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Pontos de Partida, o Blog do Fernando Molica

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E viva Jorge Amado

separador Por Fernando Molica em 22 de junho de 2016 | Link | Comentários (0)

Outro dia, o Marcelo Moutinho me repassou aquela proposta de citar autores - acho que dez - que me influenciaram como escritor. Até para que os relacionados não viessem reclamar e protestar inocência (a maioria já morreu, não quero saber de fantasmas), não entrei na brincadeira. Seria complicado também restringir a escritores a possibilidade de alguma influência nos meus livros.

Mas ontem fui a uma palestra da Ana Maria Gonçalves, organizada pelo Antônio Torres, sobre o imaginário de Jorge Amado. E lá foi comentada uma resistência de setores da crítica ao autor de 'Gabriela, cravo e canela'. Então, revelo: o baiano não é meu autor brasileiro favorito (só entre os mortos, eu citaria, pra começo de conversa, Machado de Assis e Graciliano Ramos), mas foi um dos responsáveis pelos meus primeiros deslumbramentos com a literatura, por alguns grandes prazeres na companhia de um livro.

Ontem, o Torres leu um texto muito legal que o Augusto Nunes publicou, no Caderno 'Ideias', do JB, sobre o Jorge Amado, aí vai:

"Poucos ficcionistas dominaram tão completamente quanto Jorge Amado a arte de inventar gente. Os personagens do escritor baiano, inspiradores de ilustrações magníficas, transformaram o leitor em diretor de elenco. Além de nome, têm cores e cheiro. Têm até corpo e rosto. Às vezes, existem. Gabriela, por exemplo, tem cor de canela, cheiro de cravo e virou gente com o nome de Sônia Braga."

É isso, Jorge Amado inventou muita gente, cuja existência não pode ser negada. Claro que Gabriela, Nacib, Vasco Moscoso de Aragão, Quincas Berro d'Água e Pedro Bala existem, sabemos disso. Mais até: ele, de certa forma, inventou a Bahia, nos apresentou e nos fez íntimo de uma terra tão pouco conhecida quando ele começou a publicar seus romances.

Uma apresentação recheada de críticas ao racismo, às injustiças - temas tratados de forma meio esquemática em seus primeiros livros, mas que, aos poucos, foram sendo integrados de maneira mais orgânica aos seus romances. Lembro que, na adolescência, quando precisava de autorização dos meus pais para pegar livros de Jorge Amado no Colégio Metropolitano, no Méier, havia quem fizesse uma crítica de viés feminista ao autor. Dizia-se que ele tratava as mulheres de maneira machista e seu culto à beleza e ao fervor sexual de negras e mulatas poderia ser visto como uma herança da visão da Casa Grande.

Eu prefiro achar que ele nos ajudou a reconhecer a beleza de um povo mestiço, misturado. Seus livros colaboraram para reforçar a ideia de a mulher mais bonita poderia ser uma negra, uma mulata. Mulheres fortes, lutadoras, que, como Tereza Batista, enfrentavam quem tentava estuprá-las.

Jorge Amado também tem um papel importantíssimo ao ressaltar a tolerância religiosa, o respeito que demonstra pelas religiões de matriz africana, em especial, pelo candomblé, é fundamental. Ele soube muito bem abordar a importância destas religiões e de seus mitos - ler seus livros é também uma forma de protestar contra as agressões à fé. Além disso tudo, o cara era um grande contador de histórias, escrevia como se escrever fosse simples - isto não é tudo, mas não é pouco.


Investigação sobre jatinho complica contas de Campos e Marina

separador Por Fernando Molica em 21 de junho de 2016 | Link | Comentários (2)

As irregularidades relacionadas ao avião utilizado por Eduardo Campos em sua campanha à Presidência complicarão ainda mais o processo de prestação de contas da chapa formada por ele e por Marina Silva.

O site do TSE revela que Marina, defensora da anulação da chapa Dilma-Temer, não apresentou uma relação própria de receitas e despesas de campanha. Como no caso de Temer, as contas da ex-ministra estão incluídas nas apresentadas pelo candidato a presidente.

O processo de prestação de contas da chapa Campos-Marina, que tem o número 99094, continua aberto. No fim de março, frisei, no 'Informe do DIA', que comprovantes relacionados aos voos no PR-AFA ainda não haviam sido entregues à Justiça Eleitoral.

Na época, a assessoria de imprensa do TSE afirmou que as contas de candidatos a presidente e a vice eram analisadas de forma conjunta.

Presos hoje pela Polícia Federal, os empresários João Carlos Lyra Pessoa de Melo Filho e Apolo Santana Vieira tentam, há quase dois anos, se livrar da responsabilidade sobre o avião. Segundo a campanha de Campos, ambos doaram horas de voo para Campos e bancaram despesas de viagens.

As notas publicadas no 'Informe' ressaltaram que Lyra deu à Justiça do Trabalho declarações contraditórias relacionadas à propriedade do avião. Ele e Vieira estão entre os réus de processos movidos pelas famílias do piloto e do co-piloto que morreram no no acidente com o jatinho.

Também relacionada como ré nos processos trabalhistas, Marina também procurava se esquivar de qualquer responsabilidade sobre o avião. Seus advogados disseram à Justiça que ela voara apenas oito vezes no Citation, sempre na condição de convidada de Campos.


As poucas e boas histórias

separador Por Fernando Molica em 17 de junho de 2016 | Link | Comentários (0)

Gosto dos livros que contam muitas histórias, mas gosto também dos livros que parecem contar poucas histórias, mas que se aprofundam nos temas, nos personagens, que ressaltam o que um olhar menos atento classificaria como banal.

Romances que são como quadros, como os do Edward Hopper, como o 'Absinto', do Degas, como 'Caipira picando fumo' e 'Violeiro', do Almeida Junior. Pinturas que contam toda uma história em apenas uma imagem. São quadros e romances que, por mais detalhes que apresentem, permitem ao observador/leitor complementar aquela narrativa, imaginar novas saídas, criar situações, pendurar outros adereços nos personagens.

Essa introdução é pra elogiar 'Amanhã não tem ninguém', do camarada Flávio Izhaki, e 'Abaixo do paraíso', do André de Leones. O primeiro disseca alguns momentos fundamentais de uma família judia a partir de narrações, em primeira pessoa, de alguns de seus integrantes. Não há no romance um grande e espetacular momento, uma virada, um instante de tensão - e é isto que o faz tão particular, tão delicado, tão denso.

Izhaki nos apresenta diferentes versões para vidas mais ou menos banais, gente como a gente, sejamos judeus, católicos, candomblecistas, ateus, negros, brancos. Histórias que, misturadas, revelam consensos e contradições - cabe ao leitor escolher as melhores possibilidades.

Tudo permeado por solidão, lirismo, frustrações e pequenos e reveladores espantos, como o apresentado no fim do livro, um momento de lucidez e de brilhantismo de um personagem improvável.

De Leones foca num personagem, em suas andanças e viagens não muito bem explicadas, contadas na perspectiva de quem as vivencia. Uma história embaçada como a vida do protagonista. Ficamos sabendo de suas vagas ligações com a política, com a política real, pragmática, somos informados de um crime, algo meio inexplicável, sem sentido. Como no livro do Izhaki, o sentido será construído aos poucos, a cada frase.

Uma narrativa aqui e ali pontuada por passagens bíblicas que, ao contrário da visão tão comum, não tentam servir de guia, não buscam indicar um rumo, não apontam para a salvação. Apenas entram na história misturadas à poeira, às roupas sujas jogadas num hotel barato de alguma cidade do Centro-Oeste. A luz que nasce é pouca, mas importante como um fiapo de sol que aponta por uma fresta na janela.

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'Selfie com Lenin' na 'Gazeta', de Vitória

separador Por Fernando Molica em 17 de junho de 2016 | Link | Comentários (0)

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A pior das reações

separador Por Fernando Molica em 16 de junho de 2016 | Link | Comentários (0)

Fui ontem fazer um exame que requeria o uso de contraste. Tive que assinar autorização, a enfermeira falou de algumas reações inevitáveis (calor aqui e ali) e dos riscos - mínimos, ressaltou - de alguma manifestação alérgica. Garantiu que, em caso de emergência, todos ali estavam preparados para me socorrer.

Fiquei meio assustado com tantas recomendações, e tratei de alertá-la para o pior:

- Se eu começar a gritar "Mengo!", trate de me levar pra UTI!

Deu tudo certo.


Sobre dar e comer na política brasileira

separador Por Fernando Molica em 15 de junho de 2016 | Link | Comentários (0)

A delação do Sérgio Machado revela que não há um submundo na política brasileira. Com as exceções de praxe, a nossa política se faz no submundo, é um grande propinoduto capaz de abastecer diversos outros dutos.

Em suas gravações, o Machado - e que ironia ele ostentar um nome que remete ao escritor que tratou a vida brasileira com tanto sarcasmo e ironia - diz que deu pra um político e que um outro seria o primeiro a ser comido. Afinal, como muito bem resumiu, ainda no governo Sarney, o então deputado Roberto Cardoso Alves, é dando que se recebe. As óbvias conotações sexuais das frases de Machado e Robertão acabam sendo ilustrativas da grande sacanagem em que estamos metidos (metidos, ops!).

Vamos ao óbvio: nossa política existe para viabilizar uma sistemática transferência de recursos públicos para cofres particulares. Todos os processos do jogo político - campanhas eleitorais, formação de governos, nomeações - têm o objetivo principal de abastecer este mecanismo de transferência.

A nomeação de Machado para a Transpetro não tinha a finalidade de dar um bom emprego para o sujeito, visava apenas garantir grana pesada para um grupo de políticos. E, sem querer sem injusto, dá para substituir "Machado" e "Transpetro" por outros nomes e empresas/ministérios.

É até possível que governos implantem determinadas políticas públicas razoáveis e necessárias. Mas isso só pode ser feito se atendidos os pleitos da política real - é até injusto chamar de "Centrão" aquele grupo que manda e desmanda na Câmara. Esses deputados não são de centro, nem de direita ou de esquerda, são movidos por interesses muito mais sinceros e pragmáticos. Machado é um bom exemplo disso: ex-senador tucano, viu seu poder crescer em governos petistas graças ao apoio do PMDB.

A lista de Machado é democrática e representativa: inclui PT, PSDB, PMDB, PP, DEM, PCdoB. O cara distribuiu tanto dinheiro que, a essa hora, representantes de partidos menores devem estar mais indignados do que aliviados - como puderam ficar de fora dessa mamata?


Neymar é junior

separador Por Fernando Molica em 13 de junho de 2016 | Link | Comentários (0)

Ao xingar preventivamente os supostos críticos da seleção, Neymar - aquele jogador acusado de fraudes fiscais no Brasil e na Espanha - demonstra mais uma vez a razão de estampar nas camisas um "Junior" ao lado de seu nome. Ele, como ressalta o complemento, é apenas um menino mimado, cheio de si e que se acha acima de qualquer crítica ou lei. Um menino que sai em defesa dos coleguinhas que deram vexame outra vez.

Em 2014, depois do 7 a 1, o Joaquim Ferreira dos Santos fez um texto espetacular, 'O fim de Tóis', em que apontava a infantilidade de nossos jogadores, meninos que brincavam de jogar na seleção, que se julgavam predestinados à vitória:

"Não treinavam. Tinham a força, a espada de Grayskull, o grito de Shazan, o apito do japonês, o licor de jurubeba e o pó de pirlimpimpim. Na hora agá, resolveriam." Como se sabe, não resolveram.

Quase todos os jogadores da seleção foram muito pobres na infância. Desde que descoberta a intimidade que tinham com a bola passaram a encarnar o sonho de rendenção de suas famílias. Foram adolescentes privados de muitos prazeres - pela falta de grana e pela necessidade de levar uma vida compatível com a de um atleta. O foco na carreira é tamanho que, de um modo geral, a escola acaba sendo tocada apenas para cumprir tabela.

Ao contrário do que ocorre em países mais decentes, e apesar das mudanças ocorridas nos últimos anos, por aqui o esporte ainda é uma das poucas alternativas capazes de fazer com que um jovem de família pobre possa ter uma vida melhor. Muitos dos poucos que conseguem jogar em grandes clubes acabam descontando, na vida adulta, as limitações que passaram na infância e na juventude. Podem, enfim, brincar - têm grana, prestígio, poder, não devem satisfações a ninguém.

Tanta grana, tanto prestígio e tanto poder acabam sendo vividos por uma perspectiva muito egocêntrica, como lhes ensinaram olheiros, empresários e dirigentes - é cada um por si, o que vale é o brilho individual, o "sou eu e mais dez". E tome necessidade de brilhar, de aparecer, de se destacar para além do uniforme, de ressaltar que, Jesus Cristo, eu estou aqui, veja só minhas chuteiras coloridas, minhas tatuagens, meus cabelos esquisitos, minhas sobrancelhas trabalhadas, meus louvores, minha fé. Uma fé que, de tão grande, dispensa treinamentos, táticas, jogo coletivo - que há de, sozinha, remover cabeças de áreas, zagueiros e goleiros adversários. É nóis, é tóis.

Meu querido e pra lá de saudoso amigo e compadre Sérgio Costa me chamou a atenção para uma entrevista ao 'Correio', depois da Copa de 2014, dada pelo zagueiro Dante, então no Bayern de Munique, O repórter perguntou o que seria importante para reformular nosso futebol. Resposta:

A escolaridade é muito importante. O futebol tem tudo a ver com educação. Quando se fala de uma tática de futebol, divisão de espaço em campo... Tem muita coisa que o treinador fala que depende da clareza do jogador. Lá eles investem. Fica a grande dica.

"É fácil entender Guardiola?", perguntou o repórter. Dante respondeu:

Ele é um professor taticamente. Ele não explica o futebol de uma forma muito fácil, muito clara. Se você não tiver clareza na cabeça, não vai entender nada. Ele explica matemática: dois contra um, três contra dois... Sempre trabalha taticamente para ter superioridade de um lado do campo. Trabalha muito com a cabeça do jogador, com a inteligência. Muito diferenciado.

Nossa tática aqui é outra, é como se o talento - com brasileiro não há quem possa - fosse suficiente para driblar tudo o que se exige de um time de primeira linha. É como se fôssemos capazes até de superar também a roubalheira profissional dos dirigentes amadores.

Cobranças são vistas como indevidas, inadmissíveis, um constrangimento aos meninos do Brasil - adoramos chamá-los de meninos. Meninos carentes precisam de pais fortes, repressores, durões - daí o Felipão, o Dunga, daí a saudade que tantos brasileiros têm dos militares, daí o desejo que muitos têm de entregar suas vidas para o Bolsonaro. Daí que técnicos brasileiros não costumam fazer carreira no exterior (na Copa América do ano passado, três das quatro seleções semifinalistas tinham técnicos argentinos).

Nossos jogadores não são diferentes da maioria de nossos jovens, são filhos de um Brasil individualista, que estuda pouco, que acredita que a fé é capaz de tapar buracos de formação, esforço e treinamento. Um Brasil infantil, que não admite ser responsabilizado por seus próprios erros.

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Uma nova 'Gota d'água'

separador Por Fernando Molica em 12 de junho de 2016 | Link | Comentários (0)

Não vi - era ainda adolescente - a montagem original de 'Gota d'água', de Chico Buarque e Paulo Pontes. Ontem, fui assitir á adaptação feita por Rafael Gomes e estrelada por Laila Garin e Alejandro Claveaux.

Pena que não se trata do texto original, mas vale muito a pena dar uma chegada no Teatro Net Rio. Pela beleza, força e indignação do texto construído em versos, pelas canções espetaculares, pelas ótimas sacadas de cenário e direção, pela voz da Laila.

Ao chegar em casa, procurei pelo texto original. Destaco esta fala da Joana, a protagonista, que foi mantida na nova montagem.


JOANA
Só que essa ansiedade que você diz
não é coisa minha, não, é do infeliz
do teu povo, ele sim, que vive aos trancos,
pendurado na quina dos barrancos
Seu povo é que é urgente, força cega,
coração aos pulos, ele carrega
um vulcão amarrado pelo umbigo
Ele então não tem tempo, nem amigo,
nem futuro, que uma simples piada
pode dar em risada ou punhalada
Como a mesma garrafa de cachaça
acaba em carnaval ou desgraça
É seu povo que vive de repente
porque não sabe o que vem pela frente
Então ele costura a fantasia
e sai, fazendo fé na loteria,
se apinhando e se esgoelando no estádio,
bebendo no gargalo, pondo o rádio,
sua própria tragédia, a todo volume,
morrendo por amor e por ciúme,
matando por um maço de cigarro
e se atirando debaixo de carro


A tesoura da minha editora alemã

separador Por Fernando Molica em 11 de junho de 2016 | Link | Comentários (0)

Trago pra cá, com alguns acréscimos, o comentário que fiz num post do Carlos Andreazza, meu editor na Record, sobre a reportagem do Guilherme Freitas sobre o Gordon Lish, um editor que não vacilava em cortar e reescrever textos dos autores que publicava.

A discussão é muito boa, a interferência num texto de ficção é sempre delicada (o próprio Lish, diz a reportagem, chorou quando seu editor apontou problemas em seu primeiro romance). Quando o 'Notícias do Mirandão' estava para sair na Alemanha, os editores, Hanna Mittelstädt e Lutz Schulenburg (da Nautilus), vieram ao Rio, tratei de recepcioná-los. Num restaurante da Feira de São Cristóvão, a Hanna sacou da bolsa um print do livro e, entre cervejas e pedaços de carne de sol, alegou que seria melhor inverter a ordem de alguns capítulos iniciais.

Não sugeriu qualquer mudança no texto, apenas na ordem. Olhei, pensei, e concordei. Acabei propondo uma nova combinação de capítulos, uma sequência que considero melhor que a original. Uns dois ou três anos depois, a Hanna, após ter assinado o contrato de publicação do 'Bandeira negra, amor', queria suprimir alguns (mais do que alguns) trechos do livro.

Não gostei muito da ideia, mas topei analisar o pedido. O problema é que as alterações mudariam a pegada do livro, que seria transformado num romance policial. Nada contra os policiais, muito pelo contrário, mas não era essa a proposta, achei que, ao fazer isso, eu apresentaria ao leitor um livro meio falso, diferente daquele que havia sido publicado no Brasil - eu havia resolvido o crime tratado no romance uns quatro ou cinco capítulos antes do fim para reforçar que não se tratava de uma narrativa policial.

Bem, recusei a proposta, a Hanna desistiu do livro - fiquei triste, mas nem um pouco irritado com a editora, que cumprira seu papel - gostei muito de poder conversar sobre o que escrevera. Anos depois, o 'Bandeira' sairia em e-book por uma outra editora na Alemanha e, agora, deverá ser publicado em papel. (O engraçado é que fui rever agora a capa da edição do 'Bandeira' alemão - apesar dos meus cuidados, o livro acabou sendo classificado como ''kriminalroman", ou seja, romance policial.)

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A maior tragédia

separador Por Fernando Molica em 08 de junho de 2016 | Link | Comentários (0)

Claro que é fundamental apurar se PMs assassinaram um menino de 10 anos que, com um colega de 11 anos, havia furtado um automóvel em São Paulo. Mas o fato não deixará de ser terrível e sintomático do buraco em que vivemos mesmo se a versão dos PMs estiver correta, se o garoto morto tiver disparado contra eles.

Não dá para achar normal que duas crianças furtem carros. Uma sociedade que não se espanta com isso mostra que também sucumbiu à brutalidade, à insensibilidade. É absurdo demais ouvir comentários que reduzem o fato a questões individuais, a uma suposta "índole" dos dois garotos.

Vontade de vomitar sobre o pensamento simplista que busca nos chavões ("Fruta não cai longe de árvore", "Pau que nasce torto morre torto") explicação para um sintoma evidente de que falhamos na tentativa de construir uma sociedade decente - se é que, algum dia, tentamos mesmo fazer um país menos canalha.

Estou entre os que acreditam no contrário, que (por falar em árvores) colhemos os frutos da nossa aposta numa sociedade que se orgulha de suas raízes escravocratas, que cultiva a exclusão. Deu no que deu.

A biografia do menino morto é mais do que suficiente para explicar o que houve. Filho de pais que acabaram na cadeia, foi abandonado desde sempre, viu-se expelido da escola - nosso sistema educacional foi criado para atender filhos de famílias de comerciais de margarina -, dormiu nas ruas e numa van. Jogado no mundo, não foi acolhido por tantas e tantas instituições que deveriam ter cuidado dele.

Já dá pra ouvir os gritos daqueles que dizem que também foram pobres, que também passaram fome, que não conseguiram estudar, que não conheceram os pais e que, mesmo assim, não se bandearam para o crime. OK, sinceros parabéns pra vocês, pessoas lutadoras, que conseguiram driblar tantas dificuldades. Mas, desculpem-me, nem todos são assim tão bons.

A quantidade de crianças e jovens envolvida com o crime é tão grande que não é razoável atribuir o fenômeno a questões individuais e/ou genéticas, não dá pra achar que muitos de nós, brasileiros, temos uma espécie de defeito de origem, que somos ruins, que sofremos de algum desvio hereditário de caráter.

A edição de ontem da 'Folha de S.Paulo' registrou, no pé de uma reportagem, que uma associação de moradores da região em que houve a morte do menino prepara um ato de solidariedade aos PMs envolvidos no caso. Para essas pessoas, não importa se um dos policiais assassinou o garoto ou se reagiu a uma agressão - o importante é que um bandidinho foi morto.

Cidadãos falam esses absurdos como se não tivessem a menor responsabilidade por nossas tantas tragédias. Pior, mostram que continuam dispostos a incentivar a perpetuação de nossas escandalosas desigualdades e a estimular a formação de mais meninos envolvidos com o crime e de mais policiais assassinos.


A tocha vestiu gibão

separador Por Fernando Molica em 07 de junho de 2016 | Link | Comentários (0)

A nossa interminável crise política, a sucessão de más notícias, o nojo causado por tantas demonstrações explícitas de canalhice e, mesmo, a saudade do país (fiquei dez dias fora) devem ter colaborado para a emoção que senti ao ver o vídeo que mostra a homenagem a Luiz Gonzaga feita durante a passagem da tocha olímpica por Caruaru.

Ao puxar o coro de 'A vida do viajante' (Luiz Gonzaga e Hervê Cordovil), a comitiva que seguia o condutor da tocha deu uma espécie de visto de entrada a um dos símbolos olímpicos. Fez como a multidão que, lá se vão algumas décadas, no fim da ditadura, voltou a se apropriar da bandeira nacional, identificada, ao longo de muitos anos, com os militares golpistas.

Marcado pela caretice oficial e pelo oportunismo publicitário, o revezamento, enfim, ganhou o fogo da vida. Aquelas pessoas adotaram a tocha, deram-lhe voz: o direito de cantar, em primeira pessoa, a alegria que é andar por esse país, guardando recordações, passando por nossos tantos sertões. "Chuva e sol/ Poeira e carvão/ Longe de casa/ Sigo o roteiro / Mais uma estação."

A trilha sonora da tocha não veio do Comitê Organizador nem dos patrocinadores, surgiu da rua, uma homenagem também ao artista que tão bem contou nossas histórias, nossos dramas, nossas alegrias. Como Gonzaga fez num momento crucial de sua carreira, a tocha passou a usar gibão e chapéu de couro.


Nei Lopes e 'Uma selfie com Lenin'

separador Por Fernando Molica em 07 de junho de 2016 | Link | Comentários (0)

Sou um daqueles fãs de carteirinha do Nei Lopes, 'Samba do Irajá' está lá na minha lista de uma das dez melhores canções brasileiras. Sempre que ouço uma de suas músicas, lembro daquela frase sobre o Didi, criada, se não me engano, pelo Neném Prancha: joga aquilo tudo como quem chupa laranja.

Fingindo que não se esforça para escrever suas músicas, seus livros - de pesquisa e de ficção -, Nei é muito craque. Daí que fico muito feliz ao ler seus elogios a 'Uma selfie com Lenin', postados no seu blog -, o 'Meu lote'. Para ler, clique aqui.

Entre outros pontos, Nei diz que o livro é show de bola e que flui em ritmo de samba e tem o charme de blocos de Carnaval.

Que bom que você gostou, meu caro.


As bandeiras em Santiago

separador Por Fernando Molica em 03 de junho de 2016 | Link | Comentários (0)

Uma lição pessoal sobre impressões, conclusões apressadas e jornalismo. Outro dia, ao jantar num restaurante de Santiago de Compostela, vi uma bandeirinha brasileira ao lado de uma outra, azul e branca (estão, na foto, entre a luminária e o velho rádio). Concluí que seria uma referência ao Bebeto, que jogara no Deportivo La Coruña, time azul e branco (Santiago fica na província de Corunha).

Cheio de marra, comecei a discorrer sobre o craque, sobre sua passagem gloriosa pelo clube e ainda lembrei que ele se recusara a bater um pênalti decisivo, que daria ao La Coruña o título da Copa do Rei. Falei, falei, falei.

Mas, depois, resolvi apurar, e perguntei ao garçom se minha tese era correta. Tava tudo errado. A bandeira não era do La Coruña, time que, segundo ele, sequer é popular em Santiago. E a bandeira do Brasil? "Sei lá, foi presente de um cliente, a colocamos ali", respondeu. Ou seja, com perdão do lugar pra lá de comum, aparências enganam, apurar é preciso.

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Antropólogos fazem ato contra Temer em Portugal

separador Por Fernando Molica em 03 de junho de 2016 | Link | Comentários (0)

Antropólogos brasileiros e portugueses fizeram, na tarde desta sexta-feira, no campus da Universidade de Coimbra, um ato contra o impeachment de Dilma Rousseff, classificado de "golpe".

Participantes do VI Congresso da Associação Portuguesa de Antropologia, os manifestantes se reuniram no Jardim Botânico da universidade logo depois de um debate - levaram cartazes manuscritos favoráveis à volta de Dilma e contra Michel Temer. Um dos cartazes classificava o presidente em exercício de "Temer, o breve".

Integrantes do grupo também protestaram contra a extinção do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, que foi incorporado ao de Comunicações.

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A casa do Zeca

separador Por Fernando Molica em 02 de junho de 2016 | Link | Comentários (2)

Ao caminhar em Coimbra, fui supreendido ao ver que, diante da Sé Velha, fica a casa onde morou José (Zeca) Afonso (1929-1987), compositor e intéprete de 'Grândola, vila morena'. Uma canção que eu, em 1974, aos 13 anos, em plena ditadura brasileira, soube que tinha sido usada como senha para o início da Revolução dos Cravos. Na época, eu estudava no Colégio Piedade, da Universidade Gama FIlho, instituição que daria emprego a Marcello Caetano, último primeiro-ministro do salazarismo.

Confesso que fiquei emocionado ao ver a casa - na véspera, ao jantar num restaurante na parte antiga da cidade, um dos clientes, um sujeito com uns 70 anos, começou a cantar a música que, há tantos anos, embalou a liberdade portuguesa. É preciso respeitar e reverenciar uma revolução que começa com uma música e que tem como símbolo uma flor. A festa, com todos os problemas, continua a ser bonita.

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Ato contra Temer na Universidade de Coimbra

separador Por Fernando Molica em 02 de junho de 2016 | Link | Comentários (0)

E tome problemas para Michel Temer na área internacional. Amanhã haverá um ato contra o impeachment de Dilma Rousseff - um "golpe", segundo os organizadores da manifestação - durante o VI Congresso da Associação Portuguesa de Antropologia, aberto na manhã desta quinta na Universidade de Coimbra.

Na cerimônia de abertura, Miriam Grossi, ex-presidente da Associação Brasileira de Antropologia, fez duras críticas ao novo governo. Professora da Universidade Federal de Santa Catarina, ressaltou o que classificou de riscos que a administração do presidente em exercício traz para as atividades de sua área de atuação.


O estupro cometido por 30, ou por 33

separador Por Fernando Molica em 26 de maio de 2016 | Link | Comentários (9)

Não vi, e nem quero ver, as cenas do estupro de uma jovem por 30 ou 33 sujeitos. Não preciso ver para me sentir também estuprado, para condenar os facínoras - que sejam presos, condenados. E ressalto, foram 30 - ou 33. Não foi um estuprador, não foram dois, ou três. Foram 30, ou 33. Três dezenas de homens que ficaram excitados, que sentiram tesão, que não pensaram na vítima, que não se sentiram culpados.

Foram - repito - três dezenas de homens que ficaram excitados diante da perspectiva de estuprar uma adolescente. Não houve ali ninguém que gritasse 'peraí, coitada da moça, melhor parar'. Todos achavam que faziam o certo.

Insisto que eles não devem ter perdão, que precisam ser condenados. E ressalto também que - longe de amenizar a culpa dos canalhas - é preciso pensar numa sociedade que produz três dezenas de homens que, reunidos, acham normal, e excitante, estuprar uma mulher.

Há quase dois anos, eu estava no Itaquerão, na abertura da Copa. E achei ouvir que o público mandava a Fifa - uma entidade, uma associação, uma pessoa jurídica - tomar no cu. Ei, Fifa, vai tomar no cu. Mas, não, eu ouvira errado, mandava-se a Dilma tomar no cu. Isto, numa expectativa de punição, de estupro, de violação. Eram mais de 60 mil pessoas que estimulavam o estupro de uma mulher, de uma sexagenária. Por acaso, ela era a presidente da República, mas isso não tem a menor importância. A violência era contra uma pessoa, contra uma mulher.

Nossa sociedade, moldada na escravidão, é violenta demais. Conseguiu associar a expressão "direitos humanos" a algo negativo, que precisa ser condenado - direitos humanos para humanos direitos, como tantos costumam vomitar. Uma sociedade que permite a violação das leis para que um inimigo seja punido, que delega à polícia o direito de matar alguém que seja visto como bandido. Uma sociedade que não respeita os diferentes, que só protege aqueles que considera iguais. Uma sociedade que, volta e meia, atribui à vítima a responsabilidade por um estupro.


Instituto de FHC foi beneficiado por lei que PSDB quer investigar

separador Por Fernando Molica em 26 de maio de 2016 | Link | Comentários (2)

O Instituto Fernando Henrique Cardoso arrecadou quase R$ 12 milhões com base na Lei Rouanet, mecanismo de incentivo fiscal que 25 deputados do PSDB querem investigar em uma CPI. As doações foram feitas entre 2005 e 2011, nos governos dos petistas Lula e Dilma Rousseff.

Parlamentares do partido de FHC foram os que mais colaboraram com assinaturas para a criação da Comissão Parlamentar de Inquérito proposta, ontem, por dois deputados do DEM e que já tem número de adesões suficientes para ser instalada.

Entre as empresas que fizeram doações estão o Itaú, a Ambev, a VBC Energia (do grupo Camargo Corrêa) e o Credit Suisse.

O instituto que leva o nome do ex-presidente tucano recebeu R$ 11,967 milhões de grandes empresas para dois projetos: Preservação, catalogação e digitalização do Acervo Presidente Fernando Henrique Cardoso e Tratamento técnico e difusão dos acervos Presidente Fernando Henrique Cardoso e Antropóloga Ruth Cardoso.

As prestações de contas dos dois projetos foram aprovadas pelo Ministério da Cultura em 2011 e 2015, no governo Dilma.

O Itaú foi o que mais colaborou com o IFHC: as doações de diferentes empresas do grupo (entre elas,a Dibens Leasing e a Provar Negócios de Varejo) somaram R$ 3,6 mihões - todo o valor poderia ser abatido do imposto de renda devido pelo conglomerado.

Outros grandes doadores foram a Ambev (o grupo colaborou com R$ 2,2 milhões) e a VBC Energia (R$ 1,7 milhão).

O Safra Leasing e a Embraer doaram R$ 1 milhão; o grupo financeiro Credit Suisse, R$ 600 mil; a Sabesp, empresa de economia mista ligada ao governo paulista, R$ 500 mil.

Em 1997, no governo de FHC, a Telebras - estatal que seria privatizada no ano seguinte - doou, também com base na Lei Rouanet, R$ 224.999,98 para a edição do livro 'Fernando Henrique Cardoso - História da Politíca Moderna no Brasil'.

A proposta de edição foi apresentada por Sonia Sabat Morgensztern e aprovada em 1996, no segundo ano do mandato do tucano na Presidência.

Os projetos e as doações estão disponíveis no site do Ministério da Cultura.


Eu e Cauby

separador Por Fernando Molica em 17 de maio de 2016 | Link | Comentários (0)

Foi em 1990. Artistas de alguma forma ligados à bossa nova se apresentariam no Scala num show em benefício do Lúcio Alves. No elenco, entre outros, Tom Jobim, Caetano, Os Cariocas, Leny Andrade e Cauby Peixoto.

Eu e outros colegas da sucursal Rio da 'Folha' compramos nossos ingressos. Pouco antes de sairmos, o editor da 'Ilustrada', acho que era o Mario Cesar Carvalho, ligou e pediu que, no dia seguinte, eu fizesse um texto para o jornal. Um texto, não uma reportagem.

Aceitei, mas deixei claro que eu estava indo como espectador, não como jornalista. Faria lá minhas anotações, mas iria me divertir, beber - tinha me planejado para isso, comprara o ingresso, caramba. O show foi lindo, emocionante. Até o uísque, que não era lá essas coisas (Passaport, se não me engano), desceu bem.

Mas talvez eu tenha exagerado um pouco. Lembro que, ao sairmos, já quase na rua, vimos o Cauby passar por nós. Confesso que, em homenagem ao cara - que interpretara 'Conceição' e 'People' -, puxei o coro de "Cauby! Cauby! Cauby". Espero que ele tenha ficado feliz.


O voto no Temer

separador Por Fernando Molica em 17 de maio de 2016 | Link | Comentários (3)

Cidadãos favoráveis ao impeachment provocam os que são contra: alegam que estes, quando votaram na Dilma, também elegeram o Temer, logo, não podem reclamar de nada. O argumento faz algum sentido, mas há outras questões a serem levadas em conta.

1. A entrega da vice a um outro partido implica em concessões, legítimas (no caso, um governo mais ao centro) e ilegítimas (aquelas que a gente conhece). Mas, em tese, a chapa estaria unida em torno de um proposta de governo - e, em 2014, havia projetos muito bem definidos, a eleição adquiriu no segundo turno um viés ideológico claro, algo que contribuiu para o acirramento de paixões e para a divisão do eleitorado.

Outro dia, consultei no site do TSE o programa de governo da chapa Dilma-Temer. É um negócio bem genérico, muito voltado para as realizações de governos petistas. Mas é uma referência, algo que, com o eventual afastamento da presidente, deveria ser seguida pelo vice. Mas o programa que ele apresentou em outubro passado, o Uma ponte para o futuro, não tem nada a ver com o que ele ratificou em 2014 (e que nem vinha sendo assim tão respeitado pela Dilma).

O Plano Temer, como era chamado pelo Moreira Franco, é até mais radicalmente liberal que o defendido pela chapa Aécio-Aloysio. Fala em desindexação do salário mínimo de inativos, em idade mínima para aposentadoria, no fim da vinculação constitucional de verbas para saúde e educação. Quem votou em Dilma-Temer em 2014 não ratificou o programa que o então vice apresentaria um ano depois.

2. Votar na chapa que unia PT e PMDB incluía a possibilidade de permitir que Temer chegasse ao poder (políticos também ficam doentes, podem morrer no exercício do mandato). Mas ninguém imaginaria que o vice fosse trabalhar abertamente pelo impeachment da titular. Não dava para prever que, dez meses depois da posse, ele apresentasse um programa de governo voltado não para 2018, mas para 2016, para ser aplicado após a derrubada da presidente. É como se, lá atrás, o PFL de Antonio Carlos Magalhães tivesse se aliado ao impeachment de FHC tentado pelo PT. Isto para fazer com que o vice, o pefelista Marco Maciel, virasse presidente. Tucanos arrancariam suas penas e bicariam sem dó os ex-aliados caso isso tivesse ocorrido.

3. A história não costuma ser simples - a nossa, então, é complicada demais. Eleitores da Dilma são obrigados a reconhecer que votaram também no Temer, mas têm o direito de dizer que não votaram neste Temer, mas naquele que compartilhou uma outra proposta de governo, que jurou fidelidade à companheira de chapa e que parecia conformado no papel de vice decorativo.


BG
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