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Pontos de Partida, o Blog do Fernando Molica

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Degredados e racismo

separador Por Fernando Molica em 25 de setembro de 2016 | Link | Comentários (0)

Essa história de atribuir nossas mazelas ao fato de que havia degredados entre os primeiros colonizadores resvala pesado no racismo. Mais, evoca uma espécie de determinismo genético ("Pau que nasce torto cresce torto") que justifica ataques a determinados grupos e, no limite, colabora para fenômenos como tentativas de extermínio daqueles apontados como degenerados ou impuros.

Falar em degredados é relatar apenas uma parte do preconceito tantas vezes cochichado. A justificativa para o nosso atraso tantas vezes apontada pelos arautos da simplificação e da eugenia costuma também citar a presença de negros e índios entre nossos antepassados. Quantas vezes não ouvimos que estávamos destinados ao fracasso por conta do cruzamento - a palavra usada é essa, que remete ao sexo entre animais - entre portugueses/degredados, negros e índios?

Esse tipo de estupidez costuma ganhar corpo principalmente entre aqueles que, por razões genéticas e/ou culturais, não se consideram fruto dos cruzamentos por eles classificados de malditos. Ou que, pelo menos, acham que, por conta do estudo e/ou da religião, conseguiram purgar as marcas da herança transmitida pelos antepassados, livraram-se do pecado original da colonização e das consequências da fornicação desmedida.

O viés racista fica ainda mais evidente ao se, com frequência, associar o lamento pela presença lusitana ao suspiro pelo fracasso das tentativas de colonização pela Holanda e França, pátrias de povos mais desenvolvidos - e brancos - que os portugueses. Um pensamento que, como já ressaltado por outros, não leva em conta as atrocidades cometidas por holandeses na África do Sul nem a barbárie promovida por franceses na Argélia e em outras colônias.

Na América, os cristãos ingleses não vacilaram em quase exterminar índios e em escravizar africanos. A Austrália, como frisou Fernando Brito, foi formada não por meia dúzia, mas por milhares de degredados. Por esta lógica, alemães e italianos deveriam ser isolados, afinal, muitos deles são (somos) descendentes de nazistas e fascistas.

A insistência no princípio do pecado original ofende a todos nós, herdeiros de portugueses, negros, índios, judeus, árabes, italianos, espanhóis, franceses, japoneses, coreanos, holandeses, poloneses, alemães. Desqualifica os que estavam aqui antes dos portugueses e todos aqueles que, escravizados ou em busca de uma vida melhor, chegaram depois.

Falar em herança maldita joga toda uma população contra a parede, faz como que todos sejamos suspeitos, necessitados de limpeza, purgação ou exorcismo. Foi assim, em nome de algum deus ou de uma suposta superioridade genética, que muita gente ao longo da história foi levada para a fogueira e para as câmaras de gás.


Pitacos municipais 13 - Eleitores desconhecem números de candidatos

separador Por Fernando Molica em 23 de setembro de 2016 | Link | Comentários (0)

Para conseguir chegar ao segundo turno da eleição carioca, Jandira Feghali (PCdoB) precisa, além de conquistar votos, se esforçar muito para que os eleitores aprendam a sua dezena (65). Entre os que disseram ao Datafolha que votarão nela, apenas 29% acertam o número que corresponde ao seu partido e que deve ser digitado na urna eletrônica, 4% responderam de maneira errada e 66% declararam que não sabiam o número da candidata.

Embolados com Jandira na disputa pelo segundo lugar, Marcelo Freixo (50) e Pedro Paulo (15) tiveram resultados melhores.No caso do candidato do Psol, 57% responderam à pergunta de forma correta; 3% erraram e 40% afirmaram que não sabiam qual era seu número. O resultado em relação ao peemedebista foi parecido: 56% citaram o número correto, 3% erraram e 40% afirmaram que não sabiam.

A vantagem de Freixo deve estar associada ao perfil de seus eleitores - 68% deles cursaram o ensino superior; 27%, o médio e 5%, o fundamental. No caso de Jandira, os percentuais são 22%, 41% e 37%; Pedro Paulo tem 19%, 47% e 34%. Pedro Paulo tem a vantagem de concorrer por um partido antigo e bem conhecido - a dezena que o identifica venceu as últimas eleições para governador e prefeito.

Segundo a pesquisa, o índice de acerto de números é diretamente proporcional ao grau de escolaridade dos eleitores: entre os que chegaram à faculdade foi de 49% - os percentuais caíram para 45% e 38% entre os que, respectivamente, cursaram o Ensino Médio e apenas o Fundamental.

Flavio Bolsonaro (PSC) e Indio da Costa (PSD) que, segundo o Datafolha, também estão tecnicamente empatados no segundo lugar, também vão ter que repetir muito seus números nos próximos dias. Apenas 26% de seus prováveis eleitores sabem associá-los à dezena que tem que ser digitada: 72% ignoram o número de Bolsonaro (20); 73% o de Indio (55).

Metade dos eleitores de Marcelo Crivella (PRB), líder isolado da pesquisa, acertou seu número (10); 3% erraram e 47% não arriscaram qualquer resposta.


Pitacos municipais 12 - Paes e o ir ou não ir

separador Por Fernando Molica em 23 de setembro de 2016 | Link | Comentários (0)

Faltando pouco mais de uma semana para o primeiro turno, Eduardo Paes tem sido pressionado por aliados para participar do programa eleitoral de Pedro Paulo (PMDB).

O prefeito já fez gravações para o horário de TV, mas resiste em autorizar o uso do material. Assessores que cuidam do marketing da campanha temem que sua presença atrapalhe a consolidação da imagem do candidato, que poderia ser visto apenas como um "poste" indicado pelo padrinho.

Mas a pressão é grande. Para muitos correligionários, a participação de Paes seria a única forma de transferir parte de sua popularidade para Pedro Paulo. Segundo a última pesquisa Datafolha, a administração do atual prefeito é considerada ótima ou boa por 30% dos eleitores cariocas.

De acordo com a mesma pesquisa, Pedro Paulo tem 9% das intenções de voto, embolado com Marcelo Freixo (Psol), com 10%, e com Jandira Feghali (PCdoB), com 9%. Flavio Bolsonaro (PSC) tem 7% e Indio da Costa (PSD), 6%. Disparado na liderança, Marcelo Crivella (PRB) recebeu 31% das preferências.


Ao MPF, Eike negou motivo alegado por Moro para prender Mantega

separador Por Fernando Molica em 22 de setembro de 2016 | Link | Comentários (1)

Eike Batista, em seu depoimento a procuradores da Lava Jato, não fez qualquer relação entre contratos do Consórcio Integra com a Petrobras e o pedido de contribuição de R$ 5 milhões para o pagamento de dívidas do PT que, segundo ele, foi feito por Guido Mantega. A OSX Construção Naval, de Eike, fazia parte do consórcio.

No despacho/decisão em que determinou a soltura do ex-ministro, Sérgio Moro afirma que as decisões relacionadas à nova fase da Lava Jato, entre elas a prisão de Mantega, estavam ligadas "a propinas em contrato da Petrobrás com o Consórcio Integra".

Moro cita a entrega da quantia que teria sido pedida por Mantega:

"O pagamento estaria vinculado ao esquema criminoso que vitimou a Petrobrás e a propinas também pagas a agentes da Petrobrás no âmbito do contrato da Petrobrás com o Consórcio Integra", escreveu o juiz.

A ausência de ligação entre o pedido do ex-ministro e a Petrobras foi reafirmada em nota divulgada, nesta quinta-feira, pelos advogados de Eike. A relação entre a suposta solicitação de Mantega e a estatal é que justifica o fato de a investigação sobre o suposto ato do ex-ministro ser conduzida pela Força-Tarefa da Lava Jato. Mantega foi presidente do Conselho de Administração da Petrobras.

No despacho/decisão anterior, que determinara a prisão de Mantega e de outros suspeitos, Moro cita outros depoimentos que indicariam fraudes em contrato da Petrobras com o Consórcio Integra. O nome de Mantega, porém, não é mencionado nesses relatos.

Formado pela Mendes Junior e pela OSX, o consórcio, em julho de 2012, assinou com a Petrobras um contrato de US$ 922 milhões para a construção de duas plataformas de construção de petróleo. A conversa com Mantega, segundo Eike, ocorreu em novembro, cinco meses depois.

No depoimento, Eike nega que tenha feito qualquer pagamento ilícito relacionado ao contrato. A transcrição oficial da conversa mostra que um dos procuradores perguntou se empresas de Eike tinham algum contrato "relacionado a plataforma". O empresário disse que sim, com a Integra, e citou a Mendes Junior - disse que havia cedido um espaço para a empreiteira, que era responsável pelos contatos com a Petrobras. Frisou que não era bem visto na estatal: "Eu era o diabo lá dentro", disse.

Um dos procuradores perguntou:

"E nesse relacionamento, esse contrato com a Petrobras, considerando o contexto da Lava-Jato, o senhor teve ciência ou participou de algum ato ilícito?"

Eike respondeu:

"A estrutura nunca... Olha, de novo, a gente entrou nessa operação com a área, o espaço, acho que tem o contrato né, que rege, qual é o contrato que existe com a Mendes Junior?"

O representante do Ministério Público Federal foi mais direto:

"Mas só voltando objetivamente, a pergunta que eu fiz ao senhor: o senhor tem conhecimento ou teve participação em algum ato ilícito ligado a esse contrato?"

Resposta do empresário:

"Absolutamente não."

O procurador insistiu:

"Certo. O senhor teve algum relacionamento... "

Eike:

"Até porque não faz parte da cultura nossa, por favor, eu não...".

O representante do MPF continuou, mas Eike ressaltou que não participara de nada ilegal e ressaltou que, por estar envolvido na exploração de petróleo, não tinha boa relação com a Petrobras e que estava de fora do "clube", uma suposta citação a esquemas irregulares de empreiteiras na estatal:

"MPF: Perguntamos isso, senhor Eike, porque vendo a lava-jato, isso aconteceu diversas de outras vezes. Então nunca foi solicitado ao senhor, digamos, comissionamento para a Petrobras?

DEPOENTE: Olha, eu era como um jogo fora do baralho. É só vocês verem o que aconteceu. Por que que o Eike Batista não está na Lava-Jato? Não está envolvido com Petrobras? Por que? Eu com os empreiteiros, eu era um bicho que as pessoas nem sabiam me interpretar. O que eles faziam era o seguinte: vamos sugerir para a Petrobras construir um novo porto. Essa era a cultura. Um cartel e o Eike Batista que trazia empresas estrangeiras e capital próprio, não encaixava. Esse clube... eu não fazia parte desse clube. E sempre fui expulso do clube."

Depois, o procurador perguntou se ele conhecia operadores financeiras denunciados na Lava Jato. Eike negou conhecer, entre outros, Alberto Youssef, Mario Goes e Milton Pascowitch. O empresário disse que chegou a ser procurado por Fernando Soares, o Fernando Baiano, mas disse que a conversa não estava relacionada à Petrobras.

No depoimento, Eike diz que Mantega pediu os R$ 5 milhões para pagamento de despesas de campanha:

"Então numa dessas visitas aconteceu precisamente no dia 1º de novembro de 2012, no Gabinete do Ministro MANTEGA, houve um pedido para que eu contribuísse para campanha, para é (...), despesas, porque a campanha já tinha passado, despesas para campanha."

Os procuradores também quiseram saber se o dinheiro iria para o PT e se Mantega fizera alguma ameaça caso a contribuição, que acabaria sendo paga à publicitária Mônica Moura, não fosse entregue.

O empresário negou qualquer ameaça, mas deu a entender que, por conta do volume de seus investimentos, não iria contrariar o ministro:

"MPF: Me permita que... um outro questionamento, senhor Eike. Isso tinha por objetivo de certa forma repassar valores para o Partido dos Trabalhadores?

DEPOENTE: Claro. No fundo, no fundo sim. O Ministro de Estado me pediu, que que você faz? Eu tenho 40 bilhões investidos no país, como é que você faz?

MPF: Ele fez algum tipo de ameaça ao senhor? Fez assim, olha, se não acontecer isso, vai acontecer aquilo?

DEPOENTE: Não, não. Não. Isso nunca existiu. Até porque o capital era meu. Não tinha o que me dar."

Na conversa com os procuradores, Eike entregou uma lista de contribuições de campanhas a partidos políticos, revelou que também fez doações para outros partidos, entre eles, o PSDB:

"Depoente: Eu devo ter. Então, como eu fazia, eu fazia muito no espírito - está aqui, eu tenho aqui - assim democrático, como meus projetos eram muito grandes, estavam em todos os Estados, se nos, quer dizer, achamos que temos uma democracia, eu participei de praticamente em 2006 com o mesmo volume de recursos R$ 1 milhão para o PT, PSDB, é (...) tudo isso daqui a gente pode deixar aqui né."

Citou também doação para o senador Cristovam Buarque (PPS-DF) - seu nome foi transcrito como "Cristovom":

"Pelo menos, olha, eu acho quem agradeceu foi quem eu não conheço, o CRISTOVOM BUARQUE, esse é educado, o resto não dava para as presidências de partido, comitê de partido, e (...)."


Moro e a lógica do guarda da esquina

separador Por Fernando Molica em 22 de setembro de 2016 | Link | Comentários (1)

No documento em que revoga a prisão do Guido Mantega, o Sérgio Moro diz claramente que a ordem de prisão temporária do ex-ministro foi baseada apenas numa acusação do Eike Batista.

"Segundo o próprio depositante, tais valores seriam destinados a
remunerar serviços por eles prestados ao Partido dos Trabalhadores e teriam sido solicitados pelo investigado Guido Mantega, então Ministro da Fazenda e Presidente do Conselho de Administração da Petrobrás.

O pagamento estaria vinculado ao esquema criminoso que vitimou a Petrobrás e a propinas também pagas a agentes da Petrobrás no âmbito do contrato da Petrobrás com o Consórcio Integra."

O Mantega, um sujeito conhecido, que tem endereço fixo, foi preso com base num "teriam sido solicitados" e num "estaria vinculado". Ele foi solto, mas vai carregar pelo resto da vida a marca de já ter sido preso. Esta marca vai permanecer mesmo que ele venha a ser absolvido.

Como escreveu. no seu perfil no Facebook, Walter Fanganiello Maierovitch, professor de Direito, desembargador aposentado e secretário nacional antidrogas de FHC: "(...) prisão cautelar só pode ser imposta em caso de necessidade. Caso contrário, essa custódia vira antecipação de julgamento."

Pela lógica de Moro, qualquer um de nós pode ser preso caso seja acusado num simples depoimento. Se o Mantega, economista conhecido, ex-ministro da Fazenda, foi em cana imagine o que pode acontecer com pessoas desconhecidas. Bem, já sabemos o que ocorre com pessoas desconhecidas, especialmente se pobres e negras, o espantoso é saber que esta lógica vai, aos poucos, ganhando cada vez mais apoio e legitimidade.

É comum se dizer que o pior de um ditadura é o poder que se dá ao guarda da esquina, que passa a se sentir dono de todos os poderes. A lógica do guarda da esquina parece ter contaminado o judiciário.


Uma tolerância suicida

separador Por Fernando Molica em 22 de setembro de 2016 | Link | Comentários (0)

A tolerância com abusos cometidos contra inimigos, adversários políticos ou acusados de crimes (qualquer crime) é absurda e, mesmo, suicida, Se não for defendido por conta de um sentimento nobre, de justiça, o apego à lei deve ser exaltado por egoísmo, em causa própria - afinal de contas ninguém está livre do poder discricionário do Estado.

Diante de abusos cometidos em nome da lei, alguns ressaltam que pretos e pobres sempre foram vítimas de situações muito piores. Sem dúvida, a tolerância de muita gente com essas práticas viabilizou situações como as que estão se tornando corriqueiras, e que agora atingem o andar de cima.

Mas comemorar a democratização do abuso e, assim, relativizar a gravidade de muitos fatos seria o mesmo que defender a eventual proliferação da miséria. A sociedade tem que lutar pelo contrário, para que todos tenham seus direitos respeitados.

Num de seus ótimos livros sobre a ditadura, Elio Gaspari diz que, com a adoção da tortura como método de interrogatório, os militares se igualaram aos comissários de polícia, tornaram-se cúmplices da barbárie, deixaram-se contaminar por práticas que sequer deveriam existir.

Como no velho ditado, o pau que dá em Chico é o mesmo que dá em Francisco. Ninguém sabe qual será a próxima vítima.


Pitacos eleitorais 11 - A paz (até agora) entre Malafaia e Crivella

separador Por Fernando Molica em 22 de setembro de 2016 | Link | Comentários (0)

Pelo visto, o Espírito Santo pacificou as relações entre Marcelo Crivella, candidato do PRB à prefeitura do Rio, e o pastor Silas Malafaia, presidente da Assembleia de Deus Vitória em Cristo. Por enquanto, pelo menos, tudo parece estar calmo entre eles.

Em declaração publicada na edição de hoje de 'O Globo', Malafaia afirma que, no primeiro turno, não vai apoiar qualquer candidato, apesar de sua amizade com Eduardo Paes, que lançou Pedro Paulo (PMDB).

Há dois anos, num debate na OAB-RJ ocorrido no segundo turno da eleição para o governo do estado, Malafaia foi muito violento ao dirigir uma pergunta a Crivella, como mostra este vídeo.

Ele ironizou o candidato do PRB ("Não tem esse negócio de pastor ou bispo licenciado") e afirmou que Crivella e a Igreja Universal do Reino de Deus tinham desconsiderado "seus irmãos de fé". Perguntou como "as pessoas de outros segmentos religiosos" iriam acreditar nele.

Malafia estava irritado com o fato de a Universal, liderada por Edir Macedo, tio de Crivella, ter comprado horários na CNT que eram ocupados pela Vitória em Cristo. Segundo ele, igrejas e pastores haviam sido colocados para fora "como se bota cachorro vira-lata".

Depois, ambos disseram que o outro era "mentiroso". Em 2016, porém, Malafaia tem pregado apenas contra o voto em partidos de esquerda.

Há três anos, o Ministério Público decidiu investigar o repasse de R$ 1,6 milhão da prefeitura e para a organização da Marcha para Jesus, organizada pelo Conselho de Ministros do Estado do Rio de Janeiro, então presidido pelo pastor.

Em 2014 e 2015, a Casa Civil da prefeitura voltou a destinar verbas - R$ 2.485.000 e R$ 2.320.500, respectivamente - para o Conselho de Ministros. Segundo o site Rio Transparente, o dinheiro foi para "Gestão administrativa - Gestão e finanças públicas".



Pitacos eleitorais 10 - Tensão Pré-Pesquisas

separador Por Fernando Molica em 21 de setembro de 2016 | Link | Comentários (0)

De acordo com o site do TSE, amanhã o Datafolha divulga uma nova rodada de pesquisas em cidades como Rio e São Paulo. Os levantamentos, que custaram entre R$ 92.338 e R$ 95.446, foram encomendados pela 'Folha de S.Paulo' e pela TV Globo.

Amanhã também o GPP entrega uma nova pesquisa encomendada pelo PMDB e que custou R$ 38.400 ao partido. Marcelo Freixo, do Psol, gastou R$ 12 mil para contratar um levantamento ao Instituto Novo - o trabalho será entregue no domingo.

Na semana que vem, a última antes da eleição, o Ibope e o Datafolha divulgarão pesquisas, respectivamente, nos dias 26 e 27.

Curiosidade: a pesquisa do Instituto Paraná encomendada pela Rádio Joven Pan e que foi divulgada na tarde de hoje, quarta, foi a mais barata - custou R$ 6 mil. O instituto declarou ao TSE que entrevistaria 1.200 pessoas entre os dias 16 e 20.


Olhar sem câmera

separador Por Fernando Molica em 18 de setembro de 2016 | Link | Comentários (0)

Em pelo menos dois grandes momentos da minha vida eu agi como a velhinha que, em foto que caiu nas redes, preferiu observar uma cena ao invés de fotografá-la - ela está cercada de pessoas que tentam registrar aquele instante com o celular.

Quando meu primeiro filho nasceu, era moda filmar os partos. As câmeras VHS se proliferavam, a presença dos pais nas salas de parto tornara-se corriqueira, era um jeito que, nós, homens, havíamos encontrado para não ficar de fora da festa. Estarmos ali era um jeito de também parir.

Na época, não sei como é hoje, havia casais que não se contentavam em deixar com o pai a tarefa de registrar o parto e chegavam a contratar cinegrafistas especializados na tarefa. A banalização das ultrassonografias e das cesáreas contribuía para a dessacralização daquele momento que, historicamente, era impregnado de dúvidas e apreensões.

A ida para o centro cirúrgico passou a ser apenas o detalhe final de um jogo com resultado conhecido, sabia-se por antecipação o sexo do bebê, os avanços da medicina fizeram com que possibilidade de algo dar errado se tornasse quase desprezível. Assim, meio que descontextualizado, o parto perdia um pouco de seu caráter único, insubstituível, milagroso - o instante em que uma nova vida, severina que seja, brota do corpo de um ser humano, momento que dá aos mortais a ousadia de uma comparação com Deus. O nascimento prova que mesmo os que não creem podem criar vida.

Como na brincadeira com baianos e sua suposta vocação para o mundo do espetáculo, o parto passou a ser encarado como estreia. O filho deixaria de ser visto com um complexo e indefinível resultado de mistérios, mas como o singelo produto de uma atividade fisiológica, fruto dos esforços e talentos de um homem e de uma mulher. É como se o discreto corte na barriga fosse substituído pelo gesto de abrir as cortinas de um palco.

Na época, aos 26 anos, não pensei nisso tudo, a lógica da espetacularização não era tão evidente, mas sabia que queria ver aquele momento com meus olhos, não admitia que, além das necessárias lentes de contato (tenho quase oito graus de miopia), houvesse qualquer outra intermediação entre mim e aquele instante, repito, único e milagroso.

Não queria uma tela ou aparelho me separasse da fração de segundo em que seria surpreendido pela vida que eu ajudara a criar. Sequer sabíamos o sexo do bebê, a médica não vira razão para pedir uma ultrassonografia. Também nem pensar na ideia de colocar um profissional para registrar uma cena tão íntima, seria absurda invasão de privacidade.

Assim, com meus próprios olhos, é que acompanhei o nascimento dos meus dois filhos. Não havia câmera, qualquer intermediação, não tinha que me concentrar no foco ou no enquadramento - a preocupação era com a mãe e com os filhos. Ainda que cercados de cuidados, ela e eles estavam sós, entregues aos mandamentos e riscos da natureza; eu tinha que, pelo menos, ser solidário com tamanho desprendimento, não podia filtrar o que se passava nem me apoiar numa máquina. De certa forma, também me despia.

Depois, quando me perguntavam se não havia gravado os partos - como assim?!? -, limitava-me a responder que sim, claro que aqueles instantes haviam sido gravados. Estão mais do que registrados, impregnados em minha memória, em minha vida, ficarão para sempre, para além de mim. Meninos, eu vi.


Aprovação a Temer cai no Rio e chega a 8%; Dornelles mantém 0% de 'ótimo'

separador Por Fernando Molica em 15 de setembro de 2016 | Link | Comentários (0)

A desaprovação ao governo Michel Temer aumentou entre os cariocas. Segundo pesquisa do Ibope, apenas 8% disseram que seu governo é ótimo (1%) ou bom (7%). No mês passado, o índice era de 12% (2% para ótimo e 10% para bom).

Como no levantamento anterior, não chegou a 1% o percentual dos que classificaram de ótimo o governo de Francisco Dornelles, que, agora, manteve o 0%.

O aumento da rejeição a Temer pode ajudar a explicar o crescimento de dois pontos, na pesquisa do Ibope, da candidatura de Jandira Feghali à prefeitura - entre os candidatos, ela é que mais ataca o presidente e defende Dilma Rousseff.

A reprovação a Temer saiu de 42% (13% ruim e 29% péssimo) no mês passado para 46% na nova pesquisa (14% ruim e 32% péssimo). O percentual dos que classificaram seu governo como regular caiu de 40% pra 32%. Dos entrevistados em setembro, 13% disseram não responderam ou afirmaram não ter como opinar, contra 6% em agosto.

O índice dos que rejeitam a administração de Dornelles, governador em exercício do Estado do Rio, também cresceu de 47% no mês passado (16% ruim e 31% péssimo) para 50% (18% ruim e 32% péssimo). O percentual dos que classificam seu governo de bom ficou igual ao do mês passado, 6%. O indice dos que dizem que é regular caiu de 39% para 32%. Em agosto, 7% não opinaram, em setembro foram 11%.


Pitacos eleitorais 8 - Freixo ameaçado, Crivella cresce entre os que o rejeitavam

separador Por Fernando Molica em 15 de setembro de 2016 | Link | Comentários (0)

A nova pesquisa Ibope reforça a tendência de crescimento de Pedro Paulo (PMDB) e de Jandira Feghali (PCdoB), confirma a situação delicada de Marcelo Freixo (Psol), mostra que Indio da Costa (PSD) ganha consistência e, mais importante, revela que não vai ser fácil derrubar Marcelo Crivella (PRB) no segundo turno. A tendência, que, claro, pode ser mudada, indica que Jandira e Pedro Paulo têm mais chances de disputar a segunda vaga no mata-mata final.

Por partes: o maior problema de Freixo, que caiu de 12% para 9% nas intenções de voto em relação à pesquisa divulgada no mês passado, está entre os cidadãos de renda e escolaridade baixas, o que complica muito sua vida. A amostragem do Ibope, que procura reproduzir a composição do eleitorado, diz que 69% dos entrevistados cursaram até o Ensino Médio; 70% têm renda familiar de até cinco salários mínimos. Nestas faixas, Jandira e Pedro Paulo têm, de um modo geral, rendimento superior ao do candidato do Psol.

Entre os eleitores que cursaram até o quarto ano do Ensino Fundamental, Freixo cresceu de 1% para 4%. Mas Jandira pulou de 7% para 13%. Nesta faixa, Pedro Paulo oscilou de 10% para 11%, mas, na seguinte, eleitores que concluíram do 5o. ao 8o. anos, o peemedebista saltou de 6% para 15%; Jandira saiu de 6% para 8% e Freixo caiu de 8% para 2%. Indio, aí, subiu quatro pontos, de 3% para 7%.

Freixo, que sofre com o pouco tempo de TV, e Jandira, que tem direito ao horário do aliado PT, trocaram de posições entre os eleitores que cursaram o Ensino Médio. Ele tinha 11% e passou para 6%; com ela ocorreu o oposto. Pedro Paulo tinha 5% e ficou com 9% neste segmento, que concentra 43% dos eleitores.

Entre os eleitores com renda de até um salário mínimo, Freixo caiu de 7% para 4%, Jandira dobrou suas intenções de voto, de 6% para 12% e Pedro Paulo perdeu quatro pontos, de 10% passou para 6%. Na faixa seguinte, de um a dois salários mínimos, Freixo voltou a cair ( de 11% para 5%), Jandira subiu dois pontos (de 8% para 10%) e Pedro Paulo saiu de 6% para 11%. Nestas duas faixas estão 40% dos eleitores.

A situação do candidato do Psol entre os jovens também piorou muito: entre os eleitores de 16 a 24 anos, ele despencou de 22% para 12%, Jandira e Pedro Paulo tiveram altas discretas, de 5% para 7%. O destaque nesta faixa é Indio, que parece ter despertado entusiasmo num setor mais conservador da juventude - pulou de 3% para 11%.
O piripaque sofrido por Flavio Bolsonaro (PSC) no debate da Band parece ter decepcionado muitos de seus entusiastas, ele cai em praticamente todos os segmentos - entre os homens, saiu de 16% para 10%.

Para Crivella, só notícias boas. Além de suas intenções de voto terem passado de 27% para 31%, ele cresceu em setores que, historicamente, rejeitam suas disputas a cargos majoritários. Entre os eleitores com curso superior, ele passou de 14% para 20% - Freixo oscilou de 18% para 19% e Jandira caiu de 7% para 4%.

Na faixa de renda mais alta, o candidato do PRB passou de 12% para 17% e ficou em empate técnico com o adversário do Psol, que foi de 20% para 18%. Além disso, o índice de rejeição de Crivella caiu de 35% para 24%, o que aumenta suas chances no segundo turno.

A pesquisa mostra que Pedro Paulo faz bem em tentar grudar sua imagem com a de Eduardo Paes, pelo menos neste primeiro turno. Apesar de 56% reprovarem a atual administração, 40% dizem aprová-la, um percentual bem maior do que o de intenções de voto do peemedebista (numa pergunta mais ampla, 27% disseram que o governo Paes é ótimo/bom; 34% afirmaram que é ruim ou péssimo. O índice de regular ficou em 34%).

Pedro Paulo, porém, parece ainda sofrer com a acusação de ter agredido a ex-mulher, arquivada pela Justiça: entre os homens, têm 11% das intenções de voto, índice que cai para 7% no eleitorado feminino.


As palavras do MP, Lula e a queda do Golbery

separador Por Fernando Molica em 15 de setembro de 2016 | Link | Comentários (0)

Ao ler as expressões utilizadas pelo Ministério Público Federal na denúncia contra Lula ("comandante máximo", "grande general", "maestro da orquestra criminosa") lembrei de um episódio ocorrido há muitos anos, quando o general Golbery do Couto e Silva deixou o governo Figueiredo.

No dia seguinte, na sala de aula da Escola de Comunicação da UFRJ, comentei a edição do 'Jornal do Brasil', que, na capa, utilizava a frase "Foi uma surpresa total". Irritado com a publicação de algo tão vago, o professor Nilson Lage deitou falação e, ao criticar o 'JB', deu uma (outra) grande lição de jornalismo. Ressaltou que a saída do Golbery era mais ou menos prevista, e completou:

"Imagine se a moda pega. Passaremos do 'Foi uma surpresa total' para outras demonstrações de espanto. Teremos o 'Ora vejam só', o 'Homessa', e por aí. No dia que estourar uma revolução, o jornal terá que escrever na manchete: `Puta que pariu!' '', completou.

Ontem, um dos procuradores admitiu que a denúncia não trazia provas cabais. Suponho que, se tais evidências forem encontradas. o MP terá dificuldades para encontrar qualificações ainda mais desairosas para o ex-presidente. Talvez tenha que apelar para algo como "aquele FDP".


Pitacos municipais 7 - O Marcelo dos ricos e o dos umbandistas

separador Por Fernando Molica em 14 de setembro de 2016 | Link | Comentários (0)

A última pesquisa Datafolha, indica que, entre os dois Marcelos candidatos à prefeitura do Rio, um é o favorito entre os mais ricos; o outro lidera entre os umbandistas. Quem são? Freixo, o Marcelo do Psol, é o que tem mais intenções de voto - 20% - entre eleitores com renda familiar superior a dez salários mínimos; já Crivella, do PRB e bispo licenciado da Igreja Universal, líder da pesquisa com 29% das intenções de voto, é o preferido dos umbandistas: tem 15% entre esse grupo, contra 13% de Jandira Feghali (PCdoB) e 10% de Freixo.

Os detalhes da pesquisa reforçam que, na cabeça do eleitor, a soma de dois mais dois nem sempre dá quatro. Conceitos como direita e esquerda, relevantes para uma parcela de cidadãos, acabam diluídos - o que vale mais é a percepção de como cada um vê e avalia os candidatos.

Indicado por Eduardo Paes, Pedro Paulo (PMDB) insiste que a atual administração priorizou obras para os mais pobres. Mas, segundo o Datafolha, ele é aquele que, segundo os eleitores, mais defenderá os ricos caso seja eleito - 19% de indicações contra 11% de Bolsonaro.

Os dados mostram que a liderança do segundo lugar mantida por Freixo corre muito risco. Ao contrário de adversários diretos, Jandira e Pedro Paulo, ele não cresceu em relação à pesquisa anterior, manteve os mesmos 11% (Jandira oscilou de 7% para 8% e Pedro Paulo subiu de 5% para 8%). Ao rejeitar uma aliança com o PT (corroído por escândalos e, até outro dia, aliado de Paes) o Psol reforçou seus princípios, mas deixou seu candidato com pouquíssimo tempo de TV.

Na pesquisa anterior, Pedro Paulo era conhecido por 66% dos eleitores, nesta, pulou para 78%. Freixo ficou empacado, era e é conhecido pelos mesmos 78%. Jandira, que disputa com o candidato do Psol o voto da esquerda, é conhecida por 91% dos eleitores.

Freixo é atacado em duas frentes. Por um lado, enfrenta Pedro Paulo, apoiado por uma boa campanha na TV e pelas máquinas da prefeitura e do PMDB. Um candidato que é apresentado como o principal gestor da administração Paes mas que, ao mesmo tempo, tem que rebolar para convencer o eleitor que não tem nada a ver com o PMDB que afundou o estado.

A possibilidade de crescimento de Jandira não pode ser desprezada. Aliada ao PT, ela assumiu o discurso de que DIlma Rousseff sofreu um golpe e se apresenta como a principal alternativa de oposição a Michel Temer - aposta que, até o início de outubro, o desgaste do peemedebista só vai aumentar e se posiciona para receber o voto de protesto.

Há 30 anos na política, Jandira tem muito mais intenções de voto que Freixo entre os eleitores mais pobres e menos instruídos. Dos que têm apenas Ensino Fundamental, 11% ficam com ela, contra 6% dos que preferem Freixo (Crivella tem 40%, Pedro Paulo, 9%).

Entre os que recebem até dois salários mínimos, Jandira é a preferida de 10%, contra 6% de Freixo (Crivella, 37% e Pedro Paulo, 9%). O candidato do Psol supera de longe a do PCdo B entre cidadãos com nivel superior (21% a 7%) e com renda superior a dez salários mínimos (20% a 9%) - o problema é que esses segmentos são minoritários na sociedade carioca.

Outro ponto importante que pode revelar uma tendência. Em relação à última pesquisa, o apoio a Freixo entre eleitores com escolaridade superior caiu (era de 25%), já a preferência por Jandira subiu (era de 5%).

A pequena diferença de intenções de voto entre Freixo e Jandira dificulta também que eleitores de esquerda optem pelo voto útil, uma indecisão que tem tudo para asfaltar o caminho de Pedro Paulo na direção do segundo turno.


Deu bode no concerto do Elomar

separador Por Fernando Molica em 12 de setembro de 2016 | Link | Comentários (2)

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O compositor e cantor Elomar provocou alguns aplausos, muitas vaias e um coro de 'Fora Temer' no encerramento de seu concerto, na noite deste domingo, na Sala Cecília Meireles.

Ao final da apresentação, que contou com a Orquestra Sinfônica Nacional da Universidade Federal Fluminense, Elomar, aplaudido de pé, fez agradecimentos e recitou trechos do Hino à Bandeira. Em seguida, afirmou que a bandeira nacional jamais seria vermelha.

A declaração gerou poucos aplausos que, em seguinda, foram sufocados por vaias. Logo depois, a maior parte do público iniciou o grito de 'Fora Temer'. O músico, que é fazendeiro e cria bodes no interior da Bahia, evitou novas declarações de teor político e, em seguida, deixou o palco.


As vaias e o risco de Temer

separador Por Fernando Molica em 08 de setembro de 2016 | Link | Comentários (0)

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A manutenção da agenda de protestos contra o novo governo e a aparente popularização das vaias, do 'Fora Temer' e da alcunha de 'golpista' evidenciam um obstáculo que, lá atrás, quando a campanha pelo impeachment foi intensificada, o presidente e seus aliados fingiram ou preferiram não ver.

Um problema que foi gerado pelo processo de deposição da Dilma e que tem potencial para atravancar a agenda de reformas cobrada pelo PSDB e por entidades empresariais. Como, em tese, não é candidato à Presidência em 2018 e, portanto, pode se lixar para os índices de popularidade, o presidente tem como cumprir os compromissos assumidos com aliados e mandar o pacote para o Congresso.

A questão é saber se deputados e senadores, que não estão surdos às vaias e aos protestos, e têm sempre os olhos voltados para a disputa de novas eleições, vão aprovar medidas que dificultam a aposentadoria, flexibilizam a legislação trabalhista e cortam verbas para saúde e educação.

Atentos ao que se passa nas ruas, os parlamentares sabem que a parte - bem expressiva - da população que gritou contra a corrupção e apoiou o Fora Dilma/PT não sabia que a deposição da presidente implicaria na aplicação de um programa de governo como o que vem sendo alardeado.

Um programa que nunca foi submetido ao voto popular e que é bem mais duro que o anunciado, em 2014, pelo então candidato Aécio Neves, o mesmo que, hoje, diz que o empenho do governo na aprovação das medidas é essencial para que o PSDB mantenha seu apoio a Temer. Aécio quer que o peemedebista faça o que ele sequer ousou propor na disputa pela Presidência.

Os entusiastas do impeachment - políticos e diversos setores da sociedade - acharam que tudo se resolveria com a deposição de uma presidente impopular, filiada a um partido enrolado com casos de corrupção. Pareciam se mirar no exemplo da saída de Collor e a subida de Itamar Franco.

O problema é que Dilma não é Collor, o PT não é PRN e Temer não agiu como Itamar. Os articuladores do impeachment parecem ter acreditado que não haveria reação à derrubada da presidente, que seria fácil articular um governo de união após consumada a saída de Dilma. Não viram também que Temer, ao atuar como parte no processo, desqualificou-se como alguém capaz de construir uma pacificação como a de 1992.

Ao contrário do então vice de Collor, o peemedebista jogou em benefício próprio e não vacilou em, de maneira voluntária, fazer gol no time em que até então jogava, o comandado por sua companheira de chapa. Fez gol contra, correu pra abraçar a torcida adversária e, agora, não quer ser vaiado pela outra metade do estádio.

A chance de, com uma tacada, derrubar o PT e implantar, sem qualquer consulta ao eleitor, um programa muito duro de ajustes fez com que muita gente embarcasse na canoa no impeachment. Uma opção condenada, em março de 2015, por lideranças como o senador Aloysio Nunes Ferreira (PSDB-SP) e o próprio Temer.

Nunes Ferreira:
"Não quero que ela saia, quero sangrar a Dilma, não quero que o Brasil seja presidido pelo Temer."

Temer: :
"O impeachment é impensável, geraria uma crise institucional. Não tem base jurídica e nem política."

Agora, consumado o impeachment, Temer, que foge de vaias e de telões dos estádios e sequer passa tropa em revista no 7 de Setembro, se vê numa encruzilhada: cumprir os compromissos assumidos e ver sua base explodir (até o Paulinho da Força se diz contra as mudanças na aposentadoria) ou meter o pé no freio e sofrer pesadas críticas de todos os que patrocinaram sua ida para a Presidência. Pior: sabe que sua manutenção no Planalto depende do julgamento de ações no TSE, tribunal presidido por Gilmar Mendes.

Arrisco dizer que o senador e o presidente devem estar avaliando se valeu mudar de opinião. Por último: num erro com cara de ato falho, a organização da Paralimpíada identificou Temer, na transmissão oficial, como presidente em exercício ('acting president') do Brasil.


Woody Allen e o filme que nunca termina

separador Por Fernando Molica em 06 de setembro de 2016 | Link | Comentários (1)

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Sempre encarei os filmes do Woody Allen como partes de um grande e longuíssimo filme, quase que como movimentos de uma sinfonia. Trechos independentes que guardam relação com os demais; que, aqui e ali, repetem uma linha melódica, uma frase, uma sequência de notas.

Tenho até dificuldade de, em muitos casos, identificar o filme que narra esta ou aquela história, de apontar personagens e fatos de uma sucessão de cenas e histórias que parecem tratar quase sempre de um mesmo sujeito, aquele desajeitado, feioso, intelectual nova-iorquino em seu eterno conflito com o mundo, com seus amores e com a tradição cultural-religiosa de sua família.

Um cara que, por não saber de onde veio e para onde vai, quebra nosso galho e
nos fornece uma espécie de trilha, uma quase bengala existencial - viemos de seu último filme, vamos em direção ao próximo. Allen se oferece quase como um bode expiatório, melhor rir de suas dúvidas e angústias do que das nossas. Mas sabemos que rimos de nós mesmos.

Muita gente boa tem desgostado de 'Café society', o recém-lançado filme do Allen. Quando a sessão terminou, quase entrei no coro dos descontentes. Mas, depois, caminhando pra casa, fiquei triste ao me dar conta que este pode ter sido o último filme do diretor a quem devoto a maior de minhas fidelidades cinematográficas, fã de carteirinha que vê nos seus filmes algo mais significativo da passagem de um ano que os fogos de Copacabana. Que este longa-metragem seja apenas o fim de um ciclo.

O filme é quase uma colagem dos outros filmes do cara. Está lá o jovem sensível e apaixonado que faz o papel (o mesmo papel) outrora interpretado por Woody Allen, mais uma vez o diretor escalou um ator para interpretar o personagem que se confunde com ele mesmo. Está lá a mocinha bonita que fica deslumbrante quando a vemos pelos olhos do protagonista, e não há como deixar de fazê-lo. Estão lá os conflitos e os estereótipos de uma família judia de classe média baixa e a violência caricatural dos mafiosos.

Tem Central Park, tem até a ponte do Brooklyn, agora em cores, mas aquela mesma ponte em que o Allen-ator, em nosso nome, namora a linda adolescente Mariel Hemingway, aquela que lhe daria um toco de sensatez e de maturidade. A referência ao outro filme é explicitada também pela música que embala as imagens da ponte: 'Manhattan', título do longa que nos fez torturar cotovelos em mesas infestadas de pregos.

Coletânea improvável das obras de Allen, 'Café society', aos poucos, parece demonstrar que não tem uma história, mas várias tentativas inconclusas de um enredo, apresenta várias e tantas possibilidades para, no fim das contas, chegar a um impasse.

Muitos apontam nesta aparente falta de rumo a principal fragilidade do filme. Discordo. Prefiro achar que, neste fim de ciclo, Woody Allen tenha resolvido voltar à origem de tudo, de todos, ao início e ao fim de todas as histórias. Retornou àquela velha e sempre boa história, que trata das situações, acertos e erros que unem e desunem um homem e uma mulher, o eterno e irresolvível conflito entre o que foi e o que poderia ter sido.

No fim, do filme e das contas, nenhuma história termina, chega a um desfecho absoluto e definitivo. A obra e a vida não se fecham, permanecem abertas, os créditos finais servem também para ressaltar o início de um novo enredo.


Aécio, Gilmar e o fim das ações do PSDB contra a chapa Dilma-Temer

separador Por Fernando Molica em 05 de setembro de 2016 | Link | Comentários (0)

Alguns setores da política brasileira parecem jogar por música, tamanha a afinação que demonstram ter. Desta vez, a sincronia - coincidência, claro - é entre o senador Aécio Neves (PSDB) e o ministro Gilmar Mendes (Gilmar Sempre Ele Mendes, como diria o querido amigo Ancelmo Góis).

A Globonews divulgou há pouco que Mendes determinou que seja enviado ao TSE o processo no Senado que aprovou o impeachment de Dilma Rousseff.

Segundo a repórter, o tribunal vai avaliar se a condenação não gerou a perda do objeto das ações do PSDB que pedem a cassação da chapa Dilma-Temer. Neste caso, a ameaça que paira sobre Temer iria pelo ralo e os processos seriam mandados para o arquivo.

Ontem, na entrevista que foi manchete do 'Globo', Aécio cantou essa mesma pedra que pode levar ao fim dos processos (quando li, achei a declaração meio esquisita).

Ao responder sobre os processos no TSE - a repórter Júnia Gama perguntou se as responsabilidades de Dilma e de Temer deveriam ser separadas -, o senador disse:

"Não sei fazer esta avaliação. Há pessoas que avaliam que ele não tem essa responsabilidade. Alguns diziam que os efeitos cessariam no momento do afastamento da presidente."

A solução acabaria com um paradoxo vivido pelo PSDB, que integra um governo que tenta derrubar na Justiça.

A íntegra da entrevista está aqui.


Pitacos municipais 6 - Paes e a imagem de Paes

separador Por Fernando Molica em 05 de setembro de 2016 | Link | Comentários (0)

Eduardo Paes usou o Twitter para reclamar de Marcelo Crivella - o candidato do PRB tem dito que o prefeito priorizou obras na Zona Sul. "Me conta quais, Bispo", provocou o chefe do executivo municipal.

O problema de Paes é uma palavra - percepção - que costuma aterrorizar os melhores marqueteiros. A insistência com que Crivella toca no assunto permite supor que pesquisas qualitativas indicam que boa parte do eleitorado identifica o prefeito com o universo da Zona Sul.

Este tipo de percepção complica a vida de muita gente: o PT do Rio, apesar do discurso favorável aos pobres e oprimidos, era visto como um partido representante de uma determinada elite, aquela que circula entre a Tijuca e Botafogo e tem Laranjeiras como capital. A última pesquisa do Ibope demonstra que o mesmo problema afeta a candidatura de Marcelo Freixo (Psol), que tem baixíssimos índices entre os mais pobres.

Usando o mote daquela velha e racista marchinha de Carnaval, a cara e o jeito de Paes não negam que ele - branco, alto, meio louro, ex-aluno da PUC - é filho da área mais privilegiada da cidade. A entrada na política pelas mãos de Cesar Maia e a ligação com Sérgio Cabral também reforçam a imagem de quem tem compromissos com uma elite política e, como diria Elio Gaspari, com o andar de cima da pirâmide social.

O prefeito tenta desconstruir esta imagem. Procura reforçar sua identificação com o universo do samba (não há como duvidar de sua preferência pelo nosso mais importante gênero musical), não perde a chance de listar as obras feitas nas zonas Norte e Oeste da cidade.

Seria injusto dizer que ele priorizou a Zona Sul; de obras relevantes nesta área da cidade só consigo me lembrar da ciclovia, a que caiu. Mas os diversos casos de remoções de habitações populares e episódios como aquele em que o prefeito - homem branco, representante da elite - sugeriu a uma cidadã - negra, moradora de favela - que trepasse muito acendem uma espécie de luz amarela na cabeça de muitos e muitos cariocas.

Nesses casos, parece aflorar um sinhozinho que teima em habitar um canto da alma de Paes. O mesmo sinhozinho que sugeriu ao prefeito que, na inauguração da primeira leva de obras no Porto, discursasse ao lado de um ator caracterizado de Pereira Passos, prefeito que modernizou a cidade e aprofundou sua segregação ao remover milhares de pessoas que viviam no caminho da futura Avenida Central, hoje, Rio Branco.

Vivemos, numa cidade hierarquizada pela própria natureza, marcada por profundas diferenças sociais e por constantes e infindáveis manifestações de preconceito. O Rio, que, como frisou a Flávia Oliveira em artigo no 'Globo', guarda toda a desigualdade do mundo.

Moradores de subúrbios, de áreas mais pobres da cidade, conhecem muito bem o peso da discriminação, sabem como o CEP de suas casas determina a maneira como são vistos. Evangélicos, que estão no foco de Crivella, também são muito sensíveis ao discurso do preconceito. Apesar de sua força social e política, consideram-se discriminados, incompreendidos, repetem o discurso de que, como Jesus, são vítimas de um poder dominante.

Arrisco dizer que, apesar de todas as obras nas áreas pobres da cidade, Paes continua a ser visto pela elite como um dos seus. Os investimentos além-túnel (expressão que demonstra a força do preconceito entre nós) seriam encarados por seus companheiros de classe social como uma espécie de concessão necessária, um jeito de manter os pobres em seus devidos lugares.

Há uns três/quatro anos, testemunhei, numa livraria do Leblon, numa fila de lançamento de livro, uma mulher de uns 70 anos dirigir-se ao prefeito para reclamar da construção da estação Nossa Senhora da Paz do metrô. Alegou que, depois de inaugurada, a obra levaria "aquele pessoal" - os pobres de sempre - para Ipanema.

Constrangido, Paes saiu-se muito bem. Ressaltou que a obra era do governo estadual e que, caramba, a cidade era de seus moradores, todos tinham o direito de ir a qualquer lugar. Mas a corretíssima resposta não elimina o fato de que a tal moradora teve confiança de reivindicar algo tão absurdo. Fez isso por achar que Paes era um dos seus, jamais teria coragem de falar algo assim para o Lula. Guiou-se por sua percepção, pela identificação simbólica do prefeito com uma determinada classe social. A mesma percepção que Crivella procura estimular.


Negócios da China - Lá foi o Temer na ponta do pé

separador Por Fernando Molica em 04 de setembro de 2016 | Link | Comentários (1)

A julgar por sua decisão de comprar sapatos e brinquedo chineses, Michel Temer ainda não entendeu bem que presidente da República é também embaixador e defensor dos produtos e serviços feitos em seu país.

Como ressaltam reportagens publicadas nesta manhã, sapatos e brinquedos chineses tiveram um papel fundamental no desmonte da indústria brasileira a partir dos anos 1990. A fabricação de calçados na China é resultado direto do esvaziamento da mesma atividade no Brasil - fábricas que empresas multinacionais mantinham no Rio Grande do Sul foram transferidas lá para o outro lado do mundo.

Lembrei que, há alguns meses, convidado para participar de um evento no México, tive que viajar pela American Airlines e fazer conexão em Miami. Achei esquisito, já que a Aeromexico opera no Brasil, seria muito mais simples pegar um voo direto.

Fui apurar a história e descobri: um dos patrocinadores do evento era uma entidade norte-americana, que exige a compra de serviços de empresas da terra do Obama (o hotel em que fiquei pertencia a uma rede com origem nos Estados Unidos).

Essa historinha envolve um país que, da boca pra fora, tanto bate na tecla do liberalismo, prega a liberação dos mercados, a existência de um comércio livre das amarras nacionais. Um país que sabe muito bem defender seus interesses.

Enquanto isso, o Temer, que recebeu do empresariado nacional apoio absoluto para derrubar a Dilma e chegar à Presidência, resolve, escondido, na ponta do pé - a história vazou graças à imprensa chinesa -, dar uma força à indústria de um país que tanto contribuiu para tirar empregos e capitais do Brasil. Lig lig lig lig lig lig lé!


O presidente biônico

separador Por Fernando Molica em 01 de setembro de 2016 | Link | Comentários (2)

Michel Temer deixou de ser um presidente interino para se transformar num presidente biônico. Repete assim a trajetória dos senadores sem-voto que, na ditadura, enriqueceram nossa coleção de casuísmos políticos.

Em 1977, preocupado com a repetição da derrota eleitoral de 1974, quando o MDB conseguira 16 das 22 vagas em disputa para o Senado, o general-presidente Ernesto Geisel fechou o Congresso e baixou o que seria conhecido como o Pacote de Abril. Entre as medidas, a que transformava em indireta a escolha de metade dos senadores em 1978, quando cada estado elegeria dois representantes.

Os senadores sem-voto seriam eleitos por colégios eleitorais formados pelas assembleias legislativas e por representantes de câmaras municipais, mecanismo que permitia ao governo saber o resultado da partida antes mesmo de seu início. Os escolhidos para receber o cargo de senador foram logo apelidados de "biônicos", referência à série 'O homem de seis milhões de dólares', em que o ator Lee Major interpretava Steve Austin, um astronauta que, depois de um grave acidente, teve o corpo reconstituído graças à implantação de dispositivos eletrônicos que aumentavam sua força.

Apesar da existência, na época, de uma confraria de biônicos - presidente, governadores e prefeitos das capitais e de algumas outras cidades eram escolhidos pelo voto indireto - a ditadura inovava ao levar a mesma lógica para o Poder Legislativo. Uma ditadura que prezava as aparências, ao longo de seus 21 anos, manteve eleições, insistia que não deixava de cumprir a Constituição, ainda que esta pudesse ser modificada sem consulta ao Congresso. Havia uma "democracia relativa", como a definiu o próprio Geisel.

Muitos poderão alegar que Temer não se encaixa no figurino de biônico por ter sido eleito juntamente com Dilma. O problema é que ele, ao integrar a chapa, comprometera-se com um determinado programa. Um ano depois da reeleição, o peemedebista, já engajado na destituição da titular, apresentou uma outra proposta de governo. Para ficar na lógica do homem-máquina: o hardware, o próprio Temer, era o mesmo; mas o software tinha características opostas às do original. A programação foi toda mudada.

Ao conspirar de forma aberta contra a então presidente, Temer rompeu com a chapa e com os eleitores que haviam votado num determinado programa. Agiu como o Hal, o computador de '2001, uma odisseia no espaço' que se rebelou contra os astronautas, seus parceiros de viagem.

O processo que levou à defenestração de Dilma não foi exatamente um impeachment - desde o início ficou claro que, mais do que afastar a presidente, havia a proposta de se implantar um novo programa de governo. Temer, ao contrário de Itamar Franco no caso Collor, não agiu como o substituto constitucional da presidente, mas como seu adversário.

Ele transformou rito do impeachment em campanha eleitoral, fez do Palácio do Jaburu um comitê para receber deputados e senadores que viabilizariam sua ascensão ao Planalto. Prometeu, negociou cargos, assumiu compromissos em troca de votos - agiu como quem disputava uma eleição indireta.

Na última quarta-feira, 27 anos depois da primeira eleição direta para presidente depois da ditadura, o plenário do Senado - o mesmo que recepcionou os biônicos - não recebeu os encarregados de julgar Dilma, mas os integrantes de um colégio eleitoral como aqueles que, há algumas décadas, ungiam governantes e senadores. O programa de Temer, assim, chega ao Palácio do Planalto com o voto de apenas 61 pessoas, técnicos que aprovaram o projeto do novo ciborgue.


BG
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