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Pontos de Partida, o Blog do Fernando Molica

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Os grandes vencedores

separador Por Fernando Molica em 31 de agosto de 2016 | Link | Comentários (0)

O grande vencedor de hoje não foi Michel Temer, quem faturou a medalha de ouro foram os integrantes da base de apoio do novo presidente da República. Nos próximos dois anos e três meses, Temer terá que cuidar muito bem daqueles que lhe entregaram a Presidência da República, políticos que, como a maioria dos colegas, costumam ser insaciáveis por cargos e diversas outras vantagens.

A manutenção, com o apoio de 12 senadores do PMDB, dos direitos políticos de Dilma, gerou uma crise no grupo que chegou ao poder e apontou uma espada na direção do pescoço de Temer. A lâmina que cortou a petista continua afiada, pronta pra fazer uma nova vítima. Deputados e senadores sabem que, agora, são os donos dos mandatos dos presidentes da República, eles têm força. Renan Calheiros fez questão de mostram quem está com a faca na mão.

A exceção aberta no caso Dilma abre também a possibilidade de uma absolvição parcial de Eduardo Cunha, o que complicaria o discurso de moralidade que ajudou a mobilizar milhões de brasileiros.

A vida promete ser dura para o novo presidente. Terá que rebolar muito para não ser atingido pelas diferentes balas disparadas na sua direção. Grupos econômicos e empresariais que apoiaram sua ascensão vão cobrar a implantação de medidas duras que enfrentarão muita resistência no Congresso.

Ao contrário de Temer, deputados e senadores voltarão a disputar eleições, alguns em outubro, quase todos em 2018. As generosas medidas anunciadas nos meses de interinidade foram um sinal de que ele não parece assim tão animado a segurar dinheiro. Dizem por aí que ele será contra o aumento dos ministros do STF, um reajuste que gera muitos impactos no funcionalismo. Será mesmo que ele, ameaçado de perder seu mandato no TSE, vai mesmo brigar com o Judiciário?

Pouco depois da concretização do impeachment, Aécio Neves já dizia que o apoio do PSDB a Temer seria mantido caso ele cumpra sua agenda econômica. Ou seja, já tem pronto o discurso para o desembarque do governo, o mesmo governo que seu partido tenta derrubar no TSE (tucanos são autores do processo que pede a cassação da chapa Dilma-Temer). O PSDB também não quer correr o risco de ver o PMDB renovar, em 2018, sua permanência no Planalto. A aliança tem prazo para acabar.

É preciso também ver como a população vai reagir a propostas como as de reformas da previdência e da legislação trabalhista e de desvinculação das aposentadorias do salário mínimo. Temer terá que encarar com firmeza mobilizações sindicais. Setembro é o mês de discussão de reajustes dos metalúrgicos do ABC e, em todo o país, dos petroleiros e dos bancários. Já há uma greve de bancários sendo articulada para a semana que vem.

A viagem à China servirá também para Temer avaliar como a comunidade internacional recebeu o impeachment de Dilma, medida muito criticada por importantes jornais da Europa e dos Estados Unidos. O presidente que fugiu das vaias no Maracanã e deu bolo no primeiro-ministro do Japão, terá, agora, que convencer líderes estrageiros da sua legimidade no cargo.

O novo presidente também enfrentará uma oposição que considera aviltada, atingida pela deposição de Dilma. O discurso da ex-presidente, que voltou a vestir vermelho, deixou claro que ela e o PT não aceitarão a derrota no Congresso. Não pretendem dar por encerrada a guerra iniciada pelo PSDB e pelo ex-aliado PMDB.

Ao cumprir todo o rito do impeachment, ao comparecer ao Senado e enfrentar mais de 12 horas de interrogatório, Dilma reforçou a imagem de lutadora, de vítima de uma injustiça. O PT perdeu a Presidência, mas pode exibir o discurso do golpe e tratará, até de 2018, de gritar Fora Temer. A ex-presidente não deixará de dizer que foi traída por aquele escolhido para ser seu vice. Ela pode, agora, ser o que nunca foi, uma líder política. Alguém que, ao contrário do seu sucessor, ainda tem o direito de concorrer a cargos eletivos.

A postura assumida por Temer durante o processo de impeachment complica qualquer tentativa de pacificação. Ele, ao contrário do Itamar Franco no caso Collor, conspirou de forma aberta pela derrubada de sua companheira de chapa. Vai ser difícil conseguir compromisso de paz com aqueles que, de maneira ostensiva, tratou de derrotar.
Ainda não acabou: de acordo com a ex-subprocuradora-geral da República, Temer está sendo delatado, envolvido por colaboradores da Justiça em denúncias de corrupção. Não apenas ele, mas muitos de seus aliados estão na mira da polícia, do MP e da Justiça. E não será bom se o novo presidente tentar, de alguma forma, atrapalhar as investigações.

O vice se mostrou competente na articulação da derrubada de Dilma, agora terá que mostrar capacidade de governar e de se equilibrar num poder que, agora, demonstrou toda a sua fragilidade.


É a dialética, estúpido

separador Por Fernando Molica em 31 de agosto de 2016 | Link | Comentários (0)

A presença de Collor no julgamento da Dilma e seu provável voto pelo impeachment são exemplares do que foi a política de alianças implantada pelos governos petistas.

A lógica de flexibilização - ideológica e moral - que permitiu a ascensão do petismo é a mesma que, ao que tudo indica, vai sacramentar sua deposição da Presidência. Meu bem, meu mal - é a dialética, estúpido, como diria aquele assessor do Clinton.

O PT, que teve atuação fundamental no impeachment de Collor, achou que, com alguns rapapés e favores (apenas suponho que estes tenham ocorrido), o ex-presidente e hoje senador esqueceria o passado, viraria um aliado, amigo de fé, irmão, camarada.

O mesmo serve, em diferentes graus, para outros companheiros de ocasião, que, na hora H, sacramentam seus compromissos com princípios (e, mesmo, ausência de princípios) que sempre justificaram sua atuação política (Maluf, que recebeu Lula em casa, votou pela admissibilidade do impechament).

No fim das contas, ficaram com Dilma os integrantes do PT e outros integrantes de partidos de esquerda, mesmo aqueles que, revoltados com o excesso de pragmatismo dos governos petistas, haviam migrado para outras organizações.

O esvaziamento de entidades como a CUT e a UNE, cooptadas pelos governos petistas, acabou sendo decisivo para a baixa mobilização popular em defesa de Dilma registrada nos últimos dias. Isto, apesar das anunciadas mudanças em leis previdenciárias e trabalhistas.

Agora, petistas se colocam como integrantes da Senzala que jamais foram aceitos pela Casa Grande. Sim, mas eles não podem ignorar que também cultivaram um projeto de poder que incluía esta aceitação.


O país que é este

separador Por Fernando Molica em 31 de agosto de 2016 | Link | Comentários (0)

"Uma coisa é um país,
outra um ajuntamento.
Uma coisa é um país,
outra um regimento.
Uma coisa é um país,
outra o confinamento."

Há muito tempo, eu era adolescente, tomei um baque quando peguei uma edição de domingo do JB e descobri que o 'Especial' - a 'Ilustríssima' ou o 'Aliás' de hoje - era todo ocupado por um poema, o espetacular 'Que país é este?', do Affonso Romano de Sant`Anna, de quem nunca tinha ouvido falar.

Lembro daquela manhã, do lugar em que estava, fazia sol. Lembro do momento em que comecei a ler aquela ousadia editorial do JB, poema-manifesto, musical, ritmado, enfático, afirmativo, peça de acusação, tentativa de remissão:

"Mas já soube datas, guerras, estátuas
usei caderno "Avante"
-- e desfilei de tênis para o ditador.
Vinha de um "berço esplêndido" para um "futuro radioso"
e éramos maiores em tudo
-- discursando rios e pretensão."

Um poema que, numa época de redemocratização, de esperanças, revolvia o passado para tentar apontar algum futuro. Um poema-panfletário que, três décadas depois, volta a ser atual.

"Há 500 anos caçamos índios e operários,
Há 500 anos queimamos árvores e hereges,
Há 500 anos estupramos livros e mulheres,
Há 500 anos sugamos negras e aluguéis."

Poemas-panfletos podem ser necessários e importantes, às vezes, é preciso gritar:

"Este é um país de síndicos em geral,
Este é um país de cínicos em geral,
Este é um país de civis e generais."
De vez em quando, é bom saber que alguém, com raiva, escreveu o que não tínhamos coragem, talento e ousadia para escrever.
"Este é o país que pude
que me deram
e ao que me dei,
e é possível que por ele, imerecido,
- ainda morrerei."
(...)
"Povo
não pode ser um séquito sem nome.
Povo
não pode ser o diminutivo de homem."

E, pra não dizer que não falei de flores, cito outro poema-manifesto, mais doce, igualmente cortante, o 'Pátria minha', do botafoguense Vinicius de Moraes:

"Não te direi o nome, pátria minha
Teu nome é pátria amada, é patriazinha
Não rima com mãe gentil
Vives em mim como uma filha, que és
Uma ilha de ternura: a Ilha
Brasil, talvez."


A nota e o programa de Temer

separador Por Fernando Molica em 30 de agosto de 2016 | Link | Comentários (0)

Em nota divulgada hoje, o Palácio do Planalto afima que o debate de ontem no Senado "gerou falsas acusações de retirada de direitos sociais, previdenciários e trabalhistas pelo Governo Federal aos cidadãos brasileiros".

Segundo a nota, não é verdade "que se debata a estipulação de idade mínima de 70 ou 75 anos aos aposentados; não será extinto o auxílio-doença; não será regulamentado o trabalho escravo; não há privatização do pré-sal e não se cogita revogar a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT)."

Lançado um ano depois da reeleição da chapa Dilma-Temer, o programa de governo do hoje presidente interino, o 'Uma ponte para o futuro', diz:

Previdência: "(...) é preciso ampliar a idade mínima para a aposentadoria, de sorte que as pessoas passem mais tempo de suas vidas trabalhando e contribuindo, e menos tempo aposentados." (...) "Preservando os direitos adquiridos e tratando com respeito as expectativas de quem ainda está no mercado de trabalho e já se aproxima do acesso ao benefício, é preciso introduzir, mesmo que progressivamente, uma idade mínima que não seja inferior a 65 anos para os homens e 60 anos para as mulheres, com previsão de nova escalada futura dependendo dos dados demográficos."

O texto não fala mesmo nas idades de 70 e 75 anos, mas diz que os pisos nao serão inferiores a 60 e 65 anos. CIta também em previsão de "nova escalada futura".

Legislação trabalhista: "(...) na área trabalhista, permitir que as convenções coletivas prevaleçam sobre as normas legais, salvo quanto aos direitos básicos".

Ou seja, não se fala em revogar a CLT, mas em fazer com que convenções coletivas tenham mais poder que a lei. A CLT continuaria a existir, mas seus efeitos poderiam ser revogados.

O documento fala ainda em desvicular a renda dos aposentados ao salário mínimo:

"(...) é indispensável que se elimine a indexação de qualquer benefício ao valor do salário mínimo. O salário mínimo não é um indexador de rendas, mas um instrumento próprio do mercado de trabalho. Os benefícios previdenciários dependem das finanças públicas e não devem ter ganhos reais atrelados ao crescimento do PIB, apenas a proteção do seu poder de compra."

Propõe também o fim da vinculação constitucional de verbas para saúde e educação:

"Para isso é necessário em primeiro lugar acabar com as vinculações constitucionais estabelecidas, como no caso dos gastos com saúde e com educação, em razão do receio de que o Executivo pudesse contingenciar, ou mesmo cortar esses gastos em caso de necessidade, porque no Brasil o orçamento não é impositivo e o Poder Executivo pode ou não executar a despesa orçada."

A nota do Planalto está correta ao dizer que o 'Uma ponte para o futuro', chamado de Plano Temer, não fala em regulamentar o trabalho escravo.

Curiosidade: o endereço, na página do PMDB, para o 'Uma ponte para o futuro' inclui as palavras "release" e "Temer".


Os sonhos que teimam

separador Por Fernando Molica em 30 de agosto de 2016 | Link | Comentários (0)

Há muitos anos, uns 20 ou 30, fui parar no velório e no enterro do Glauber Rocha. Fazia então uns frilas pra um jornal de cinema (que nunca me pagou) e era, com sempre serei, amigo-irmão do Sérgio Costa, filho da Ieda, prima do maior dos nossos cineastas, um dos nossos grandes intérpretes e profetas.

E aí, no enterro, Darcy Ribeiro, que escrevia certo por linhas alucinadas e tortas, desandou a falar de Glauber e do Jango. Falou que Jango tinha sido derrubado por suas qualidades, e não por seus defeitos. E passou a bola para a Maria Lúcia Godoy cantar a ária das Bachianas Brasileiras No. 5, obra de Villa-Lobos, um de nossos hinos nacionais.

Hoje - ontem -, lembrei de Darcy, de Villa-Lobos (tão criticado por meu bisavô Julio Reis), de Glauber, do Sérgio (como você faz falta, irmão querido). Lembrei do Brasil que sempre desejei e que nunca consegui ter. Lembrei dos sonhos de um país melhor, mais carinhoso, fraterno, tolerante e, principalmente, mais justo.

Hoje, ontem, lembrei de todos os sonhos que teimam.


A origem da suposta propina

separador Por Fernando Molica em 26 de agosto de 2016 | Link | Comentários (1)

O relatório da Polícia Federal que trata do indiciamento de Lula e da Marisa Letícia não esclarece um ponto fundamental: a razão de a PF bancar que as eventuais vantagens ilícitas concedidas ao ex-presidente pela OAS estão diretamente relacionadas aos escândalos na Petrobras.

A existência de ligação entre as tais vantagens e a estatal é que poderia justificar o fato de o inquérito - que apura fatos ocorridos em São Paulo - estar sendo conduzido na Superintendência da PF do Paraná, no âmbito da Lava Jato do juiz Sérgio Moro.

Ao incluir a investigação no guarda-chuva da Lava Jato, a PF e o Ministério Público definem o que querem encontrar - evidências da ligação de Lula com o Petrolão. Definem também que o caso ficará com o Moro.

A OAS é uma grande empreiteira, ao longo das administrações petistas, conseguiu obras na Petrobras e em outros órgãos/empresas do governo federal (participa, por exemplo de Belo Monte, integra o consórcio Invepar que tem como sócios fundos de pensão de estatais, tem contratos com o Exército e a Marinha).

Ou seja, a suposta propina paga a Lula poderia ser relacionada a qualquer outro contrato. Como o tal apartamento fica no Guarujá e os bens do Lula foram levados para São Paulo seria razoável supor que um inquérito seria aberto neste estado, e não no Paraná (ou no Rio, ou no Amazonas).

Para fazer a ligação entre Lula e a Petrobras, a PF transcreve trechos de uma manifestação do Ministério Público Federal que tenta estabelecer esta relação.

No documento, o MPF diz que, por conta da participação do ex-ministro José Dirceu no esquema da Petrobras, "não é
despropositado aventar a hipótese" de que outras pessoas "extrema importância econômica, funcionai ou política receberam vantagens indevidas oriundas da corrupção na PETROBRAS."

Outro trecho diz não ser "crível" que Lula "desconhecesse existência dos ilícitos".


42% dos cariocas reprovam Temer; aprovação é de 12%

separador Por Fernando Molica em 24 de agosto de 2016 | Link | Comentários (0)

Segundo pesquisa do Ibope, 42% dos cariocas reprovam o governo de Michel Temer: para 29%, a administração do presidente interino é péssima, 13% a classificam de ruim.

A taxa de aprovação é de 12%: 2% afirmaram que o governo do peemedebista é ótimo; 10% disseram que é ruim. Dos 805 entrevistados entre os dias 20 e 22 de agosto, 40% classificaram de regular a administração Temer, 6% não responderam à pergunta. A pesquisa foi feita entre os dias 20 e 22 de agosto.

Os índices relativos a Temer variam pouco por faixas de renda. Entre os que recebem mais de cinco salários mínimos, a administração do interino também fica em 42%. A reprovação é um pouco maior na faixa mais baixa, dos que recebem até um salário mínimo. Neste universo, 45% classificaram o governo de ruim (10%) e de péssimo (45%).

Na mesma pesquisa, encomendada pela Globo Comunicação e Participação e registrada no TRE com número RJ-06567/2016, o índice dos que consideram ótimo o governo de Francisco Dornelles foi de 0%. Dos entrevistados, 6% classificaram sua administração de boa. A reprovação chegou a 47% (ruim para 16% e péssima para 31%). Para 39%, a gestão do governador em exercício é regular.

As perguntas foram incluídas no mesmo questionário que avaliou intenções de voto para prefeito.


Pitacos municipais 5 - Freixo e Bolsonaro, os semelhantes

separador Por Fernando Molica em 24 de agosto de 2016 | Link | Comentários (1)

Segundo a pesquisa do Ibope, o candidato a prefeito do Rio preferido pelos integrantes da faixa de renda mais alta (renda superior a cinco salários mínimos) é o deputado estadual Marcelo Freixo, do Psol.

Entre esses eleitores, Freixo tem 20% das intenções de voto, contra 15% de Flávio Bolsonaro (PSC), 12% Marcelo Crivella (PRB) e 9% de Pedro Paulo (PMDB).

O candidato do Psol também sai na frente entre os que têm ensino superior: 18% contra 15% de Bolsonaro, 14% de Crivella, 7% de Jandira Feghali (PCdoB) e 6% de Pedro Paulo. Freixo demonstra ter herdado eleitores dos primeiros tempos do PT carioca, quando o partido tinha votos principalmente na Zona Sul e na Tijuca.

Apesar das diferenças ideológicas, eleitores de Freixo e Bolsonaro têm características parecidas - as intenções de voto em ambos são menores na medida em que diminuem renda e escolaridade dos entrevistados. No geral, o candidato do Psol tem 12% das preferências contra 11% do filiado ao PSC.

Entre os que estudaram até a quarta série, Freixo tem apenas 1% de votos, Bolsonaro, recebeu 4% - Jandira Feghali, do PCdoB, que com o candidato do Psol disputa os votos de esquerda, fica com 7%. Dos eleitores que recebem até um salário mínimo, Freixo tem 7%; Bolsonaro, 9%.

Crivella, líder isolado da pesquisa com 27% das intenções totais de voto, começa a disparar entre os eleitores com renda entre dois e cinco salários mínimos (29%, contra 12% de Freixo e de Bolsonaro) e com ensino médio (27%, contra 11% dos mesmos Freixo e Bolsonaro).

O senador do PRB cresce até chegar a 46% entre aqueles que cursaram até a quarta série do Ensino Fundamental e a 35% entre os que recebem entre um e dois salários mínimos (fica com 31% no universo de renda até um salário mínimo).

Empatados no cômputo geral no terceiro lugar, com 6% das intenções de voto, Jandira e Pedro Paulo têm desempenhos semelhantes em todas as faixas de renda e de escolaridade - o melhor resultado do peemedebista, 10%, é entre os eleitores com até um salário mínimo.

Jandira leva vantagem sobre Pedro Paulo entre as mulheres - 10% a 6%. No eleitorado masculino, ela tem a preferência de apenas 3%, ele cresce um ponto e chega a 7%.
E é também entre as mulheres que a candidata do PCdoB acirra a disputa com Freixo - entre elas, o candidato do Psol ficou com 11% das intenções de voto, contra 13% registrados no eleitorado masculino.

Entre os eleitores de 16 a 24 anos, o deputado do Psol chega a 22%, contra 32% de Crivella e 5% de Jandira.

A pesquisa indica que Pedro Paulo e Freixo deveriam tratar Jandira muito bem. Ela tem um eleitorado muito parecido com o do peemedebista e disputa com o candidato do Psol votos que podem ser decisivos na luta por uma vaga no segundo turno.

Indio da Costa, Carlos Roberto Osorio (PSDB) e Alessandro Molon (Rede) não chegam a se destacar em nenhum segmento. O máximo de intenções de voto do candidato do PSD é de 7%, entre eleitores de 45 a 54 anos.


As provas do Gilmar Mendes

separador Por Fernando Molica em 23 de agosto de 2016 | Link | Comentários (0)

Nesta terça, Gilmar Mendes classificou de "cretinos" aqueles que defendem medidas anticorrupção que incluem a validação de provas ilícitas - Sérgio Moro e o procurador da Lava Jato Deltan Dallagnol estariam, portanto, entre os cretinos.

Ocorre que, em março, o mesmo Gilmar Mendes validou uma prova obtida ilicitamente, a gravação da conversa entre Lula e Dilma, feita depois de encerrada a autorização para o grampo dada pelo Moro.

O ministro do STF validou a tal prova ao impedir a posse do ex-presidente na Casa Civil, medida que foi fundamental para sacramentar a aprovação do impeachment pela Câmara - Lula seria o encarregado de negociar a adesão dos deputados a Dilma.
Naquela ocasião, Mendes, segundo reportagem da Agência Brasil, foi claro ao se referir à gravação entre Dilma e Lula, aquela do "Bessias":


"A presidente claramente orienta Luiz Inácio Lula da Silva quanto à utilização do documento: 'só usa em caso de necessidade'. A tese de que a Presidência ficaria com o documento e só usaria se o empossando não fosse à cerimônia não se coaduna com o dito na conversa."
(...)
"Ocorre que a legislação de regência veda essa hipótese. Se Luiz Inácio Lula da Silva não estivesse presente na cerimônia de posse, duas consequências poderiam ocorrer: ou ele não tomaria posse - podendo fazê-lo a qualquer momento, no intervalo de trinta dias contados da publicação da nomeação - ou tomaria posse por procuração - caso enviasse mandatário com poderes específicos."


É absurdo mesmo legalizar provas obtidas ilicitamente, mas isso tem que valer o tempo inteiro. Não dá para falar que o país vive numa normalidade institucional quando um ministro do STF atua dessa forma. Não dá pra achar razoável que o Procurador-Geral da República suspenda uma delação premiada por conta do vazamento de uma informação que ele sustenta ser falsa - e que, por acaso, atinge um outro ministro do STF.

Se o vazamento é falso, que seja ignorado, que a revista seja responsabilizada, processada. O que não se pode fazer é usar o caso para, na prática, beneficiar os acusados pelo delator, um sujeito que nada tem a ganhar com um vazamento de informação falsa, muito pelo contrário.


Pitacos municipais 4 - A corrida com obstáculos de Pedro Paulo

separador Por Fernando Molica em 23 de agosto de 2016 | Link | Comentários (1)

A pesquisa Ibope que consolida o favoritismo de Marcelo Crivella (PRB) para uma das vagas no segundo turno (tem 27% das preferências) não traz boas notícias para o grupo político de Eduardo Paes, mas não dá pra dizer que a candidatura de Pedro Paulo (PMDB) esteja condenada a arder na pira olímpica.

A diferença entre os 27% que consideram o governo Paes ótimo ou bom e os 6% de intenções de voto em Pedro Paulo indica que muitos eleitores não conhecem o candidato e/ou não vêm nele um possível continuador das obras do atual prefeito. Ou seja, há uma boa margem de crescimento do peemedebista. que vai tratar de surfar na onda do sucesso da Olimpíada. No resumo da pesquisa disponível em sua página, o Ibope informa que 41% dos eleitores aprovam a administração de Paes e 56% a reprovam.

O problema é que a rejeição de 33% aponta que a suspeita de agressão à ex-mulher, embora arquivada pela Justiça, chegou aos ouvidos de muitos eleitores. O índice, superior à aprovação de Paes, é alto demais - comparável ao 35% dos manjados Marcelo Crivella (PRB) e Jandira Feghali (PCdoB) - para um candidato jovem, que nunca se candidatou a um cargo majoritário.

Neste pouco mês de campanha, Pedro Paulo, apoiado pelas máquinas do PMDB e da prefeitura, terá que acelerar feito um Usain Bolt. Será obrigado também a torcer para o eleitor mais conservador acredite que ele é o único capaz de bater Crivella no segundo turno - o quase empate no segundo lugar entre Marcelo Freixo (Psol), com 12%, e Flávio Bolsonaro (PSC), 11%, é interessante para o peemedebista, que pode ser visto como uma alternativa moderada a essas duas opções, à esquerda e à direita.

A situação se complicará para Pedro Paulo se Indio da Costa (PSD) e/ou Carlos Roberto Osorio (PSDB) - que têm índices de rejeição inferiores ao seu - demonstrarem algum fôlego. Ex-integrantes do governo Paes, poderiam se apresentar como seus continuadores.

Com pouquíssimo tempo de TV, sem garantia de que poderá comparecer aos debates e sem nenhuma aliança de peso, Freixo vai ter que lutar muito para se manter no segundo lugar. Precisa, desde já, apostar no voto útil e se mostrar como única alternativa da esquerda para chegar ao segundo turno.

Além da ameaça de Pedro Paulo, o candidato do Psol terá que disputar espaço com Jandira - seus 6% não a tiram do jogo - e, mesmo, com Bolsonaro, que tem chances de roubar da esquerda o título de candidato "contra tudo o que está aí".

A dobradinha informal feita em 2014 por muitos eleitores que votaram em Jair Bolsonaro (pai de Flavio) para federal e em Freixo para estadual revela a divisão esquerda-direita não é assim tão clara para um contingente respeitável da população, aquela que prioriza candidatos que tenham imagem de luta e de honestidade.

O curioso é que a soma das intenções de Freixo com as dos outros candidatos da esquerda - Freixo, Jandira, Alessandro Molon (Rede) e Cyro Garcia (PSTU) - garantiria, em tese, uma vice tranquila para o representante do Psol, embora ninguém possa apostar em algo assim tão automático e mecânico.

Indio (5%), Osorio (4%) e Molon (2%) têm um desafio bem mais complicado pela frente. Precisam, nesta campanha tão curta, definir suas imagens e mostrar viabilidade. Os dois primeiros, se pisarem fundo no discurso de oposição, correm o risco de serem questionados por conta da participação no atual governo. Molon, que deixou o PT, está ameaçado de ficar seu sem voto de esquerda e, ao mesmo tempo, não se mostrar confiável para o eleitor mais conservador. O risco do nem-nem é o pesadelo dos três.

Obs: Não tratei de um ponto importante, os danos que podem ser causados a Pedro Paulo pela crise no governo estadual. A sorte do candidato é que, ao contrário do que ocorre em relação ao PT, o PMDB não é visto como um partido unificado, também responsável por acertos e erros de seus filiados. Mas é claro que a oposição irá, o tempo todo, ressaltar que o deputado é do mesmo partido que Pezão e Cabral.


Pitacos municipais 3 - Uma fé que não tem nada de cega

separador Por Fernando Molica em 23 de agosto de 2016 | Link | Comentários (1)

Nem na escolha do papa deve se falar tanto em Deus como em eleições brasileiras. Professar de maneira pública a fé n'Ele virou uma espécie de quesito obrigatório para quem quer chegar a um cargo executivo.

No Rio, a situação chega a ser engraçada. Ligado de forma orgânica à Igreja Universal do Reino de Deus (denominação cujos maiores pecados demonstram ser mais terrenos do que espirituais), Marcelo Crivella (PRB) insiste em dizer que não mistura política com religião. Outro dia, chegou a posar ao lado de uma candomblecista, praticante de uma fé associada ao demônio pela denominação religiosa do senador.

Acossado pelos ecos da suspeita, arquivada pela Justiça, de ter agredido a ex-mulher, Pedro Paulo (PMDB) busca se mostrar católico, e tratou de, com a mulher e os filhos, de encarar a escadaria da Igreja da Penha e de participar ativamente de uma missa (participou tanto que o ato passou a ser questionado na Justiça eleitoral). A presença da esposa e dos filhos não foi gratuita - fé e família formam uma combinação ao estilo queijo com goiabada na visão dos marqueteiros.

Ter uma religião virou uma espécie de quesito obrigatório para os candidatos, uma espécie de certificação moral, algo que, em tese, os diferencia dos demais políticos. Em meio a tantos escândalos, um suposto aval divino daria um grau de legitimidade aos que apregoam sua crença. Isto, apesar dos tantos exemplos de políticos que ficariam muito mais à vontade se escalados no papel de mercador do tempo, aqueles que têm a Suíça como Jerusalém e que oram virados na direção de Genebra.

A manifestação de fé é também escaldada em alguns exemplos históricos, como o vacilo de Fernando Henrique Cardoso que, em debate ocorrido em 1985 na disputa pela Prefeitura de São Paulo, escorregou ao responder sobre sua crença em Deus e, assim, abençoou a eleição de Jânio Quadros.

A questão, porém, é mais grave. O culto aos candidatos de fé é estimulado por posições geralmente conservadoras apregoadas pelas igrejas, medidas que lideranças religiosas insistem em querer aplicar a toda a sociedade e não apenas aos seus integrantes de seus rebanhos.

Uma postura autoritária, que não leva em conta o caráter laico do Estado e ainda despreza evidencias: segundo o Censo de 2010, 86,8% dos brasileiros se dizem cristãos, é, portanto, lícito supor que estão neste grupo a maior parte das entre 650 mil e 850 mil mulheres que, segundo estimativas, anualmente recorrem a um aborto. Igrejas tentam impor à sociedade normas que sequer são cumpridas por seus integrantes.

A questão não tem a ver apenas com fé e interdições. O crescimento das bancadas religiosas nas casas legislativas fez com que igrejas conseguissem sucessivos benefícios fiscais. Há também outras benesses: no ano passado, a Prefeitura do Rio repassou R$ 6,660 milhões para atividades da Arquidiocese do Rio. O Conselho de Ministros do Estado do Rio de Janeiro, entidade de evangélicos, recebeu R$ 2,320 milhões.

Em 2008, o compromisso de Eduardo Paes em implantar o ensino religioso nas escolas foi decisivo para a conquista do apoio à sua candidatura pelo então arcebispo, d. Eusébio Scheid.

Como o que está em jogo numa eleição tem a ver com medidas a serem tomadas na Terra, e não no Céu, seria mais razoável não convocar Deus para uma briga em que Ele não pediu para ser incluído - detalhes da Bíblia não fazem parte do roteiro de perguntas dos debates, pelo menos, ainda não. E não custa lembrar a épica canção-manifesto de Sérgio Ricardo que encerra o espetacular 'Deus e o Diabo na terra do sol', de Glauber Rocha, "(...) a terra é do homem/ Não é de Deus nem do Diabo".


Rapido como quem rouba

separador Por Fernando Molica em 22 de agosto de 2016 | Link | Comentários (0)

Um texto bem legal do escritor e jornalista Marcus Veras sobre 'Uma selfie com Lenin':


"Em plena época de simultaneidade, compartilhamento e viralizações instantâneas, Fernando Molica pisa no freio e escreve uma carta à mão para contar a história de um jornalista que abandonou seus princípios. No seu curto mas incisivo "Uma selfie com Lenin", Molica expõe o lado perverso das assessorias de comunicação montadas para encobrir mal feitos e dourar reputações políticas. O personagem principal não dá muita sorte com mulheres, mas é exatamente esta característica que move o enredo, costurado com precisão até o delicioso final. E o contraste entre a lenta escrita da carta e a velocidade do avião onde o personagem viaja serve como metáfora para a nossa profissão, que se encontra em uma encruzilhada decisiva: a rapidez da internet acabou com a era das longas apurações? As respostas estão no futuro, no presente só mesmo as perguntas da excelente novela do jornalista e escritor."


Faixa exibida por Neymar não é permitida pelo COI

separador Por Fernando Molica em 20 de agosto de 2016 | Link | Comentários (0)

O Neymar e o Comitê Olímpico Brasileiro correm o risco de sofrer alguma punição pelo COI por conta da faixa sobre Jesus que o craque exibiu no pódio.

O terceiro item da Regra 50 da Carta Olímpica tem, entre outros objetivos, o de impedir manifestações religiosas:

O texto é bem claro.

"3. Não é permitida em qualquer instalação Olímpica qualquer forma de manifestação ou de propaganda política, religiosa ou racial."

Outros itens da tal Regra 50 tratam especificamente dos uniformes e equipamentos dos atletas. Como este aqui:

"1. Nenhuma forma de publicidade ou propaganda, comercial ou outra, pode aparecer sobre as pessoas, equipamento desportivo, acessórios ou, mais genericamente, em qualquer artigo de roupa ou equipamento utilizado por atletas ou outros participantes
nos Jogos Olímpicos, exceto para identificação - tal como definido no número 8 abaixo - do fabricante do artigo ou equipamento em questão, na condição de a sua identificação não ser marcada de maneira ostensiva com fins publicitários."

Foi com base nesta regra que as manifestações contra o Temer chegaram a ser proibidas no início dos Jogos - acabaram liberadas pela Justiça.


A melhor Casa da Olimpíada

separador Por Fernando Molica em 20 de agosto de 2016 | Link | Comentários (0)

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Entre tantas casas legais organizadas por países que disputam a Olimpíada, minha favorita é de longe, a Casa do Rio. Uma casa muito carioca, ampla, informal, aberta, supreendente, aconchegante e que fica ali na Praça Mauá. A casa é a própria Praça, que, recuperada pela prefeitura, foi assumida pela população.

A derrubada da Perimetral e a criação da orla que vai até a Praça 15 foram responsáveis por algo revolucionário, o resgate da importância do mar na história do Rio. É até engraçado que uma cidade tão ligada às suas praias tenha, ao longo dos anos, cortado sua ligação com a estrada que, ao longo de séculos, foi nossa única ligação com o resto do mundo.

Os sucessivos aterros, que viabilizaram a expansão de terrenos e a construção do porto e de avenidas, representaram a primeira etapa do divórcio entre o mar e o Centro. Acostumada a olhar para a baía, a cidade mudou a direção do olhar, que passou a ser direcionado para as suas ruas internas.

A poluição que matou tantas praias foi decisiva para selar a separação, aquele pedaço de mar tão cheio de beleza e de história passou a ser visto como um obstáculo, algo que atrapalhava o acesso a Niterói e às praias que ficam "do outro lado da poça" - sim, a Baía passou a ser chamada de poça..

A quebra do vínculo foi tão grande que, há algumas décadas, alguns defendiam a possibilidade de a fachada principal da Candelária ser virada para a Presidente Vargas - afinal, a igreja estava "de costas para a cidade". Um erro absurdo, a cidade é que virara de costas para o mar. Hoje, ninguém tem dúvida de que a Candelária está voltada para o lado certo.

Em torno daquele pedaço de mar os primeiros habitantes do Brasil construíram suas civilizações, foi por lá que chegaram os portugueses, os africanos escravizados e os franceses. Lá ocorreram batalhas que provocaram a fundação da cidade. Foi na Baía de Guanabara que desembarcou a corte que transformaria o Rio na capital de um reino europeu.

Naquelas águas, marinheiros tentaram acabar com a aplicação da chibata nos navios da Marinha. Aquele mar também foi palco da Revolta da Armada, contra os primeiros presidentes.

A orla batizada com o nome do ex-prefeito Luiz Paulo Conde (deveria se chamar João Cândido, mas tudo bem) é também um museu aberto - bem que a prefeitura poderia instalar ao longo do caminho placas que ressaltassem alguns dos fatos históricos que por lá ocorreram.

Reconciliada com sua história, a população carioca ocupou a Praça e faz a festa que tão bem sabe fazer. São muitas as festas, há a que rola diante do palco e as, perfumadas pelos cheiros do churrasquinho e do acarajé, que se espalham ao longo do porto e pelas ruas vizinhas até o Largo de São Francisco da Prainha.

Pra festa ficar completa é fundamental despoluir a Baía, devemos este presente às águas que nos batizaram.


O atletismo conta a nossa história na Terra

separador Por Fernando Molica em 19 de agosto de 2016 | Link | Comentários (0)

Por mais que algumas disputas pareçam monótonas - exceções para casos como os raios de Usain Bolt e o salto do Thiago Braz -, ninguém tira do atletismo o posto de esporte mais nobre da Olimpíada. Isto, não apenas por tradição, mas por uma característica especial desse conjunto de práticas. Correr, saltar e arremessar são atividades básicas do ser humano, remetem às técnicas básicas que nossos antepassados tinham que dominar para conseguir sobreviver num mundo tão cheio de ameaças.

João Saldanha costumava atribuir a excelência dos corredores quenianos a uma espécie de seleção natural - afinal, dizia, os avôs deles tiveram que correr de leões para não morrer. A brincadeira faz um certo sentido - num mundo hoje cercado de aparatos tecnológicos, o atletismo nos remete às limitações humanas e à necessidade que temos de superá-las.

Era preciso não apenas fugir de leões, mas correr atrás da caça, pular obstáculos, saltar, arremessar pedras e lanças - aqueles que nos antecederam tiveram que usar armas primárias para vencer inimigos ou matar animais. As modalidades do atletismo nos fazem lembrar de quem somos, de onde viemos, ilustram a luta pela vida, o embate entre um esboço de civilização e as ameaças da natureza.

A pira olímpica - que, desta vez, foi exilada do Estádio Olímpico - completava esse simbolismo, traz o fogo, elemento essencial para a consolidação do domínio do ser humano no planeta.

As disputas travadas no Estádio Nilton Santos, o Engenhão, são muito menos lúdicas do que atividades apresentadas em outros espaços da Olimpíada. Perdem, em especial, dos esportes coletivos que, ao longo de até duas horas, proporcionam ao espectador ilimitadas alternativas e emoções.

Não dá para comparar a repetição de movimentos do atletismo com a plasticidade do basquete, com a beleza da ginástica artística, com a precisão tática do vôlei, com as variações proporcionadas por um jogo de futebol.

Mas todas essas atividades vieram depois, são ampliações dos recursos enfatizados no atletismo. Este privilegia o básico, o essencial; os outros esportes apontam para a criatividade, para o prazer, para o que somos capazes de elaborar. Como no ditado que fala do pulo do sapo, tratam de boniteza enquanto, nas pistas de atletismo, homens e mulheres nos lembram do que é preciso e necessário, ressaltam a nossa origem e a luta pela sobrevivência.


A exclusão da democracia

separador Por Fernando Molica em 17 de agosto de 2016 | Link | Comentários (0)

É impressionante como políticos teimam em desqualificar a política. O Freixo, goste-se ou não dele, representa uma parcela importante da opinião pública do Rio de Janeiro. Deixá-lo de fora de debates de TV com base numa lei que contou com o apoio explícito do Eduardo Cunha não prejudica apenas o candidato e os simpatizantes do Psol, é algo que compromete a legitimidade de todo o processo político-eleitoral.

O mesmo vale para a Erundina, do mesmo Psol, em São Paulo. O mesmo valeria para o Bolsonaro caso o partido dele não tivesse os tais nove deputados federais exigidos pela nova lei.

Políticos - mesmo os piores, os mais safados, os mais corruptos - precisam entender que é preciso manter um mínimo de representatividade na prática política. Isto, até para que eles continuem a saquear o estado. Sem política não há políticos.

Os sucessivos atentados à credibilidade do regime representativo podem, num curto prazo, favorecer grupos que estejam no poder. Mas, logo ali na frente, tanto feitiço se voltará contra os feiticeiros, é só consultar qualquer livro de história. Os golpes no processo democrático alimentam a desconfiança do eleitor e estimulam a busca de soluções autoritárias.

As manifestações de 2013 e 2014 revelaram um profundo descrédito em relação ao quadro institucional do país. O processo de deposição de Dilma Rousseff aprofundou a radicalização e a intolerância, uma situação que não é favorável nem mesmo para os vencedores - as batatas que marcam sua vitória lhes chegam quentes, capazes de, logo depois da próxima curva da história, queimar carreiras e projetos.

Não dá pra vencer tudo no tapetão, não dá pra replicar iniciativas da ditadura com leis que, como o Pacote de Abril do Geisel, interferem no processo eleitoral. A democracia nos moldes como a conhecemos se baseia na representatividade do voto e no respeito ao resultado das urnas.

Esses, insisto, sucessivos atentados à representação política tendem a excluir do processo forças importantes que, defenestradas, podem se transformar até mesmo em ameaças ao jogo democrático. Na Colômbia, o extermínio de lideranças de esquerda e seu banimento do processo político-institucional tiveram peso decisivo na criação e fortalecimento da guerrilha algo que, por sua vez, gerou os grupos paramilitares.

Muitos políticos que, aqui no Brasil, colaboraram para o Golpe de 1964, tiveram suas carreiras interrompidas. Não se pode brincar com algo tão sério, há sempre o risco de muita gente desistir de participar da brincadeira.


As vaias e o paraquedas de Temer

separador Por Fernando Molica em 15 de agosto de 2016 | Link | Comentários (0)

Depois de se esconder na abertura da Olimpíada - seu nome não foi anunciado e sua imagem não apareceu nos telões do Maracanã -, Michel Temer, pelo que diz a 'Folha', não irá à cerimônia de encerramento do conjunto de competições.

Uma decisão tomada pelo medo de voltar a ser vaiado. Mais do que fugir das vaias, ele, arrisco dizer, tenta escapar do papel que exerce e dá munição para os que questionam a legitimidade de sua presença no Palácio do Planalto.

O problema maior não é o fato de ele ocupar a Presidência durante o afastamento, por enquanto provisório, da titular do cargo - esta é uma possibilidade prevista pela Constituição. O que compromete a presença de Temer no Planalto é o fato de ele ter conspirado de forma aberta para defenestrar sua companheira de chapa.

Ao apresentar, um ano depois de reeleito para o cargo de vice, um programa de governo (o documento 'Uma ponte para o futuro') em tudo diferente daquele apresentado por sua chapa, Temer rompeu o compromisso assumido com os eleitores, e passou a articular a derrubada de Dilma.

Temer transformou o impeachment de Dilma numa eleição indireta para presidente. Não se tratava apenas de afastar uma chefe de governo acusada de desrespeitar o orçamento, mas de empossar um político que se propunha a fazer o oposto do que, um ano antes, havia prometido fazer.

É inevitável comparar a atuação de Temer no impeachment de DIlma com a de Itamar Franco no processo que resultou no afastamento de Fernando Collor. O então vice-presidente não operou para derrubar seu companheiro de chapa, não ofereceu cargos em troca de votos - pelo menos, não de forma aberta. Ao assumir, sequer tinha nomes para seu ministério.

Seguro de sua legiltimidade na Presidência, Itamar não precisou se esconder e teve condições de fazer o gesto ousado de convidar o sociólogo Fernando Henrique Cardoso para o Ministério da Fazenda e de bancar o lançamento do Plano Real.

Fica a pergunta: como que um presidente que teme vaias e deixa de comparecer ao encerramento de uma Olimpíada realizada em seu país terá condições políticas de propor reformas da previdência e da CLT, mexer na remuneração de aposentados e, ainda por cima, retirar a obrigatoriedade constitucional de aplicação de determinadas receitas em saúde e educação? Vale lembrar que a população não foi chamada para opinar sobre essas mudanças tão radicais.

Na abertura da Olimpíada de Londres, um vídeo bem-humorado deu a entender que a Rainha Elizabeth II chegara ao estádio de paraquedas. Ao procurar fugir do público, das vaias e da própria imagem, Temer, de forma simbólica, assumiu que usou o mesmo artefato para aterrissar, não na Tribuna de Honra do Maracanã, mas na Presidência da República.

Obs: Mesmo vaiada e xingada na abertura da Copa, Dilma cumpriu seu papel e foi ao encerramento, no Maracanã, onde voltou a ser hostilizada. A Copa, vale lembrar, ocorreu meses antes da eleição presidencial.


Janot diz que Pedro Paulo não teve intenção de agredir ex-mulher

separador Por Fernando Molica em 15 de agosto de 2016 | Link | Comentários (0)

Ao justificar o pedido de arquivamento do inquérito contra o deputado federal Pedro Paulo Carvalho Teixeira, o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, afirmou que, segundo as provas que constam da investigação, o candidato do PMDB à prefeitura do Rio não teve intenção de, em 2010, agredir sua então mulher, Alexandra Marcondes.

Segundo ele, o deputado apenas procurou se defender das agressões de Alexandra.

A decisão de Janot foi revelada pelo blog às 18h30 desta segunda-feira. O arquivamento será decidido pelo relator do caso, ministro Luiz Fux, do Supremo Tribunal Federal. O documento pode ser lido aqui: STFPedroPaulo.pdf.

Janot afirma que, ao longo das diligências, "ganhou peso a tese defensiva no sentido de que as lesões verificadas em exame de corpo de delito a que foi submetida a suposta vítima seriam decorrentes de atitude defensiva do investigado".

Ou seja, o procurador concordou com a tese da defesa de que os ferimentos em Alexandra foram causados quando Pedro Paulo se defendia de agressões da então mulher.

Segundo Janot, o deputado só poderia ser denunciado caso fosse comprovada sua intenção de ferir a vítima: "Em outras palavras, é imprescindível não só a constatação de lesões no ofendido, como também que estas tenham sido provocadas pelo autor de forma dolosa. Não foi o que as provas dos autos revelaram no curso da instrução, mesmo após a realização de todas as diligências possíveis para a elucidação dos fatos aqui investigados", escreveu.

No relatório enviado ao STF, o procurador frisa que, ouvida na investigação, Alexandra "foi peremptória" ao negar ter sido agredida pelo então marido. Em seu depoimento, diz Janot, ela "atribuiu as próprias lesões a movimentos de defesa de Pedro Paulo, para repelir investidas da depoente contra ele".

Em trechos do depoimento reproduzidos no documento, Alexandra afirmou que, em meio a uma discussão provocada por ciúmes, chegou a dar tapas em Pedro Paulo que, para se defender, a empurrou "muitas vezes". Esses empurrões chegaram a fazer com que ela caísse e se machucasse. Insistiu, porém, que o deputado buscava se defender e que até tentou segurá-la.

Ao depor, Alexandra disse que prestara queixa de agressão por orientação de seu advogado. Ela, porém, afirmou não se lembrar do nome do profissional que lhe deu este conselho.

Em sua decisão, Janot cita também parecer de Roger Ancillotti, perito contratado por Pedro Paulo. O legista insistiu que o deputado tentou se defender da então mulher. Ancillotti frisou que, em 2010, Pedro Paulo também registrara queixa de agressão contra Alexandra.



PGR pede arquivamento de processo contra Pedro Paulo

separador Por Fernando Molica em 15 de agosto de 2016 | Link | Comentários (0)

Procurador-geral da República, Rodrigo Janot pediu o arquivamento do inquérito em que o deputado federal Pedro Paulo Carvalho Teixeira (PMDB), é acusado de agredir a ex-mulher.

A manifestação de Janot foi publicada há poucos minutos no site do Supremo Tribunal Federal.

Pedro Paulo é candidato à sucessão de Eduardo Paes na Prefeitura do Rio.

A decisão sobre o arquivamento do caso deverá caber ao ministro Luiz Fux, relator do caso. Mas o pedido de Janot deverá fazer com que a investigação seja encerrada.

Aqui, o registro da decisão do PGR no Inquérito 4199:

44497/2016 - 15/08/2016 - Procurador-Geral da República - manifesta-se pelo arquivamento da investigação.


Pitacos municipais 2 - Oposição se divide e ajuda Pedro Paulo

separador Por Fernando Molica em 15 de agosto de 2016 | Link | Comentários (0)

Candidatos de oposição ao cargo de prefeito do Rio parecem ter combinado entre si um jeito de ajudar o adversário comum, o deputado federal Pedro Paulo Carvalho Teixeira (PMDB), indicado por Eduardo Paes. A pulverização de candidaturas e a desistência de Romário (PSB) - ele deve ter sentido algo semelhante à velha e providencial fisgada na coxa de seus tempos de jogador - facilitaram a vida do peemedebista.

Além de Marcelo Crivella (PRB), favorito para conquistar uma das vagas do segundo turno, outros seis candidatos oposicionistas entraram na disputa. O complô informal para favorecer Pedro Paulo é efetivo até no aspecto ideológico, já que os oposicionistas conseguiram dar um jeito de deixar o peemedebista bem no centro, entre os dois extremos.

De um lado estão Marcelo Freixo (Psol), Jandira Feghali (PCdoB/PT) e Alessandro Molon; do outro, Carlos Roberto Osorio (PSDB), Indio da Costa (PSD) e Flavio Bolsonaro (PSC): à esquerda e à direita, três candidatos brigarão pela hegemonia dentro de seu campo ideológico, todos tentando tomar os votos dos outros, todos colaborando para dispersar os eleitores de cada lado.

A disparada inicial de Crivella também dificulta a vida desses concorrentes, já que o senador do PRB também se coloca como adversário da administração Paes. Os outros seis terão que convencer o eleitor que será melhor levar um segundo oposicionista para a decisão.

Pedro Paulo terá que enfrentar acusações de sete adversários, vai apanhar muito, mas correrá sozinho na condição de herdeiro de uma administração que, com todos os seus problemas, exibirá o provável saldo positivo da Olimpíada e uma série significativa de transformações urbanas.

Embora alvejado pela acusação de agressões à ex-mulher e prejudicado pela crise no Estado - também administrado pelo PMDB - , o indicado por Paes conta com a força das máquinas eleitorais do partido e da prefeitura.

Em 2008, Fernando Gabeira (PV) chegou ao segundo turno da disputa pela prefeitura com 25,61% dos votos. É provável que, por conta do favoritismo de Crivella e da pulverização dos outros votos de oposição, o percentual necessário para se chegar à fase final seja, desta vez, inferior ao registrado naquela disputa.

É razoável supor que o candidato da situação consiga, pelo menos, cerca 20% dos votos válidos numa eleição que - noves fora o impeachment de Dilma e a acusação que pesa sobre Pedro Paulo - vai, principalmente, julgar a administração municipal. O cidadão, tão disperso, e mesmo irresponsável, na escolha de candidatos a vereador e deputado, tende a ser pragmático ao definir seu voto para cargos executivos, a avaliar se sua vida, no caso a sua vida na cidade, piorou ou melhorou.

Há sempre a possibilidade de eleitores da oposição, diante da evolução das pesquisas, optarem pelo chamado voto útil. Trocariam assim um candidato do coração por um outro, do mesmo campo ideológico, que se mostre mais viável. Mas a campanha curta, serão apenas 35 dias de TV, tende a diminuir o espaço para esse tipo de decisão.

Por último: ao contrário do que foi registrado em outras eleições, todos os seis - sete, se Crivella entrar na conta - representam correntes definidas, nenhum deles pode entrar na categoria de folclórico ou de nanico. Muitos de seus partidos disputam 2016 de olho na formação de bases para 2018. É improvável, portanto, que algum desses seis candidatos abra mão de sua candidatura. A ajuda a Pedro Paulo deverá ser mantida até o fim.


BG
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