Sambas, boemia e vagabundos
Nesta quarta, dia 10, a partir das 19h, o amigo Eduardo Carvalho lança Samba, boemia e vagabundos, livro que reúne crônicas que ele publicou no blog que ele mantém com o Gabriel Cavalcante. Sou suspeito: afinal, escrevi a orelha do livro. Um livro que é um pouco de (e sobre) todos nós, que gostamos de samba e que nos encontramos em tantas rodas pela cidade. Citados ou não nos textos, estamos todos lá: o Eduardo é um de nossos grandes tradutores. Ah, o lançamento será no Espaço Multifoco, na Mem de Sá, 126 - na Lapa, claro.
Os sambas de Mussa e Simas
Nesta quarta, dia 3, os amigos Alberto Mussa e Luiz Antonio Simas lançam Samba de enredo - história e arte (Civilização Brasileira), um grande levantamento sobre o gênero musical que tanto nos embala. Mussa é um escritor consagrado; professor de história, Simas é talvez o melhor blogueiro do Brasil. Um grande cronista, dono de um texto espetacular. O lançamento será a partir das 18h, no Al-Farabi, na Rua do Rosário, 30/32, no Centro.
Recesso e boas leituras
O blog entra em recesso por umas duas semanas, mas deixa dois lembretes - e dicas:
. Amanhã, dia de São Sebastião, haverá o lançamento de Canções do Rio (Casa da Palavra), livro organizado por Marcelo Moutinho e que traz ensaios de João Máximo, Sérgio Cabral, Nei Lopes, Ruy Castro, Hugo Sukman e Silvio Essinger. Todos tratam da relação entre o Rio e a música brasileira. A festa começa às 14h, com roda de samba e choro na ótima livraria Folha seca, na Rua do Ouvidor, 37.
. Está para chegar às livrarias Sambas de enredo - História e arte (Civilização Brasileira), de Alberto Mussa e Luiz Antonio Simas, um inventário sobre o gênero que há tantas décadas nos move durante (e depois) de cada Carnaval. Além de estudiosos, os dois são praticantes - no ano passado, chegaram à finalíssima da escolha de samba do Salgueiro.
A história não tem donos
Primeiro, uma correção: ao contrário do que foi dito na madrugada de hoje, no Jornal da Noite, da Band, as organizações armadas de esquerda não torturaram. Fizeram - não dá para deixar de reconhecer - algumas besteiras graves, cometeram crimes. Mas não torturaram, o que representa um importante divisor de águas e de histórias. O não uso da tortura permite que ex-militantes dessas organizações revelem sua participação, sua responsabilidade em sequestros, atentados, assaltos a bancos e execuções - estas, então apelidadas de "justiçamentos". Viabiliza até mesmo a autocrítica.
A vergonha gerada pelo flagelo imposto a pessoas indefesas impede que ex-carrascos se orgulhem do que fizeram. Mesmo anistiados, eles não dizem "Eu torturei". Não contam, não revelam, não assumem, sequer tentam se justificar. Sua defesa é feita por colegas de farda, advogados improvisados que não se constrangem de, com seu gesto, compremeterem as Forças Armadas, de manchá-las com a defesa da tortura. A responsabilidade de alguns passa a ser debitada na conta da instituição, a tortura acaba sendo incorporada, de forma acrítica, à história militar brasileira.
A peitada que os comandantes militares deram no seu chefe - o presidente da República - teria que ter sido punida. Ao aceitar a ameaça de demissão em bloco, o presidente Lula errou, não deixou clara a subordinação do poder militar ao poder civil, constituído pela sociedade. O poder civil não pode ser refém de qualquer outro poder.
Mas não tem jeito: formar uma comissão que apure crimes cometidos durante a ditadura é essencial, é o único jeito de zerarmos aquele jogo. Esqueletos precisam ser retirados do armário, minha vizinha de mais de 90 anos - sim, é uma adorável e lúcida senhora - merece saber o que foi feito do corpo de seu filho. O problema é que a possibilidade de punições pode impedir uma apuração detalhada. Passado tanto tempo, talvez seja mais razoável se fazer julgamentos históricos, não cíveis nem penais.
Não dá também para separar alguns dos crimes da esquerda dos cometidos pelo aparelho repressivo. Estes têm origem mais grave, ocorreram à sombra do Estado, em nome da sociedade. São, de cara, mais covardes. O agente que matava, que torturava, estava na ponta de uma cadeia que começava nos palácios e nos quartéis. Matava e torturava como representante do Estado.
Mas não é possível revelar apenas um lado da história. A apuração histórica vai permitir também reavaliar o papel das organizações da esquerda e, importante, eliminar alguns mitos que se transformaram em verdade. O mais grave: as organizações armadas também lutavam contra a ditadura militar, mas seu foco principal era outro. Elas queriam derrubar o capitalismo pela via revolucionária e implantar o socialismo, a tal da ditadura do proletariado. A democracia como hoje concebemos era desprezada, vista como "democracia burguesa" - sua restauração não era o objetivo da guerrilha.
Não é verdadeiro dizer que tentativas guerrilheiras e de rompimento institucional surgiram apenas depois do Golpe de 64. Animadas pelos ventos cubanos, algumas organizações - Polop, MRT, PCdoB - pregavam e articulavam a revolução antes da derrubada de Jango. Isso fica evidente em livros de autores insuspeitos, como Jacob Gorender (Combate nas trevas).
Da mesma forma, é mentira afirmar que o AI-5, baixado no fim de 1968, foi o único reponsável pela radicalização da esquerda. Ao longo daquele ano ocorreram várias ações ditas revolucionárias, como a invasão de um Hospital Militar em São Paulo (e a posterior explosão de um carro-bomba na sede do então 2º Exército - este atentado matou um soldado, Mário Kozel Filho). Nem todas as vítimas de ações da esquerda ocorreram em trocas de tiros, houve vários "justiçamentos", alguns de militantes das próprias organizações, como no caso de Márcio Leite de Toledo, assassinado por um comando da ALN.
Enfim, a tal comissão é necessária, fundamental. Será dolorosa para torturadores, para políticos hoje travestidos de democratas e mesmo para integrantes de organizações armadas de esquerda. Mas é preciso chegar o mais perto possível da verdade histórica. A questão mais importante é que, ao contrário do que vem ocorrendo, a discussão sobre as investigações sobre esse passado recente não deve se guiar pelo interesse dos antigos antagonistas. A apuração não é importante apenas para repressores e reprimidos, é necessária para a sociedade, para que erros e crimes cometidos há algumas décadas não voltem a nos assombrar. Essa história não tem donos, é de todos nós, pertence à sociedade brasileira.
Loco pelo Botafogo
![]()
Sei que ainda está meio cedo, o contrato do Botafogo com o Sebastián 'El Loco' Abreu nem foi assinado. Mas o cara e a diretoria do clube dão como certa a contratação, um furaço da Amanda Kestelman, de "O Dia". Assim, fui dar uma busca sobre o Loco. Gostei. O sujeito tem um site, é marrento e tem até uma música composta em sua homenagem, La Cumbia del Loco.
Ah, é autor de algumas frases intessantes: "...la receta para ganarlos es 70% fútbol y 30% huevos"; "...sólo con un balazo me sacan de un clásico". Bem, depois de tanto tempo de tristeza, de timidez e - mesmo - de medo de ganhar, não deixa de ser interessante contratar um sujeito assim. Aqui, alguns gols do Loco.
Os meninos da árvore
Quem, de um modo geral, se queixa da árvore de Natal da Lagoa não reclama da árvore. Até pode fazer comentários sobre a dita cuja, realçar seu anacronismo, seu caráter um tanto quanto kitsch. A maioria finge se importar com o aumento no trânsito, com o estacionamento ilegal. Mas, no fundo, o que lhes incomoda não está dentro da Lagoa nem em suas pistas destinadas a carros, ônibus e motos. O calo que lhes irrita e ofende é o povo que se aglomera para ver a árvore.
Se não atraísse tanta gente do além-túnel, a árvore seria quase ignorada, passaria assim batida, como há até bem pouco tempo eram tolerados o frescobol e o altinho à beira-mar, como ainda é admissível o baseado que rola na areia. Frescobol, altinho e baseado seriam, digamos assim, coisas nossas, práticas consagradas pelos que vivem do lado de cá do túnel. Yes, we can. Mas só we que can. A praia é nossa, assim como a Lagoa.
A curiosa - e bela - geografia do Rio facilitou a segregação. Há um acúmulo de beleza (e de riqueza) do lado de cá. A pequena Zona Sul é um dos melhores lugares do mundo para se viver. Outras grandes cidades do mundo têm áreas nobres espalhadas; as nossas, graças à proximidade do mar, acabaram concentradas. Num processo agravado nas últimas décadas, a Zona Sul virou sinônimo de Rio; pelo menos, do Rio desejado, que exporta gostos, modas e costumes. Nem a produção literária escapou disso - de um modo geral, a perspectiva é a de quem mora do lado de cá (mesmo que o livro trate de favelas, pobres, subúrbios e que tais).
Lembro que, menino de Piedade, gostava de passear pela Zona Sul, volta e meia pedia a meu pai que desviasse o caminho e passasse por Copacabana, Ipanema e Leblon. Naquela época, o subúrbio era mais bonito e tranquilo, menos degradado e violento. Mas, mesmo assim, gostava de ver aquele Rio diferente, mais iluminado. Um Rio que tinha praia, que olhava de perto para o Cristo e para o Pão de Acúcar.
Se, na minha infância, houvesse a árvore na Lagoa, insistiria com meus pais para levar-me até ela. Iria querer participar da festa, compartilhar daquele Rio que saia bem na foto dos jornais. Às margens da Lagoa, comeria pipoca e algodão doce, tomaria mate, tiraria fotos, me encontraria com algum colega de escola - quem sabe, com aquela menina que tanto desejava. Sonharia com uma foto de nós dois abraçados, tendo a árvore como fundo. Foto que, tímido, nunca ousaria pedir.
Nas margens da Lagoa de hoje, vejo muitos meninos como fui. Meninos que vieram de Piedade, do Engenho de Dentro, de Quintino, de Realengo. Eles acreditam que a cidade também é deles, que o Rio não é apenas dos que são louros, têm pele mais clara e muito, muito mais dinheiro. Meninos que, de tão felizes com a árvore, com a pipoca, com o algodão doce, com o mate e com o sonho da menina amada, não notam que às suas costas, do alto dos prédios, muita gente reclama de sua presença, ironiza seus hábitos, suas fotos, seu entusiasmo, suas roupas, seus gritos e, mesmo, sua cor. Pessoas que defendem o banimento da árvore, seu exílio no Piscinão de Ramos. Para elas, apenas os locais podem parar seus carros sobre as calçadas da Zona Sul.
Os meninos - ainda bem - ignoram, mas eles não são tolerados por quem acha que a Lagoa, as praias, o Cristo refletido nas águas pertencem a poucos, paisagens hereditárias, excludentes. Pessoas preconceituosas e bobas: não sabem como a presença daqueles meninos e meninas humaniza o Rio,o torna mais afável, tolerante. Acreditam - tolinhos - ser possível construir uma cidade com base na separação, não conseguem ver o quanto isso já nos custou. O Rio se fez diferente porque soube conviver com a diferença; por ser porto e capital, aprendeu a trocar com estrangeiros, com gente de outros estados. O branco Noel subiu o morro; o preto Carlola foi para o asfalto. Num botequim simbólico, eles se encontraram a criaram a música brasileira. Isso vale para Nazareth, Pixinguinha, Chico Buarque, Villa-Lobos, Nelson Cavaquinho.
Os meninos que atravessam o túnel para ver a árvore não sabem, mas a presença deles por aqui - escrevo, fazer o quê?, do ponto de vista de quem agora mora do lado de cá - faz o Rio respirar; renova a cidade, reforça a necessidade de convivência e tolerância, faz com que, como dizia Cazuza, olhemos a nossa própria cara. Que sejam bem-vindos.
Não vale acabar com o Jobson
Claro que o Jobson, mais uma vez, fez bobagem. Não dá para um atleta profissional cheirar cocaína, priincipalmente, às vésperas de jogos importantes. Ele agiu de forma irresponsável.
Mas é absurda essa ideia de banir o sujeito do futebol. Há no caso uma questão fundamental: o Jobson não se dopou, ele se drogou. Isso é bem diferente. Cheirou pó da mesma forma que poderia ter enchido os cornos (dizem que ele é bom nisso também), fumado uns dez baseados, tomado um ácido. Ou poderia ter feito tudo ao mesmo tempo, sei lá. Mas nada disso o ajudaria em campo, melhoraria sua performance. Ao contrário: pó, maconha, birita e ácido só prejudicam o desempenho de um atleta.
O caso do Jobson é bem diferente daqueles de atletas que tomam bagulhos para aumentar a musculatura, emagrecer ou dar um gás em seu rendimento. O então atacante do Botafogo apenas agiu de forma irresponsável ao consumir uma droga proibida. Se tivesse bebido até cair uns dois dias antes dos jogos, nada de grave iria lhe acontecer, ele não correria o risco de ser punido.
Há um certo consenso entre os dirigentes esportivos e jornalistas: atletas têm que ser exemplos, não podem fazer besteira, têm que ser melhor do que somos. É como se não pudessem ser humanos. O álcool é, de longe, a droga mais consumida no país e a que mais gera problemas de saúde - uma pesquisa publicada hoje mostra que 70% dos jovens brasileiros já beberam. Mas, como é legalizado, tudo bem, pode. Pó, maconha e que tais não podem. Ok, são proibidas e isso deve ser respeitado. Mas, caramba, não se pode impedir um sujeito de 21 anos de exercer sua profissão. A menos, claro, que se queira afundá-lo de vez.
Muita gente usa drogas ilegais - médicos, cineastas, jornalistas, atores, escritores, cantores, corretores de seguro, motoristas de ônibus, empresários, políticos. E nenhum deles é impedido de exercer sua profissão (a menos, claro, que se droguem durante o expediente ou cometam uma sucessão de besteiras). Não faz assim tanto tempo, um famoso ator foi preso quando ia comprar drogas, acabou internado. Ninguém o crucificou - ao contrário, foi abraçado por colegas de profissão, pela empresa em que trabalha e, mesmo, pelos jornais e revistas. Foi tratado como vítima, não como criminoso. Sobre ele não são despejadas manifestações de preconceito quanto as que ameçam afogar o Jobson.
Entre os pecados cometidos no mundo do futebol, o do Jobson é dos menores. Ele não apitou pênalti inexistente, não recebeu comissão para construir estádios ou viabilizar patrocínios, não embolsou dinheiro em transações de jogadores, não surrupiou renda de jogo beneficente, não recebeu ingresso gratuito para torcer por seu time, não provocou brigas, não matou ninguém. A cocaína, insisto, sequer teria como fazê-lo jogar melhor. Jobson cometeu uma irresponsabilidade que prejudicou apenas uma pessoa, ele mesmo.
O que deve ser feito? Não sei. Talvez um gancho, uma suspensão. É preciso ter um mínimo de responsabilidade em qualquer profissão, o Jobson tem que aprender isso. Mas sei que não se pode acabar com a vida de um jovem que, como tantos outros, fez algumas bobagens. Burrices que - não custa ser redundante - não machucaram ninguém
Cariocas na Argentina
Nesta sexta, dia 18, o escritor argentino Federico Lavezzo lançará, em Rosário, a coletânea de contos 10 cariocas (Ferreyra Editor). Estou entre os autores, ao lado de Marcelo Moutinho, Cecilia Gianetti, Ana Paula Maia, Paulo Henriques Brito, Bráulio Tavares, João Paulo Cuenca, Leandro Salgueirinho, Manoela Sawitzki e Sérgio Sant'Anna.
Como alguém já teve ter notado, nem todos os autores nasceram no Rio, o Bráulio Tavares, por exemplo, veio da Paraíba, a Manoela é gauchíssima. Lavezzo acabou utilizando uma lógica há muito consagrada aqui no Rio - carioca é quem vive por aqui; os que adotam a cidade e por ela são adotados. No processo de organização, o Lavezzo - morador de Copacabana - apenas pediu que os os contos fizessem alguma referência à cidade. Como a edição é bilíngue, é possível que chegue por aqui.
Livros, abismos e o canto do ringue
O ponto da partida foi mais cedo para o chuveiro. Após ganhar de Acenos e afagos, de João Gilberto Noll, acabou derrotado por Flores azuis, de Carola Saavedra, nas quartas de final da Copa de Literatura Brasileira. O jogo foi decidido por Leandro de Oliveira.
Nada a reclamar, claro: como já ressaltei aqui, o mais importante da Copa é a oportunidade de se discutir a produção literária. Para fazer isso, o torneio brinca com a possibilidade de enfrentamento entre romances. Este quase paradoxo - livros não são escritos para participar de disputas - dá gás e areja esse pequeno universo. No caso específico, o Leandro foi equilibrado, ressaltou qualidades nas duas obras e fez uma escolha baseada em suas próprias expectativas como leitor. E é bom que tenha julgado na condição de leitor, livros existem para serem lidos.
Aproveito o embalo para levantar um tema que considero fundamental. A relação - ou melhor, a inexistência de uma relação - do público com a produção literária contemporânea brasileira. De um modo geral, não somos lidos por muita gente, é só conferir as listas de mais vendidos. Disse no outro parágrafo que livros existem para serem lidos. Deveria ser assim. Na prática, sofremos todos com uma incômoda ausência de leitores. Exceções como os livros de Chico Buarque não contam - o ótimo Budapeste vendeu muito porque nasceu assinado por um nome que é referência de qualidade para boa parte da população. Como diria nosso presidente, Chico não faz merda. Dá pra comprar sem muito risco.
Talvez estejamos todos - autores, editores, críticos - fascinados por uma festa em que somos os únicos convidados. Melhor, uma festa que só tem melhorado: os encontros literários se multiplicam, ganham visibilidade, charme e, volta e meia, rendem um cachê. Mas, como diz o Marçal Aquino, não saímos da nossa confraria, nos consumimos, nos frequentamos, nos elogiamos - nem brigar temos brigado. Nossa produção pouco circula fora do universo do leitor profissional. Não dá para achar que isso é normal, que podemos abrir mão do diálogo com leitores comuns, não ligados ao mercado editorial.
Não chego ao radicalismo dos que veem numa certa busca da inovação pela inovação a responsabilidade por esse não-encanto do leitor. Para eles, o jogo literário teria assim se transformado numa brincadeira auto-referente. Algo para iniciados, que excluiria os que estivessem de fora do baile. Mas este argumento radical não deve ser descartado, é bom trazê-lo para a discussão.
O problema é que a inanição do público também afeta autores que, em tese, poderiam ser mais populares. Nem dá para se falar numa conspiração formalista - ainda que o aspecto da suposta inovação seja volta e meia alardeado como fundamental para se definir a qualidade de um livro. Não é difícil encontrar resenhas que insistem em enfatizar, de uma maneira mais elaborada e sofisticada, a separação entre forma e conteúdo: aquela costuma ser apontada como mais relevante do que este. Tenho dificuldades para separar uma boa história de um bom jeito de narrá-la - um quesito depende do outro.
Tendo também a desconfiar desta busca pela suposta novidade. Antes de ser escritor, sou um leitor; um leitor desorganizado e não-sistemático, meus gostos são muito variados e não-enquadráveis - não consigo dizer que um livro é bom porque inova ou que é ruim pelo mesmo motivo. Um livro é bom porque se impôs, despertou meu interesse, me fez ter vontade de retomar logo a leitura. Não dá para medir a qualidade de um improviso pelo tempo em que o saxofonista ficou sem respirar. Machado de Assis morreu há cem anos, mas continua jovem, inovador. Ao mesmo tempo, há novidades que nascem caquéticas.
Talvez por isso - o critério é mais do leitor do que do escritor - me assusto pela busca literária do equivalente a um duplo twist carpado (ou esticado, ou com mortal na segunda pirueta). Na literatura, o tamanho do salto e seu índice de dificuldade não podem ser usados como referências finais de qualidade - até porque, na vida e nos livros, quedas costumam ser muito mais interessantes que as vitórias. Temo que uma eventual hegemonia desses critérios leve a literatura a um impasse como o que, de certa forma, empurrou as artes plásticas para o canto do ringue. A menos que, a exemplo do personagem de Cordilheiras, do Galera, estejamos todos fascinados pelo abismo.
Claro que nenhuma opção pode ser condenada de cara - ainda mais num momento que nem mesmo o livro em si, o próprio objeto, capas e miolo, se vê ameaçado por suas versões eletrônicas. Repito: não quero ser excludente nem separar e qualificar livros por suas características mais ou menos formais. Como dizem os bicheiros, vale o escrito, o publicado.
Admito, claro, que na literatura, não dá para associar qualidade a um bom desempenho de vendas. Mas não podemos cair no oposto: passarmos a considerar como bom o livro que não vende, que não é lido. Ter uma boa história não é sempre garantia de qualidade de um livro; assim como a ausência de um enredo mais palpável não deve ser vista como sinônimo de excelência. Talvez seja preciso um pouco menos de arrogância, de predisposições contra e a favor. O livro tem que valer pelo que é, pelo impacto que nos causa. Tanto melhor se essa experiência vier a ser compartilhada por muitas pessoas - não nos orgulhemos da exclusão deliberada. As melhores saídas não podem ser o desejo do canto do ringue ou o fascínio pelo pulo no abismo.
O Glorioso com seu segundo uniforme - edição revista
No dia do aniversário do Botafogo de Futebol e Regatas, exponho uma foto que traduz muito do nosso orgulho. Essa seleção brasileira é formada por 8 - oito! - jogadores do Botafogo (na primeira versão deste texto, disse que eram dez os alvinegros. Uma consulta ao Google mostrou que eram oito. O primeiro que está agachado não é o Rogério, mas o Nado, um jogador do Vasco). Além do Nado e do Brito (também do Vasco - em 71 foi para o Botafogo), apenas Félix, goleiro tricolor, não jogava no Alvinegro. O jogo foi no dia 7 de agosto de 1968, um amistoso contra a Argentina, no Maracanã. Sapecamos nos caras uma goleada de 4 x 1. Todos os gols foram alvinegros - Valtencir, Roberto, Jairzinho e Paulo César (este último foi marcado depois de um olé de 53 passes).
Por algumas poucas vezes, a então CBD driblava rivalidades regionais e a trabalheira de convocar a seleção. Assim, transferia para um time ou combinado a tarefa de honrar a amarelinha. No caso, a responsabilidade coube a uma seleção carioca; na prática, ao Botafogo. O técnico era o Zagallo que, bicampeão pelo Fogão, usou a base do time para armar o, como se dizia na época, escrete. Tudo a ver: o clube, afinal, mandou para a seleção jogadores como Garrincha, Nilton Santos, Didi, Amarildo, Jairzinho, Paulo Cesar, Roberto, Marinho, o próprio Zagallo. É, até hoje, o time que mais cedeu jogadores para a Seleção Brasileira.
O importante é que não fiquemos no saudosismo. A foto no blog deve servir de inspiração, de compromisso de mudança. Não podemos nos conformar com a mediocridade, com a sina do risco do rebaixamento. Isso não é compatível com o Botafogo nem com o futebol brasileiro.
Em tempo: o Botafogo Football Club nasceu, em 1904, no Largo dos Leões, aqui pertinho de casa, numa reunião de garotos. Surgiu a partir do sonho de uns meninos que queriam jogar bola. A fusão com o Club de Regatas Botafogo (criado em 1894) ganhou força com uma tragédia. Em junho de 1942, num jogo de basquete entre o time do Football e o de Regatas, um jogador do primeiro, Armando Albano, foi vítima de uma síncope e morreu na quadra. A dor cimentou a união dos dois clubes, sacramentada em 8 de dezembro, dia de Nossa Senhora da Conceição, nosso dia da Criação.
Ah, para não esquecer: o time aí de cima é formado por Moreira, Félix, Brito, Leônidas, Carlos Roberto e Valtencir; Nado, Gérson, Roberto, Jairzinho e Paulo César. Os quatro últimos (além do Brito) estiveram na Copa de 70. Rogério, que não participou deste jogo, chegou a ser convocado para o Mundial do México, mas foi cortado por contusão.
Mais detalhes sobre este jogo em:
http://200.159.15.35/brasilnacopa/ler_historia.aspx?c=4775
http://blog.arquibabotafogo.com/2008/08/07/a-noite-em-que-o-botafogo-se-vestiu-se-selecao/
http://www.ebfnet.com.br/port/ate_voce/entrevistas_detalhe.php?codigo=13&tipo=Artigo
Hexa com asterisco
Em meio às comemorações pela vitória do Flamengo, vale lembrar: de acordo com o site da entidade que organiza o campeonato brasileiro, a CBF, o time da Gávea conquistou, neste domingo, seu quinto título brasileiro - o que, vale ressaltar, é um grande mérito. O campeonato de 1987 (um dos contabilizados pelo Flamengo para formar o hexa) foi, segundo a CBF, conquistado pelo Sport Recife. É por isso que, volta e meia, jornais publicam um asterisco ao lado do título que o Flamengo sustenta ter conquistado. Um asterisco que remete para uma explicação sobre o caso.
A história é meio complicada: em 1987, em meio ao caos do nosso futebol (o campeonato brasileiro anterior teve 80 times!), grandes clubes, ancorados em bons patrocinadores (Varig, Rede Globo e Coca-Cola), escantearam a CBF, fundaram o Clube dos 13 e decidiram fazer sua própria competição, a Copa União, que teria 16 participantes. Do torneio fizeram parte alguns dos mais importantes clubes brasileiros, todos convidados pelo Clube dos 13.
A tal Copa já começou de forma errada: seus organizadores, de olho na rentabilidade da competição, deixaram de fora times na época importantes, como o Guarani, vice do Campeonato Brasileiro de 1986, e o América do Rio, quarto colocado naquela mesma disputa. O problema é que eles tinham poucos torcedores. Ou seja, a Copa União não pode ser chamada de primeira divisão do campeonato brasileiro: dois dos principais times de então ficaram de fora (no lugar deles entraram Goiás, Coritiba e Santa Cruz, clubes populares que atrairiam mais público e audiência).
Os times que ficaram de fora reclamaram. Depois de definido o regulamento da tal Copa, a CBF entrou em campo e resolveu tentar ajeitar aquela história, até porque a rebelião dos clubes poderia trazer problemas com a Fifa. A solução encontrada foi meio esquisita: a entidade incorporou a Copa União a um novo campeonato, dividido em quatro módulos: Verde (a própria Copa União), Amarelo, Azul e Branco. O campeão sairia do cruzamento entre os dois primeiros colocados do Verde e dois primeiros do Amarelo. O Clube dos 13, que apoiara a tentativa de conciliação, chiou com a história do cruzamento - mas bola rolou: no dia 11/9/87, Palmeiras e Cruzeiro disputaram o primeiro jogo da Copa União/Módulo Verde; dois dias depois, começou o Módulo Amarelo. Ah, a bola não rolou para todos: revoltado por ter ficado de fora da Copa União,o América resolveu não disputar o Módulo Amarelo.
No fim das contas, na hora do cruzamento final, Flamengo e Internacional (vencedores do Verde) bateram pé e não participaram dos jogos contra Sport e Guarani (os mais bem colocados do Amarelo). As partidas foram marcadas, mas jogadores de Flamengo e Inter não apareceram para jogar - os times perderam por WO. As imagens dos estádios vazios são patéticas. Gostaria de revê-las.
Resultado: Sport campeão brasileiro; Guarani, vice. É o que aparece no site da CBF (ver lista abaixo), apesar das reclamações do rubro-negro carioca. Um troféu de bolinhas para quem descobrir quem foram os representantes brasileiros na Libertadores de 1988 (na época, eram dois os times escalados): claro, Sport e Guarani.
Há justiça na decisão da CBF? Não sei, o Flamengo e o Inter eram melhores que Sport e Guarani, ganhar o Módulo Verde certamente foi complicado. Os times da Copa União eram, de um modo geral, bem mais fortes que os do Módulo Amarelo.Mas, insisto, a exclusão de Guarani e América do torneio representou um pecado original, que descaracterizou a tal primeira divisão. Talvez tivesse sido melhor que Flamengo e Inter tivessem entrado em campo e disputado o tal cruzamento. A CBF, afinal, é tão boa ou tão ruim quanto os clubes e seus dirigentes. Não há anjos nesta história.
A solução para o problema não é simples: a eventual divisão do título entre Flamengo e Sport equalizaria os módulos Verde e Amarelo, ambos passariam a ter o mesmo peso, o que consagraria a solução criada, na época, pela CBF. Neste caso, teria sido melhor fazer mesmo o cruzamento. Também seria injusto cassar o título do Sport, que cumpriu as regras da CBF. É provável que o Flamengo - que tinha um belo time, com Zico, Andrade, Leonardo, Leandro - tivesse vencido os confrontos. Isso o teria livrado daquele asterisco que, até hoje, para a alegria dos não-rubro-negros, relativiza a conquista de 1987.
CAMPEÕES
2008 - São Paulo (São Paulo)
2007 - São Paulo (São Paulo)
2006 - São Paulo (São Paulo)
2005 - Corinthians (São Paulo)
2004 - Santos (São Paulo)
2003 - Cruzeiro (Minas Gerais)
2002 - Santos Futebol Clube (São Paulo)
2001 - Atlético Paranaense (Paraná)
2000 - COPA JOÃO HAVELANGE - Vasco da Gama (Rio de Janeiro)
1999 - Corinthians (São Paulo)
1998 - Corinthians (São Paulo)
1997 - Vasco da Gama (Rio de Janeiro)
1996 - Grêmio (Rio Grande do Sul)
1995 - Botafogo (Rio de Janeiro)
1994 - Palmeiras (São Paulo)
1993 - Palmeiras (São Paulo)
1992 - Flamengo (Rio de Janeiro)
1991 - São Paulo (São Paulo)
1990 - Corinthians (São Paulo)
1989 - Vasco da Gama (Rio de Janeiro)
1988 - Bahia (Salvador)
1987 - COPA UNIÃO - Sport Recife (Pernambuco)
1986 - São Paulo (São Paulo)
1985 - Coritiba (Paraná)
1984 - Fluminense (Rio de Janeiro)
1983 - Flamengo (Rio de Janeiro)
1982 - Flamengo (Rio de Janeiro)
1981 - Grêmio (Rio Grande do Sul)
1980 - Flamengo (Rio de Janeiro)
1979 - Internacional (Rio Grande do Sul)
1978 - Guarani (Campinas)
1977 - São Paulo(São Paulo)
1976 - Internacional (Rio Grande do Sul)
1975 - Internacional (Rio Grande do Sul)
1974 - Vasco da Gama (Rio de Janeiro)
1973 - Palmeiras (São Paulo)
1972 - Palmeiras (São Paulo)
1971 - Atlético Mineiro (Minas Gerais)
Nelson Cavaquinho e os rubro-negros
Diante da possibilidade de o Flamengo conquistar o campeonato brasileiro, reproduzo trecho de O ponto da partida em que Ricardo Menezes, o protagonista, critica a obsessão rubro-negra por vitórias; a compara com a lógica de vida de seu ídolo maior, Nelson Cavaquinho. O livro não diz, mas acho que o Menezes é torcedor do Bangu - isso ajudaria compor sua visão crítica e desencantada do mundo.
"Parece bobo dizer isso. No fundo, é mesmo. Meio chavão, lugar-comum, brega. Se fosse um texto, eu vetaria, não publicaria de jeito nenhum. Mas isso aqui é conversa de
bar, não é jornal, não é livro, posso falar o que quiser. Preste atenção. Nelson Cavaquinho, ele, os sambas que ele compôs, abrem e fecham capítulos da minha vida. Não faça essa cara, sei que a frase não é das melhores. Mas é assim mesmo. Tem a ver com Nelson, com as músicas dele. Vocês, rubro-negros, não entendem isso. Ficam naquela tentativa idiota de vencer, vencer, vencer. Coisa chata, previsível, sem graça, parece time de vôlei do Bernardinho, o escritório daquela minha ex. Pior é que volta e meia acabam perdendo, ficam frustrados porque não venceram, venceram, venceram.
A vida não é assim, na vida a gente se fode mais do que vence. No Campeonato Brasileiro, por exemplo: são quantos times? vinte? vinte e quatro? Pois é, se são vinte,
são sempre dezenove contra um. No fim, um ganha e dezenove perdem. O número de perdedores é sempre maior. É claro também que o um, o vencedor, vai, ao longo dos anos, perder mais do que ganhar. Pode vencer campeonato, ser vice, conquistar aquela taça com nome de carro que vocês ganharam no Japão. Pode ser bi, tri, tetra. Mas, no fim das contas, vai sempre estar no prejuízo. O número de títulos perdidos vai ser sempre maior do que o de títulos ganhos. É matemático, científico, irrecorrível. Aí vocês ficam elogiando esses merdas desses artistas que querem vencer, vencer,
vencer. Que morrem de medo de sair de moda, que lançam disco novo todo ano, que se reciclam, que se atualizam, que param de beber, ficam saudáveis, que não têm barriga. Bando de merdas. O Nelson não tinha nada disso, sempre viveu ferrado, sempre tomou porrada, sempre se lixou pra essa porra de mercado. Tava com fome? Vendia um samba, o dono do boteco virava parceiro porque deixou o Nelson comer de graça. O cara foi o compositor mais generoso da música brasileira. Tem parceiro dono de boteco, de puteiro, gerente de hotel vagabundo, de espelunca. Os herdeiros desses caras devem estar até hoje orgulhosos: papai foi parceiro de Nelson Cavaquinho. É, parceiro: entrou com o bife, com o quarto, com a puta.(...)".
Pornografia
Devo estar ficando meio velho ou mais idiota. Mas confesso que poucas vezes vi algo tão nojento e terrível quanto as cenas daqueles sujeitos de Brasília pegando dinheiro - e orando, e colocando cédulas nas meias, e jogando a grana dentro da bolsa e fazendo cara de que tudo estava muito normal. Hoje cheguei a comentar no jornal que deveríamos repercutir o assunto com atores de filmes pornô: alguma vez eles teriam visto algo mais chocante?
Sempre me perguntei como um sujeito detentor de cargo público faria para receber um dinheiro indevido. Achava que a cena seria meio constrangedora. O corruptor entregaria uma mala ou um envelope? A entrega seria feita em mãos? Ou ele deixaria um pacote, assim como quem não quer nada, num canto do sofá? Como seria esse momento em que a corrupção se concretiza, quando o governante sabe que receberá uma vantagem indevida em troca de deixar de fazer, digamos, melhores escolas ou hospitais? O momento em que o governante sabe que o outro saberá que ele não presta, que é ladrão, desonesto, safado.
Ontem e hoje descobri que não há qualquer constrangimento. É algo simples, usual, faz parte do jogo político. Toma lá, dá cá. Tão simples quanto pedir um café ou pegar um ônibus ou fazer algum comentário sobre o tempo. Pegou, orou, colocou, jogou. Chega a ser banal.
Ah, mas os caras ainda conseguem fazer pior. Ainda cometem a canalhice de tentar explicar o inexplicável, o batom na cueca. Cornos que somos, ainda temos que ouvi-los dizer algo como "não é nada disso que vocês estão pensando".
Livros: Botafogo e jornalismo
Hoje é dia de sair correndo de livraria em livraria:
A partir das 18h, o amigo Paulo Marcelo Sampaio, que mantém o blog Arquiba Botafogo, autografa Os dez mais do Botafogo na Saraiva do Botafogo Praia Shopping. O livro tem a difícilima tarefa de reunir os principais jogadores alvinegros. Ele escalou Heleno de Freitas, Nilton Santos, Garrincha, Didi, Zagallo, Manga, Gérson, Jairzinho, Paulo César e Túlio, um timaço. Mas, não tem jeito, ficaram de fora craques como Roberto Miranda (que jogou a Copa de 70), Rogério (também convocado para 70, acabou cortado por contusão), Marinho Chagas, Amarildo, Quarentinha, Mauro Galvão, Leônidas... No caso do Botafogo, dava para lançar, sem dificuldade, um volume 2 do livro. Fica a sugestão.
E tem mais livro sobre o Botafogo: Roberto Porto estará, a partir das 19h, na Saraiva do Rio Sul, para apresentar seu "Botafogo: o Glorioso".
Companheira de diretoria da Abraji, Ana Estela de Sousa Pinto, responsável pelo programa de treinamento da "Folha de S.Paulo", lança Jornalismo diário: reflexões, recomendações, dicas e exercícios. Vai ser na Travessa de Ipanema a partir das 20h.
Discriminação religiosa
Ontem, sexta, publiquei uma nota lá no Informe do Dia sobre o assunto. Mas o negócio é tão grave que merece mais barulho. O livro do Nei Lopes (citado no post anterior) faz parte de uma coleção da Editora Língua Geral que tem uma característica específica: como naqueles livros policiais da Companhia das Letras, a parte externa do miolo é colorida.
Só que a operação para dar este colorido não é muito simples, apenas uma gráfica no Brasil faz isso. E a tal gráfica se recusou a fazer isso no livro do Nei. O motivo? A palavra "mandinga" que consta do título do romance (Mandingas da mulata velha na Cidade Nova). A tal gráfica é ligada a evangélicos (ou pertence a religiosos ou faz muitos serviços para eles) e, portanto, não topou fazer um serviço em um livro que, no título, faz referência a algo que eles associam ao capeta.
Isso é um escândalo, uma afronta, algo que poderia ser enquadrado como discriminação religiosa. O fato de a gráfica ser uma empresa privada não lhe dá direito de agir assim. É como um hotel - por ser privado - dizer que não aceita negros (ou judeus ou católicos ou evangélicos ou torcedores do Botafogo). Sei não, acho que a brincadeira está ficando séria e perigosa demais.
Mandingas de Nei Lopes
O grande Nei Lopes lança nesta quarta, a partir das 19h, na livraria do Unibanco Arteplex, seu primeiro romance, Mandingas da mulata velha na Cidade Nova (Língua Geral). O cinema fica na Praia de Botafogo, 316. Este ano, Nei faturou o Jabuti na categoria didático e paradidático com História e cultura africana e agro-brasileira.
Pelo direito de sonhar
Na saída do Engenhão, pouco depois da derrota do Botafogo para o Cerro Porteño, ouvi o comentário de um cara que estava mais ou menos ao meu lado. O sujeito fez um desabafo para o filho, um rapaz de uns 15/16 anos.
- Errei ao fazer de você um torcedor do Botafogo. Esse time não tem mais nada a ver com os times de antigamente. Garrincha, Nilton Santos, Didi, Jairzinho - é tudo passado. Você devia ter sido Flamengo.
Diante de tamanha heresia, interferi na conversa. Disse que não, como assim, besteira, meu amigo. Isso tudo vai passar.
Mas, no caminho para casa, pensei em algo um tanto quanto dramático: não dá para garantir que meus netos - que sequer foram concebidos - serão alvinegros. Sou Botafogo porque meu pai é Botafogo. Adotou o time ao ver Garrincha jogar. Ele não sabia, descobriu anos depois, mas meu avô, seu pai, era Botafogo. Virou alvinegro porque, uma vez, viu Didi jogar em Viçosa (lá pelos anos 50, o Madureira, onde Didi jogava, disputou amistosos no interior de Minas. Meu vô Almiro ficou impressionado o sujeito, passou a acompanhá-lo. Por Didi, virou Botafogo).
Meus filhos são Botafogo por minha influência direta - até que deram sorte, foram campeões brasileiros em 1995, conquistaram alguns estaduais e um Rio-SP. Mas, do jeito que vamos, começo a duvidar da continuidade da permanência dessa quase herança genética. Arrisco dizer que o Botafogo corre o risco de virar Portuguesa ou, pior, um América. Seria um processo mais lento, nenhum dos dois times tem um percentual mínimo da importância do Botafogo - mas o risco não está afastado.
O Botafogo tem pecado pela falta de ambição, se satisfaz com pouco. É absurdo entrar em campeonatos brasileiros sonhando em não cair ou, no máximo, em conquistar uma vaga na Sul-Americana. Essa lógica se traduz no futebol do Lúcio Flávio - um jogo medroso, sem objetividade. Como bem observou o amigo Paulo Marcelo, LF foge do gol, teme o risco, distribui jogo para as laterais. Estamos nos contentando com pouco - uma Taça Guanabara aqui, uma Taça Rio acolá. Substituímos o Vasco na conquista de vice-campeonatos regionais (ok, fomos roubados em duas das últimas três decisões de estaduais, mas o roubo reflete uma certa decadência. Na dúvida, os juízes respeitam os mais fortes. Na final da Taça GB de 2006, fomos favorecidos pela não-marcação de um pênalti escandaloso quando perdíamos de 1 x 0).
Os erros contra o Botafogo - neste Brasileirão foram muitos, ocorridos no momento em que o time se recuperava de um mau início no campeonato - mostram que os juízes já nos consideram menores. O rugido de um Beluzzo incomoda muito mais do que a reclamação de um dirigente alvinegro.
O time atual é ruim, o técnico, além de medroso, não conseguiu criar padrão de jogo - o Cerro Porteño deu o chamado banho tático no Botafogo, estava muito bem armado. Mas o técnico e o time apenas refletem uma lógica perdedora, cabisbaixa, não-ousada. Falta coragem, falta marra. Falta fazer como Manga fazia: dizer que, nos jogos contra o Flamengo, gastava o bicho de véspera.
A gestão Bebeto de Freitas foi importante, principalmente no seu início - organizou o clube, levou o time de volta à primeira divisão. Depois, caiu no rame-rame, na tal da utopia possível enunciada por FHC, uma lógica adotada pela nova diretoria. Caramba: não queremos prudência, não queremos equilíbrio financeiro, time compatível com a realidade econômica. Não queremos um futebol que reflita nossa vida e nossas preocupações cotidianas. Já basta ter que, no meu dia-a-dia, me preocupar com trabalho, grana, contas.
Futebol é muito mais que um jogo - até porque o jogo em si não tem a menor importância. Futebol é sonho, delírio, projeção de vitórias. No futebol, posso ser melhor do que sou. Não quero um sonho possível: sonho assim não é sonho, não tem a menor graça. Não podemos ser medíocres até na hora de sonhar. É preciso que o Botafogo volte a ser ousado, marrento, capaz de gerar orgulho em sua torcida - e medo e respeito entre os adversários. O Botafogo precisa voltar a honrar Garrincha: ser corajoso, agressivo, alegre e - consequência de tudo isso - vitorioso. Saudações alvinegras.
Obs: na semana passada, sonhei - é sério - que conversava com Maradona numa redação de jornal. O sujeito estava magro (e surpreendentemente alto). Lembro que insisti para que ele voltasse a jogar, que viesse para o Botafogo. Acho que ele recusou a oferta. A cena é, claro, risível. Mas é melhor sonhar em ver Maradona com a camisa alvinegra do que se contentar com a volta de Dodô - o sonho possível prometido pela diretoria do clube.
A fortuna das FARCs
Nesta quinta, a partir das 20h, participarei de um debate com o jornalista colombiano Eccehomo Cetina, autor de O tesouro - uma história de roubo nas Farcs (Record). O livro - muito legal - narra um episódio fantástico: o encontro, em 2004, por soldados do exército colombiano, de uma fortuna estimada em US$ 80 millhões. A grana tinha sido enterrada por guerrilheiros no meio da selva. No livro, Cetina narra como soldados e oficiais ficaram ensandecidos diante de tanto dinheiro.
A conversa será na Livraria da Conde, na Rua Conde de Bernadotte, no Leblon.
Enfermeiras talibãs
Aconteceu de novo: o Conselho Regional de Enfermagem do Rio conseguiu, na Justiça Federal, uma liminar que impede a Fernanda Lima, apresentadora do programa "Amor e sexo", de se apresentar vestida de enfermeira. Para o Coren, a caracterização reforçaria o fetiche masculino em relação às enfermeiras.
Bem, a atitude não representaria muito escândalo em tempos em que jovens vaiam loura de pernas grossas e saia curta. Mas é um escândalo, um atentado contra a liberdade de expressão. Entidades que representam as enfermeiras acham ofensivo que estas profissionais sejam vistas como mulheres bonitas e sensuais? O problema é delas. Preferem ser vistas como barangas, grosseiras, desatentas, insensíveis? Problema delas (antes que me processem: não disse que enfermeiras são gostosas, nem que são barangas, grosseiras, desatentas ou insensíveis).
As tais entidades tem o direito de defender a categoria: ninguém pode dizer que toda a enfermeira é vagaba ou que todo o policial é corrupto ou que todo jornalista é safado. Nesses casos, vale a chiadeira, processo, o escambau. Mas o problema é outro: as senhoras do conselho acham que ninguém - nem mesmo na ficção - pode caracterizar uma enfermeira como sensual, como uma pessoa capaz de atrair desejos, representar um fetiche. Elas querem controlar o desejo alheio!
Claro que ninguém pode atacar uma enfermeira, estuprá-la - ninguém pode fazer isso com ninguém. Mas não se pode impedir que uma pessoa tenha desejos em relação a enfermeiras, aeromoças, pilotos de avião, entregadores de pizza, estagiárias, bombeiros (há uns anos, a Renata Ceribelli fez, no Fantástico, uma matéria hilariante com uma mulher que tinha tesão em bombeiros. A tal senhora foi colocada num carro da corporação e quase teve um orgasmo quando a sirene foi ligada. Será que os bombeiros se sentiram agredidos com a fantasia - real - da tal senhora?). Será que os jornalistas deveriam ter entrado na Justiça contra o filme "Cidade de Deus" só porque um personagem diz que jornalista é ruim de cama?
Enfim, deixemos de talibanismo. É fundamental combater preconceitos assim como é essencial garantir a liberdade de expressão. Que as enfermeiras não tentem controlar a representação dos desejos e se concentrem em lutas mais importantes.
Vitória na primeira rodada
Depois de perder para o Cerro Porteño, não deixa de ser reconfortante ganhar do João Gilberto Noll. Enfim, uma vitória - meio suada, como costumam ser as vitórias alvinegras, mas uma vitória. A partida foi pela primeira fase da versão 2009 da Copa de Literatura Brasileira, um - digamos - torneio que reúne 16 livros e os coloca para - digamos, de novo - jogar um mata-mata. A vitória é definida por um juiz, um leitor que analisa os romances em disputa. No caso, meu O ponto da partida entrou em campo para enfrentar Acenos e afagos, do Noll.
Como eu disse aqui, em julho passado, a Copa é bem divertida, é séria sem ser chata - ainda que volta e meia ocorra uma confusão no meio do gramado (é um jogo, né?). As resenhas, de um modo geral muito interessantes, costumam ser arejadas, amadoras no melhor sentido da palavra, feitas por pessoas que gostam de literatura. Fundamental: os juízes leem os livros, são obrigados a justificar seus votos. Isso é um grande avanço. A existência desta justificativa dá maior responsabilidade ao julgador, não se trata apenas de apontar que A é melhor que B. É preciso dizer por que A é melhor que B. Ou seja, quem julga também é julgado, o que é bem democrático.
Talvez a ideia da Copa represente algo que gostaríamos ver mais: livros tratados com seriedade e graça, como numa boa conversa de bar. E, claro, com a sempre presente possibilidade de se xingar o juiz. No caso desta Copa, o jogo é mais interessante do que seu resultado. Até porque o placar nunca pode ser visto como definitivo, como verdade absoluta.
Bem, aí vai o comentário de Fabio Silvestre Cardoso que decidiu o sexto jogo. Vale dar uma passada no site da Copa, as discussões pós-jogos costumam ser bem interessantes. Ah, nas quartas de final, meu O ponto da partida enfrenta Flores azuis, de Carola Saavedra.
No sexto jogo da Copa da Literatura Brasileira, Acenos e afagos, de João Gilberto Noll, e O ponto da partida, de Fernando Molica, travaram um duelo bastante disputado, pois ambos os livros apresentaram virtudes que sobrepuseram seus eventuais vícios. A princípio, a obra de João Gilberto Noll levava certa vantagem, sobretudo porque o autor é daqueles que se pode considerar adepto de uma literatura vistosa, dessas que conseguem encantar o leitor e o amante dos romances tanto pelo lirismo como pelo estilo bem acabado, extremamente calculado, que sabe exatamente onde quer chegar. De sua parte, Fernando Molica é um autor com repertório literário mais modesto, sem esbanjar tantos recursos estilísticos; em contrapartida, é detentor de uma narrativa bastante envolvente, dessas que conquistam o leitor já no primeiro parágrafo. É como se fossem escolas diferentes, o que só poderia produzir um grande jogo. E nessa disputa, contrariando os prognósticos, O ponto da partida, de Fernando Molica, foi o vencedor.
A chave para a vitória, para utilizar o jargão dos comentaristas de futebol, está justamente na maneira como Molica conduziu sua história, tratando de um tema aparentemente banal: a crise de meia-idade de um jornalista carioca, apaixonado por Nelson Cavaquinho, que durante um plantão na madrugada revisita sua trajetória profissional, sua vida afetiva e seu relacionamento com os filhos. Nessa jornada rígida e ordinária, o protagonista Ricardo Menezes consegue cativar o leitor porque, homem desprovido de qualidades, mostra-se demasiadamente humano. Assim, mesmo sendo um personagem um tanto amargurado e vivendo (a suspeita é deste juiz) uma espécie de depressão silenciosa, escondida apenas pelos picos de euforia, Menezes não deixa de encarar seus problemas, numa postura divertidamente iconoclasta.
Até aí, alguém pode dizer, isso não sustenta a supremacia de um livro. De fato, não. Todavia, é necessário ressaltar que o autor constrói uma galeria de personagens à altura do protagonista. O sucesso da caracterização é tamanho que em determinado momento o leitor pode crer que as histórias do livro são desses casos fortuitos do cotidiano, algo como uma seleção do que não coube nos jornais. Que fique claro: a despeito da verossimilhança, trata-se de uma obra de ficção, obviamente arrematada por um autor experiente no ofício de articular boas histórias e que não deixa o leitor perder o interesse pela sequência dos acontecimentos. Assim, seja nos diálogos, seja no encadeamento dos capítulos, Fernando Molica é hábil em construir um relato bastante conciso e objetivo, mas, principalmente, um romance que cumpre seu papel de fazer o leitor desfrutar o texto. Assim, se é verdade que em determinados momentos o autor faz com que o leitor reflita sobre as escolhas que os homens, e mulheres, fazem em sua vida para ter mais status, qualidade de vida e dinheiro, também é verdade que ele propõe isso de forma suave e lúdica, deixando sedimentadas as impressões para o leitor. É nesse quesito de, digamos, cumprimento de proposta autoral que o livro de Molica bate o de João Gilberto Noll.
Para quem não sabe, João Gilberto Noll é um dos grandes romancistas brasileiros, mencionado em antologias da literatura brasileira, e um dos autores de prosa vivos mais traduzidos para fora do país. A celebração em torno de João Gilberto Noll se dá porque ele é um autor que se propõe a elaborar uma literatura decididamente mais sofisticada, com um projeto literário a ser seguido. No caso da obra em questão, Acenos e afagos se destaca (a começar pelo título) por ser um romance dotado de uma voz poética bastante peculiar, que pode ser identificada já na maneira como o narrador se dispõe a contar sua história para o leitor.
Esse narrador, protagonista de inúmeras aventuras e desventuras eróticas, a todos relata sobre seus desejos, sua volúpia e sua busca quase incessante pelo prazer carnal. Para ele, nada é mais importante do que agradar seu parceiro: ao mesmo tempo em que se torna a mulher de um engenheiro cuja conduta é misteriosa, ele também assume o papel de homem na intimidade homoerótica. Essa ambivalência causa um nó na cabeça do protagonista, que se vê envolto em inúmeros dilemas morais e existenciais, a ponto de sua fala ser absolutamente errática, caótica, muito embora a organização das ideias seja absolutamente bem feita.
Nessa perspectiva, há de se notar um elemento, a meu ver desnecessário, que compõe a obra de Noll. Trata-se do apelo ao grotesco, um recurso utilizado em demasia pelo autor, que, de forma consciente, arremata o estilo desse livro com uma linguagem chula que usa e abusa dos palavrões para dar cor ao personagem. A mensagem é clara. Experiente no domínio da palavra, JGN tem como objetivo chocar e causar espécie junto ao leitor. A esse respeito, não é descabido lembrar de que Nelson Rodrigues qualificava tal estratagema como a doença infantil do palavrão. Eis um ponto bastante curioso: em Acenos e afagos a verve poética é apimentada por um memorial erótico que em dados momentos, pela riqueza de detalhes, se assemelha aos blogs de garotas de programa que tanto fizeram sucesso na internet neste início de século XXI. Ora, se é verdade que a boa literatura não se faz com bons sentimentos, também é certo que nem tudo é literatura. Assim, quando o narrador revela que, torturado, tinha seu desejo sexual fora de controle, a ponto de deixar a companhia do filho para buscar prazeres proibidos, o leitor tem a impressão de que esse tipo de enredo está mais para filmes de gosto duvidoso nas altas horas da madrugada do que para narrativa ficcional de qualidade.
Esse elemento, no entanto, é acessório. Em verdade, o ponto que faz de Acenos e afagos um livro inferior em relação à obra de Molica é precisamente a condução da narrativa, que no caso da obra de JGN se assume como sofisticada, mas não consegue trazer o leitor comum para seu livro. Quer dizer, o autor até tenta isso com as descrições sexuais em série, mas logo essa arte de causar efeito torna-se estéril. Em outras palavras, Noll acaba por estimular, aguçar e apimentar a imaginação do público, mas, comparado ao texto de Molica, suas inventivas são inócuas e sem sentido.
Se se comparar os textos, há de se notar que ambos os protagonistas passam por experiências extenuantes em sua trajetória. Sim, leitor, são argumentos e histórias totalmente distintos um do outro. Todavia, constata-se que tanto o narrador-protagonista de JGN quanto o herói de Fernando Molica atravessam momentos de tensão ao resgatar suas escolhas, tomar novas decisões e enfrentar novos desafios. Como num jogo em que as duas equipes têm atletas de alto rendimento em ótimas condições, a peleja fica bem interessante ao leitor. Mesmo nesse ponto, contudo, a vantagem é para a obra de Molica, porque a distribuição das personagens ajuda a compor um painel mais rico para a história, enquanto o protagonista de JGN torna-se um contínuo de si mesmo, enredado em suas próprias angústias, e o livro parece claramente tomar a opção da parte em detrimento do todo. No conjunto, o romance de Molica é mais coeso e, sim, mais elaborado.
Entre o estilo vistoso de Noll e a prosa objetiva de Molica, neste embate, O ponto da partida vence Acenos e afagos. De um modo geral, é evidente que nem todos os confrontos entre essas duas escolas teriam esse mesmo resultado. Mas num jogo como esse os detalhes importam mais do que o favoritismo inicial.













