e as mãos suspensos no ar transmitem o tamanho do sofrimento do personagem; os pares de chinelos dispostos em semicírculo dão o contexto, situam o drama, identificam vivos e mortos.

Os chinelos são quase um denominador comum em favelas - não o chinelo que virou moda aqui e no exterior, símbolo de conforto, informalidade e descontração, mas o que indica falta de sapatos, de tênis, de emprego, de dinheiro, de esperança.

Chinelo sinônimo de pobreza, substantivo que passou a integrar o adjetivo - pés de chinelo - que tão bem define os mais pobres. Chinelos que, nos pés daqueles que portam armas caríssimas e fazem a cidade de refém, ironizam tanta ostentação de poder - do chinelo vieram e do chinelo não se livrarão.

Relatos da barbárie na CDD citam abuso de poder, tortura e assassinatos ao mesmo tempo que admitem ligações de algumas das vítimas com o tráfico de drogas. Uma retaliação de PMs relacionada às mortes de quatro colegas na queda do helicóptero é a hipótese mais citada para as prováveis execuções.

Um relato parecido com o de tantas outras tragédias: no fim das contas, ficamos com, pelo menos, mais onze cadáveres, saldo negativo da guerra que, como frisou a Flávia Oliveira, não tem vencedores, mas apenas derrotados.

Uma guerra em que pés de chinelo são vítimas e algozes. Guerra que só poderá ter expectativa de solução quando a maior parte da sociedade perceber que a violência é algo sério demais para ser resolvida apenas pela polícia e que a ilegalidade do uso de drogas merece, pelo menos, ser discutida. É preciso que todos tenhamos coragem de olhar além dos nossos próprios chinelos.


Garotinho, Cabral e os direitos de todos nós

separador Por Fernando Molica em 18 de novembro de 2016 | Link | Comentários (0)

Pressionada pela crise, revoltada com a roubalheira, ameaçada pelo arrocho do governo estadual, irritada com a tradicional impunidade de políticos e empresários, boa parte da população comemora o desespero da família Garotinho e as fotos de Cabral de cabelo cortado e uniforme de preso.

A reação é compreensível, mas não custa tentar baixar um pouco a bola. Garotinho tinha motivos para reclamar de uma transferência (decisão agora revogada pelo TSE) que contrariava decisões médicas. Era também razoável o medo de uma eventual retaliação de bandidos encarcerados quando ele era secretário de Segurança - vale lembrar que, para evitar casos de vingança, policiais presos são mantidos separados de criminosos comuns.

Cabral, que, como preso, também está sob a proteção do Estado, tem o direito de se queixar da divulgação (feita por funcionários do governo Pezão!) das fotos no presídio. Em tese, as fotos nem deveriam ter sido feitas. A Lei 12.037/2009 regulamenta um artigo da Constituição e determina que o cidadão (qualquer cidadão) que tenha documento civil válido não será identificado criminalmente - é razoável supor que pelo menos o passaporte do Cabral esteja atualizado.

Não se trata de defender Garotinho e Cabral, as evidências contra ambos são muito relevantes, ainda que possa ser questionada a necessidade de decretação das prisões antes do julgamento - a medida, extrema, tem sido um tanto quanto banalizada. Mas, insisto, mas é preciso ter cuidado para não desprezarmos a legislação feita para nos proteger do Estado.

É absurdo que um delegado da Polícia Federal declare que Garotinho e Cabral ficaram em presídios separados por pertencerem a diferentes facções. A piada é ótima, mas não poderia ter sido dita por um funcionário público, integrante de polícia judiciária. Pior, a informação não é verdadeira: Cabral está numa cadeia reservada para pessoas que têm curso superior, um privilégio - sem dúvida -, mas que é assegurado por lei. Garotinho estava numa UPA que fica dentro do Complexo de Bangu.

É bom ressaltar que os dois políticos, quando ocupavam cargos de poder, também violaram direitos de presos. Quando era secretário de Segurança, Garotinho conduziu diante de jornalistas uma espécie de interrogatório do suspeito de matar um casal de estrangeiros, promoveu um espetáculo como os que hoje tanto critica. Nos últimos anos, fotos de presos de uniforme e cabeça raspada foram divulgadas com frequência pelo governo estadual. Agora, os ex-governadores amargam as consequências da omissão.

Não podemos festejar uma espécie de democratização da barbárie, o fato de dois políticos importantes passarem por abusos historicamente cometidos contra presos comuns, pobres, anônimos. Temos que buscar o respeito ao direito de todos. É até provável que as sucessivas prisões de representantes do que Elio Gaspari chama de andar de cima tenham efeitos benéficos na melhoria das condições carcerárias e no respeito à lei.

Por último, insisto. Não defendo políticos suspeitos de roubar (muito) dinheiro público ou de fraudar eleições. Exigir que os direitos de todos - inclusive os das pessoas que detestamos - sejam respeitados é a única forma de tentar garantir que nossos próprios direitos não sejam violados.


Prisão de Cabral inviabiliza governo do Estado do Rio

separador Por Fernando Molica em 17 de novembro de 2016 | Link | Comentários (0)

A prisão de Sérgio Cabral e o detalhamento de seu suposto esquema de propina agravam ainda mais a situação do Estado do Rio, complicam muito a aprovação do pacote de maldades enviado para a Alerj e ameaçam inviabilizar a continuidade do atual governo, que ainda tem pouco mais de dois anos de mandato. Não deve ser descartada a possibilidade de renúncia de Pezão e de Dornelles e a eleição, direta ou indireta, de um novo governador.

Os procuradores deixaram claro que os delatores não fizeram qualquer citação ao governador Pezão, mas ele, ligadíssimo ao antecessor, teve uma atuação fundamental em sua gestão, participou de todas as obras que, segundo o MP e a PF, geraram propina: Maracanã, PAC das Favelas e Arco Metropolitano.

Seria irresponsável dizer que outras lideranças do PMDB estadual estariam, de alguma forma, ligadas aos esquemas de corrupção. Mas é impossível negar que todos, de alguma forma, gravitavam politicamente em torno de Cabral, que, mesmo fora do governo, continuava exercer uma liderança entre eles.

A questão é saber o que vai acontecer, o estado está quebrado e não pode depender de um governo capenga. A situação é muito mais grave do que a verificada no governo Dilma - as muitas denúncias contra o PT não comprovaram até agora uma responsabilidade direta dela ou de Lula nos esquemas de corrupção. As acusações de hoje atingem o núcleo do poder estadual.

A construção de uma saída também é mais complicada. Ao contrário do que ocorreu no caso da Dilma, Dornelles, o vice-governador, integra o grupo político de Cabral e Pezão, sua ascensão ao governo não representaria qualquer mudança política. O presidente da Alerj, Jorge Picciani, que, como Pezão e Dornelles, também não foi citado pela PF ou pelo MP, é aliado de todos eles. Nenhum tem condições de pedir mais sacrifícios aos servidores e à população.

A Constituição estadual repete o que prevê a federal. O artigo 141 prevê que, em caso de impedimento do Governador e do Vice-Governador, ou de vacância dos
respectivos cargos, "serão sucessivamente chamados ao exercício da chefia do Poder Executivo o Presidente da Assembleia Legislativa e o Presidente do Tribunal de Justiça."

O artigo seguinte prevê que, com a saída do governador e do vice, haverá eleição em noventa dias "depois de aberta a última vaga". Mas, caso a vacância ocorra nos últimos dois anos do mandato, a eleição será indireta, feita pela Assembleia Legislativa - uma assembleia dominada por aliados de Cabral.

Ou seja, para que haja eleição direta para o governo, Pezão e Dornelles têm que deixar seus cargos até 31 de dezembro.

Art. 141 - Em caso de impedimento do Governador e do Vice-Governador, ou de vacância dos respectivos cargos, serão sucessivamente chamados ao exercício da chefia do Poder Executivo o Presidente da Assembléia Legislativa e o Presidente do Tribunal de Justiça.

Art. 142 - Vagando os cargos de Governador e de Vice-Governador do Estado, far-se-á eleição noventa dias depois de aberta a última vaga.

§ 1º Ocorrendo a vacância nos últimos dois anos do período governamental, a eleição para ambos os cargos será feita trinta dias depois da última vaga, pela Assembleia Legislativa, na forma da lei.
§ 2º - Em qualquer dos casos, os eleitos deverão completar o período de seus antecessores.

http://download.rj.gov.br/documentos/10112/2940000/DLFE-89639.pdf/CONSTITUICAODOESTADODORIODEJANEIRO.pdf


Invasores da Câmara e a lei que trata da segurança nacional

separador Por Fernando Molica em 16 de novembro de 2016 | Link | Comentários (0)

Vejo na TV que os caras que invadiram o plenário da Câmara e defenderam uma intervenção militar serão autuados por danos ao patrimônio públicos. O que eles fizeram vai além disso. Vejo no site do Palácio do Planalto que está em vigor a lei 7.170, de 1983, sancionada pelo Figueiredo e que trata dos crimes contra a segurança nacional .

Entre os crimes previstos estão:

Art. 18 - Tentar impedir, com emprego de violência ou grave ameaça, o livre exercício de qualquer dos Poderes da União ou dos Estados.
Pena: reclusão, de 2 a 6 anos.

Art. 22 - Fazer, em público, propaganda:
I - de processos violentos ou ilegais para alteração da ordem política ou social;
(...)
IV - de qualquer dos crimes previstos nesta Lei.
Pena: detenção, de 1 a 4 anos.

A lei tem que ser revista, contém artigos incompatíveis com a democracia. Mas é lei.


Meu defeito de cor

separador Por Fernando Molica em 13 de novembro de 2016 | Link | Comentários (0)

Engraçado que agora, tanto tempo depois de lançado, meu 'Bandeira negra, amor' gere discussões em torno de algo que eu jamais imaginara, a minha legitimidade/capacidade de escrever um romance que tem, entre os protagonistas, um negro (Frederico, advogado, militante de direitos humanos que cultiva um romance clandestino com uma oficial da PM, branca). O problema, segundo alguns, estaria na cor da minha pele - para os padrões brasileiros, eu sou branco.

O primeiro questionamento, mais suave, ocorreu no Rio, há uns dois meses, num evento da Flupp, quando houve uma pergunta sobre eventuais críticas de setores de movimentos negros ao fato de eu ter escrito o livro. Não, não soube de nenhuma reação negativa, pelo contrário. Há alguns dias, em Berlim, no lançamento da edição alemã impressa do livro, a conversa foi um pouco mais séria e partiu de duas brasileiras negras que estavam na plateia do evento que fiz n'A Livraria - livraria especializada em autores de língua portuguesa.

Não houve por parte delas qualquer hostilidade, o tema foi levantado com firmeza, ainda de maneira muito cordial. Mas a pergunta era incisiva: até que ponto um homem branco poderia entender o que se passa na cabeça de um negro? Uma das mulheres chegou a citar, como exemplos positivos, romances do querido Nei Lopes - por ser negro, ele teria uma perspectiva mais real do universo de outros negros. Sim, jamais contestaria esta afirmação, mas afirmei que qualquer crítica ao meu livro teria que ser feita depois de sua leitura.

Fã de carteirinha do Nei (que, com o Luiz Antônio Simas, acaba de vencer o Jabuti com o 'Dicionário da história social do samba'), ainda comentei que eu dera o livro para ele, quando ainda não nos conhecíamos (fui meio de penetra num aniversário dele).
O engraçado é que ninguém questionou minha capacidade/legitimidade conceber personagens femininos ou policiais (Beatriz, a PM namorada de Frederico, é também protagonista do livro). Em meus cinco romances tive, como protagonistas, jornalistas brancos, integrantes de organização armada de esquerda, compositor de óperas e sinfonias, traficantes. Nenhum representante dessas, digamos, categorias reclamou comigo.

Na conversa lá em Berlim ressaltei que não escrevi sobre a situação genérica dos negros brasileiros, tratei de um personagem, não tinha qualquer pretensão de transformá-lo numa espécie de síntese dos problemas enfrentados por pessoas da mesma etnia. Até porque a tentativa reducionista seria um fracasso, pessoas e personagens - independentemente de cor, origem, situação social, orientação sexual - são diferentes entre si. Lembrei que nós três envolvidos na discussão éramos brasileiros, mas a coincidência não nos fazia iguais.

Frisei também que a criação de uma relação direta entre características do autor e de seus personagens seria uma limitação absurda e praticamente inviabilizaria um dos pontos fundamentais da literatura e das outras artes, a possibilidade de entendimento do outro, do diferente. O que se busca é a diversidade, não uma confluência de visões de mundo; quanto mais vozes, melhor.

Além do mais, o fato de não ser considerado negro no Brasil não me impede de ter sido vítima de algum preconceito por alguma outra razão, por ser nascido e criado em subúrbio, por ser brasileiro - tive que dar muitas explicações sobre o que iria fazer na Alemanha ao guarda da imigração para poder entrar no país. Para o policial alemão, eu não era escritor ou jornalista, mas apenas um terceiro-mundista talvez interessado em virar imigrante clandestino. Preconceitos costumam ser dinâmicos, têm a ver com referenciais de quem vê.

Uma redução dessa tentativa de compreensão e entendimento do outro poderia transformar a ficção num quase espelho de redes sociais, onde o diálogo muitas vezes se dá entre os que pensam da mesma forma. Além disso, seria absurdo negar a possibilidade de qualquer ser humano, ficcionista ou não, de ver o mundo com seu próprio olhar e de ser capaz de entender a perspectiva do outro, de ser solidário com suas dores. Apelei: pelo critério da exclusividade, Chico Buarque não teria feito suas tantas e belas canções com perspectiva feminina. Ressaltei que o 'Bandeira negra' é uma história de amor que, pelas características dos personagens, esbarra em questões como o racismo. Não o racismo-crime, o do xingamento ou da proibição de acesso, mas aquele que se manifesta em pequenos gestos, em olhares.

Há anos que insisto numa questão que considero fundamental: um livro deve ser lido pelo que tem entre suas capas, tem que valer o que está escrito. O que importa é o que está no texto, onde poderão ser apontados erros e/ou acertos. O julgamento baseado em características do ficcionista levaria a um determinismo absurdo, incompatível com a liberdade e com a sensibilidade de autores e leitores.

O curioso é que, já no fim do debate, mediado pelo caríssimo Rafael Cardoso, surgiu a informação de que militantes de extrema direita estavam fazendo uma manifestação contra imigrantes ali perto da livraria. Aproveitei para comentar que aqueles sujeitos não teriam a menor dúvida em me ver como estrangeiro, resultado de tantas misturas. Sou branco só no Brasil.

E, já que Nei Lopes foi citado, vale dizer que ele fez questão de mandar um e-mail para a editora, a Objetiva, com muitos elogios ao livro, por ele classificado de "magnífico". Disse que terminara sua leitura "maravilhado". Fiquei, claro, muito feliz. O Nei é compositor, romancista e pesquisador fundamental de tradições culturais e religiosas de matrizes africanas. Um cara que leu o livro sem se importar com a cor da pele de seu autor.

Em tempo: a ausência de autores e personagens negros na literatura brasileira contemporânea é o tema de do ensaio 'Quando o preconceito se faz silêncio: relações raciais na literatura brasileira contemporânea', da a professora Regina Dalcastagnè, publicado em 2008 na Gragoatá, revista dos Programas de Pós-graduação Instituto de Letras da UFF.

No texto, em que ela cita o 'Bandeira negra', ela frisa que o protagonista "(...) é apenas um sujeito honesto, que trabalha o dia inteiro e ama uma mulher chamada Beatriz. Mas ele é negro. E, sendo negro no Brasil de hoje, sua história começa pela dificuldade de assumir a própria cor".

Cita um estudo em que Antonio Cândido trata da poetização, por Castro Alves, da vida afetiva do negro. Construção que assim dava aos negros o direito à humanização, à dor e ao amor. Segundo ela, "colocar em cena personagens negras envoltas em sua subjetividade, amando e sofrendo, talvez não devesse mais ser novidade em nossa literatura, mas pouco se evoluiu desde então".

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Lenin em Berlim 2

separador Por Fernando Molica em 08 de novembro de 2016 | Link | Comentários (0)

Na manhã desta terça tive uma conversa muito legal com estudantes do lnstituto de Estudos Latino Americanos da Universidade Livre de Berlim. O encontro, organizado pela professora Zinka Ziebell, gaúcha radicada na Alemanha, foi ótimo, houve muitas perguntas sobre literatura e o Brasil.

Ontem à noite participei, n'A Livraria, de uma leitura e de um debate com o público em torno de 'Uma selfie com Lenin' e 'Bandeira negra, amor'. Foi também uma conversa bem interessante (publico fotos assim que o Edney Meirelles me enviá-las...). A mediação foi do amigo e escritor Rafael Cardoso, que bateu um bolão.

A programação começou na sexta passada, na Embaixada Brasileira, onde puxei um bate-bola sobre os 100 anos do samba.

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Lenin em Berlim 2

separador Por Fernando Molica em 08 de novembro de 2016 | Link | Comentários (0)

Na manhã desta terça tive uma conversa muito legal com estudantes do lnstituto de Estudos Latino Americanos da Universidade Livre de Berlim. O encontro, organizado pela professora Zinka Ziebell, gaúcha radicada na Alemanha, foi ótimo, houve muitas perguntas sobre literatura e o Brasil.

Ontem à noite participei, n'A Livraria, de uma leitura e de um debate com o público em torno de 'Uma selfie com Lenin' e 'Bandeira negra, amor'. Foi também uma conversa bem interessante (publico fotos assim que o Edney Meirelles me enviá-las...).

A programação começou na sexta passada, na Embaixada Brasileira, onde puxei um bate-bola sobre os 100 anos do samba.

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Lenin em Berlim

separador Por Fernando Molica em 07 de novembro de 2016 | Link | Comentários (0)

Hoje, às 19h, participarei de uma conversa sobre 'Uma selfie com Lenin' e 'Bandeira negra, amor' (a edição alemã deste livro está sendo lançada agora). O encontro, que será n'A Livraria e terá mediação do Rafael Cardoso, faz parte da série de eventos Brasilien Triftt Berlin (Brasil encontra Berlim), que acontece desde o mês passado. A Livraria fica na Torstrasse 159. (O cartaz do evento tem uma barraca de praia que estampa o escudo do Botafogo!).

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Selfie em Berlim

separador Por Fernando Molica em 31 de outubro de 2016 | Link | Comentários (0)

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Participar de leituras e conversas em Berlim sobre 'Uma selfie com Lenin' terá uma característica especial. A capital alemã está entre as cidades citadas pelo narrador do livro, o autor da longa carta/romance. Aí vai um dos trechos em que a cidade é citada:


"Memórias doem, né? É óbvio dizer isto, mas nem sempre nos damos conta do tamanho de nossa dor. Há uns meses, em Berlim, consegui visitar o Reichstag. Eu sabia vagamente da história, do incêndio atribuído a um comunista desvairado que se tornou pretexto para que os nazistas fechassem o parlamento, meus conhecimentos não iam além do enciclopédico. Assim, tomei um susto quando a guia do meu grupo começou a destacar as inscrições em paredes internas do prédio deixadas pelos soldados soviéticos nos momentos finais da Segunda Guerra. Muitas e muitas paredes foram pichadas com ofensas aos alemães, palavrões que só não se tornavam explícitos porque escritos no alfabeto cirílico. Mas era possível imaginar as considerações dos invasores -- libertadores -- em relação às mães dos nazistas, dos caras que haviam provocado uma das maiores tragédias da humanidade. Para minha surpresa, as reformas ocorridas depois da guerra não apagaram todos os xingamentos. Durante algumas décadas, as inscrições ficaram atrás de divisórias, protegidas dos olhos do público. Com a reunificação alemã, houve nova reforma para que o Reichstag voltasse a sediar o parlamento -- e foi aí que os caras decidiram expor as ofensas. Nem todas ficaram, mas há muitas, por todos os lados, algumas bem próximas à sala ocupada pelo chanceler federal, a Angela Merkel é obrigada a vê-las sempre que vai para seu gabinete. Lembrei de uma professora da faculdade, ela sempre dizia que, depois da expulsão dos ingleses, chineses discutiram o que fazer com uma enorme estátua de São Jorge plantada em Pequim. "Foi derrubada?", perguntei. "Não, ganhou iluminação especial, feérica, para que ninguém se esquecesse do invasor, da ocupação", respondeu. Os alemães fizeram mais ou menos isso. Ao expor os xingamentos soviéticos em seu próprio parlamento, na sede de seu poder, lembram aos cidadãos o tamanho da merda feita por seus antepassados, os crimes, o genocídio. Ressaltam que, por conta das cagadas pretéritas, todos são obrigados a conviver com as palavras para lá de duras pichadas pelos soldados soviéticos, os mesmos que comandariam o estupro de não sei quantos milhões de mulheres alemãs. Melhor conviver com dores pretéritas do que correr o risco de revivê-las, é importante lembrar para não repetir.

Talvez por isso eu lembre tanto, Eloísa. Talvez por isso eu precise escrever para você, necessite, depois de tanto tempo de viagem, deixar, nestas folhas de papel, meus garranchos, meus desabafos, minhas ofensas. Embarquei com a ideia de
esquecer, de deixar para trás você, a agência, nossos clientes, a Amanda, minha vida de jornalista. E, no entanto, não consigo parar de lembrar, de me torturar. É como se vocês todos estivessem ao meu lado, falando, cantando, cobrando,
pichando minhas paredes."


Pitacos municipais 25 - Derrota da esquerda no primeiro turno não mudou discurso de Freixo

separador Por Fernando Molica em 31 de outubro de 2016 | Link | Comentários (0)

O resultado do primeiro turno mostrou que uma vitória de Marcelo Freixo no mata-mata seria muito improvável: ele e os demais candidatos de esquerda tiveram, somados, 23,22% dos votos válidos. Marcelo Crivella e os demais representantes da direita e da centro-direita ficaram com a preferência de 76,78% dos eleitores que optaram por algum dos concorrentes.

O campo conservador teve, na primeira rodada eleitoral, 3,3 vezes mais votos que o chamado progressista. A esquerda, abalada com os escândalos que envolvem o PT, tomou uma goleada no dia 2 de outubro e só chegou ao segundo turno carioca graças à divisão de votos dos adversários ideológicos e à teimosia do prefeito Eduardo Paes de escalar um jogador, Pedro Paulo, que, por conta da acusação de ter agredido a então mulher, entrou em campo mancando, sem condições de jogo.

Beneficiado pela pulverização de votos conservadores, Freixo entrou no segundo turno meio que por acidente e, num primeiro momento, comportou-se como um time pequeno que chega à final de um campeonato e que se dá por satisfeito com a façanha. No primeiro debate, na Band, chamou Crivella de "senhor" e disse que o respeitava.

Enquanto isso, o candidato do Psol era vítima de boatos espalhados pelas redes sociais que enfatizavam suas supostas propostas relacionada a questões comportamentais - legalização das drogas e do aborto, estímulo ao casamento gay. Todos temas que fazem parte da esfera federal ou estadual.

Além de não ter conseguido responder aos ataques, Freixo, animado com a ida para o segundo turno, não atentou para a óbvia derrota da esquerda na primeira fase e insistiu em discursar para os já convertidos. Demorou a tentar seduzir o eleitor mais conservador, fundamental para quem precisa de maioria para ser eleito.

Fazer aliança com setores mais conservadores não significa, necessariamente, entregar a chave dos cofres públicos. Na campanha, o candidato falou muito em diversidade, mas não abriu mão da ortodoxia política-ideológica. Certo de sua verdade, Freixo não conseguiu falar para o eleitor mais pobre, que vai à Praça São Salvador apenas para vender cerveja.

Os ataques mais diretos ao adversário, que permitiram a busca de um voto ético, só começaram depois de a imprensa revelar fatos comprometedores do passado de Crivella. Só na última semana de campanha, assustado com a tendência de crescimento de abstenções e de votos nulos, Freixo procurou se mover em direção ao centro - divulgou seu 'Compromisso com o Rio', carta em que dizia que respeitaria contratos e o equilíbrio fiscal. Era tarde demais.

Pesou também contra o canditado do Psol a dificuldade que teve, num passado recente, de condenar a violência provocada pelos black blocs, como se o repúdio aos excessos de manifestantes representasse um apoio à atuação da PM. Preocupado, na época, em não criar arestas com setores do partido e da esquerda que apoiavam os gestos mais radicais, Freixo se esqueceu que, em dois ou três anos, enfrentaria uma eleição majoritária. Violência é uma forma de luta política, mas é contraditória com a via institucional. Quem opta por ambas tende a perder as duas batalhas.

Hoje, teóricos que em 2013 diziam que a atuação dos black blocs servia para questionar o "monopólio da violência pelo Estado" e que era "inútil e simplista" dividir manifestantes entre pacíficos , vândalos e mascarados, publicam textos em que exaltam a beleza da campanha de Freixo e demonstram orgulho e alegria com a derrota que ajudaram a construir.


O Bolsa Hímen, a Taxa Chifre e outras sugestões para a defesa da família

separador Por Fernando Molica em 29 de outubro de 2016 | Link | Comentários (0)

Já acompanhei e cobri muitas e muitas campanhas eleitorais, mas nunca consegui entender direito essa história de um candidato se apresentar como representante dos "valores da família". O que seria isso, afinal? Suponho que, no aspecto propositivo, o sujeito possa, para estimular casamentos, criar algo como o programa 'Meu casório, minha vida', que daria bônus para casais - héteros, claro - que topassem formalizar suas uniões.

Poderia também ser criado o Bolsa Hímen, que bancaria o vestido de noiva das jovens que preservassem a virgindade até o casamento, um prêmio à invencibilidade. Cintos de castidade high tech e com design arrojado - conhecidos popularmente como Espanta Pinto e Perereca na Gaiiola - seriam distribuídos em postos de saúde.

Em nome da família, prefeitos teriam à sua disposição medidas punitivas, como o aumento progressivo do IPTU de imóveis registrados em nome de homens e mulheres flagrados em adultério, algo que poderia ser chamado de Taxa Chifre ou de Contribuição Extraordinária Sobre a Pulada de Cerca.

Há também a possibilidade de fazer com que a Guarda Municipal passe a reprimir travestis e prostitutas que se oferecem nas ruas. A Secretaria de Fazenda poderia passar a cobrar, de termas e casas de prostituição, o Imforca, Imposto Sobre a Fornicação Aleatória. Já a Secretaria de Educação teria como implantar a disciplina Educação Assexuada.

Gays e solteirões passariam a pagar o dobro em cinemas, teatros e transportes públicos. Filhos gerados fora do casamento teriam complicações na vida civil por conta da aprovação do programa Basta de Bastardos.

Como até hoje ninguém propôs nenhuma das medidas acima - espero não ter dado ideia -, é razoável admitir que, em prol das famílias, de qualquer família, governantes teriam que garantir saúde, educação, transportes, saneamento, itens que deveriam fazer parte da agenda de qualquer político. Soluções para esses problemas facilitariam muito a vida de cidadãos de qualquer tipo de família.

O tema de defesa da família costuma ser usado apenas para driblar o descompromisso com o que deve ser feito e, com frequência, traduz apenas uma verdade: a volúpia com que muitos sujeitos entram na vida pública apenas para defender os interesses de suas próprias famílias.


Meus livros e seus novos vizinhos

separador Por Fernando Molica em 28 de outubro de 2016 | Link | Comentários (0)

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Na infrutífera busca por um determinado livro, acabei tomando, esta semana, a decisão radical de mudar o critério de arrumação da principal estante de casa, que reúne ficção, livros jornalísticos e obras que tratam da história recente do país.

O maior problema foi com a ficção, estrangeira e nacional. Eu havia desenvolvido um critério absolutamente maluco que me permitia organizar os volumes de acordo com minhas idiossincrasias.

Começava as prateleiras dos estrangeiros com os autores portugueses e daí para angolanos, moçambicanos, espanhóis (aqui incluídos os de países vizinhos, da América Latina), russos, franceses, norte-americanos, britânicos etc. Só que já não conseguia encontrar muitos livros. Fiz um mix: mantive separados os escritores lusófonos, os que escrevem em espanhol e em russo. Depois, ordem alfabética para todos.

Graças à decisão de isolar algumas nacionalidades e idiomas, consegui manter algumas brincadeiras como a de colocar lado a lado autores que haviam cultivado rixas entre si - Gabriel García Márquez e Mario Vargas Llosa, Saramago e Lobo Antunes vão poder, assim, continuar a brigar pelas madrugadas.

No setor nacional, a confusão era maior ainda, já que costumava priorizar clássicos e autores contemporâneos de minha preferência, entre eles, diversos amigos. Mas cadê que eu conseguia achar o título X ou o Y; desorganizado desde sempre, sequer conseguia mais juntar livros de um mesmo autor.

Então, parti pra caretice, e tome, aqui também, de aplicar a ordem alfabética. Foram dois dias insanos, com poeira e livros para todo o lado, mas o resultado ficou divertido. Há autores que devem estar irritadíssimos com os novos vizinhos, mas, em outros casos, surgiram boas coincidências.

João Antônio e Marçal Aquino certamente terão longos colóquios sobre personagens que vivem nos cantos escuros das grandes cidades; o mineiro Paulo Mendes Campos falará de carioquices com Antonio Callado, Flávio Carneiro gostará da companhia do Rafael Cardoso e do Bernardo Carvalho. Cony e Flávio Moreira da Costa também terão bons diálogos. Marcelino Freire e Daniel Galera discorrerão sobre paulistas. gaúchos e muitas memórias da infância e juventude.

O animado e extrovertido Jaguar vai elogiar os livros e brincar com os personagens que, criados por Flávio Izhaki, giram em torno de tantas dúvidas. Como livro não sofre efeitos do álcool, poderão beber muito na conversa (nesta disputa, sou mais Jaguar e dou vários copos de vantagem para ele). 'Rio bandido', do amigo Ronie Lima, puxará conversa com a 'Cidade de Deus', de Paulo Lins. E manifestações culturais populares serão tema dos camaradas Nei Lopes e Júlio Ludemir.

Alberto Mussa não vai reclamar da companhia - este senhor passou a ter, do lado direito, a companhia do Marcelo Moutinho. O vizinho da esquerda é Raduan Nassar. Vou esconder um gravador por ali e, assim, registrar as conversas entre Moutinho e Mussa pontuadas pelos silêncios do Raduan. O pobre do Antônio Prata vai ter que se virar para arrancar palavras do sintético Gracialiano Ramos, mas haverá de seduzir o alagoano com seus textos e tiradas.

Sérgio Rodrigues ficará feliz da vida, poderá, enfim, discutir futebol com os primos Henrique e Nelson. Para ajudar a quebrar o gelo, coloquei 'O drible', do primeiro, ao lado de 'À sombra das chuteiras imortais'. De vez em quando, Sérgio poderá se virar para a esquerda e dar alguns conselhos para Guimarães Rosa. Logo ali ao lado, LYgia Fagundes Telles e Antônio Torres, grandes conversadores, trocarão histórias e vidas.

Xico Sá exultará ao saber que ficou grudadinho com Carola Saavedra. Luiz Antônio Simas falará de encatarias com Edney Silvestre; Márcio Souza e Cristóvão Tezza protagonizarão um delicioso diálogo Norte-Sul. Ali perto, Verissimo rirá baixinho na direção do paranaense e dirá, me dei bem, fiquei com a Paloma Vidal (terá que, porém, disputar sua atenção com o Luiz Vilela).

E, caramba, onde ficaram os meus livros? Como quem manda aqui sou eu, tratei de arrumar lugar numa cobertura que remete aos altos do Cosme Velho. Sim, é isso mesmo que você pensou, tratei de me colar no Machado de Assis, que nos observa e, espero, abençoa. Temo apenas, dia desses, ouvir o Bruxo, irônico, sussurrar um "passe aqui em casa, leia mais, e vê se aprende".


Pitacos municipais 24 - O voto com fé: religião divide eleitor carioca

separador Por Fernando Molica em 27 de outubro de 2016 | Link | Comentários (0)

Os contrastes nas intenções de voto entre fieis de diversas crenças mostra que a questão religiosa é um fator fundamental nesta eleição carioca - a divisão entre os segmentos é muito explícita. A vantagem de Marcelo Crivella (PRB) sobre Marcelo Freixo (Psol) na última pesquisa Datafolha (46% a 27%) seria bem menor se os evangélicos não tivessem aderido em massa à campanha do senador. Estes fieis demonstram que não têm qualquer problema em misturar religião e política.

Kardecistas e umbandistas confirmam a divisão. Adeptos de religiões mais frequentemente atacadas pela Igreja Universal do Reino de Deus, são os que mais rejeitam o bispo Crivella. O problema de Freixo é que o número de adeptos destas crenças é bem menor que o de evangélicos. Dividido, o voto católico deixa de ter um peso fundamental na disputa, o que favorece a candidatura do senador.

Segundo o Datafolha, os evangélicos representam 33% do eleitorado carioca. Entre os pentecostais, Crivella ganha de 79% a 8%; entre os evangélicos não pentecostais (ligados a igrejas mais tradicionais, como a Batista e a Metodista), a diferença também é menor, mas também grande: 70% a 12%.

No grupo de católicos (40% dos eleitores), a vantagem do bispo licenciado da Igreja Universal fica na margem de erro: 33% a 32%. Os kardecistas/espiritualistas (6% dos eleitores) dão a maior vantagem relativa a Freixo: 51% a 22%; entre os umbandistas (4% do total), o placar é de 43% a 22% (brancos e nulos chegam a 31% neste universo).

Os 11% dos eleitores que declaram não ter religião também ajudam a desequilibrar o jogo pró-Crivella: entre eles, o senador recebeu 43% de intenções de voto, contra 34%.de Freixo.


Pitacos municipais 23 - A elite nem-nem

separador Por Fernando Molica em 26 de outubro de 2016 | Link | Comentários (0)

O tiroteio virtual entre as campanhas de Crivella (PRB) e Freixo (Psol) parece ter atingido, principalmente, os eleitores de renda mais alta que, no primeiro turno, votaram em Carlos Osorio (PSDB) e Indio da Costa (PSD). Os dois candidatos tiveram mais votos em áreas nobres da Zona Sul.

Seus eleitores formam o principal contingente dos nem-nem, aqueles que, entre Crivella e Freixo, preferem o voto branco ou nulo. Entre os que no primeiro turno optaram por Osorio, 38% disseram que não votarão em nenhum dos dois que foram para o mata-mata. O percentual chega a 33% entre os cidadãos que haviam escolhido Indio. No dado geral da pesquisa, o índice de intenções de nulos/brancos é de 19%.

Entre os eleitores com renda familiar acima de dez salários mínimos, a única em que Freixo bate Crivella (38% a 35%), a intenção de não-voto chega a 24%. Entre os mais pobres, onde o candidato do PRB goleia de 57% a 17% o do Psol, os nulos e brancos ficam em 12%.

Pelo que indica a pesquisa, muitos eleitores, especialmente os mais ricos, parecem cansados de denúncias e carentes de esperança. Piscar o olho para quem gosta de votar com mais amor do que ódio parece ser o grande desafio neste finalzinho de campanha.

Outro viés curioso é a comprovação daquela história de irmão votar em irmão. Entre os evangélicos pentecostais, 79% ficam com Crivella e apenas 8% com Freixo; entre os evangélicos não pentecostais, a diferença é menor, mas bem ampla: 70% a 12%. Pela amostragem do Datafolha, os dois grupos representam 33% do eleitorado.

Católicos, de acordo com os critérios do instituto, são 40% dos eleitores - e, entre eles, a divisão é grande: Crivella tem 33% e, Freixo, 32%. Pelo jeito, a indignação com atos de Crivella - música em que ironiza o chute em imagem de Nossa Senhora Aparecida e com a afirmação de que a Igreja Católica é demoníaca - não foi suficiente para superar o temor inspirado pela candidatura de Freixo.


BG
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