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Ressaca olímpica

em 25 de agosto de 2008

Combinemos (ou não, se vocês discordarem): ganhar medalha é legal, viva o Brasil, aquelas coisas todas. Mas ganhar medalhas só é legal mesmo se essas vitórias corresponderem a avanços sociais do país. Ou seja: um melhor desempenho esportivo deve ser conseqüência de melhores condições de vida da população.

Um povo que coma melhor, que estude direito, que tenha acesso a práticas esportivas terá, necessariamente, atletas de ponta que irão conquistar suas medalhas e seus patrocinadores. Traçar a conquista de medalhas como meta governamental é besteira, desperdício de esforços e de grana. Serve para alimentar patriotatas constrangedoras e para enriquecer dirigentes.

Dinheiro público para o esporte tem que ser direcionado para a prática esportiva de base, nas escolas, em associações de moradores, em escolas de samba, por aí. Jogar dinheiro público para patrocinar atletas de ponta é algo moralmente esquisito num país como o nosso. Até porque esporte de alto nível nem é bom pra saúde: faz um mal terrível. É só pensarmos nos joelhos da Daiane, da coleção de dores que acompanha o Oscar.

A prática esportiva é legal, ajuda a molecada a aprender limites, a respeitar regras; ensina que, de um modo geral, a recompensa vem depois de disciplina e esforço. Esporte praticado com alguma moderação e método é até saudável,daí que pode e deve ser estimulado na infância e na adolescência. Mas, insisto, um estímulo que deve ser compatível com a lógica de uso do dinheiro de todos nós.

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Oráculo de fardão

em 20 de agosto de 2008

Conversei há pouco com uma antiga e bem informada fonte acadêmica, alguém que já me ajudou muito na cobertura de eleições pretéritas na ABL. Ele acha que o Luiz Paulo Horta vence com facilidade, mas apenas no terceiro escrutínio.

Segundo ele, o Horta tem cartas-compromisso que lhe garantem 14 votos, seis a menos que o necessário para levar a eleição na primeira rodada. Três outras cartas levam votos misteriosos, que não são para o jornalista de "O Globo". O negócio é meio complicado: os eleitores, os próprios acadêmicos, podem mandar votos por cartas - o mesmo eleitor pode votar em diferentes candidatos em cada escrutínio. No máximo são realizadas quatro rodadas.

A tal fonte alinha outros três candidatos que podem ser votados: Antônio Torres, Ziraldo e Fábio Lucas. Acha que o pai do Menino Maluquinho não tem qualquer chance, andou brigando com acadêmicos por conta da história da bolsa-ditadura. E crava seu palpite no Horta (deixou clara sua preferência por este candidato).

No fim da conversa, porém, ele deixou escapar uma inquietação: tinha acabado de ver na TV um comercial de "O Globo", aquelas chamadas para a edição do dia seguinte. No comercial, foi incluída uma foto do Horta - um negócio meio sem sentido, a imagem entrava logo antes da chamada para a reportagem sobre a eleição na ABL (ilustrada, por sua vez, com uma foto do Petit Trianon). Minha fonte ficou preocupada, achou o negócio meio excessivo, alguns acadêmicos poderiam ver nisso uma certa arrogância - não do Horta, que fique claro, o cara é muito boa gente -, mas das Organizações. "Eles não deveriam ter feito isso. Os acadêmicos são meio esquisitos", concluiu.


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O voto do Bruxo

em 20 de agosto de 2008

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Os integrantes da ABL decidem nesta quinta quem vai ocupar a vaga de Zélia Gattai; a cadeira 23, que já foi de Machado de Assis. Fantasmas da Academia asseguram que há dois favoritos: o jornalista Luiz Paulo Horta e o escritor Antônio Torres, com alguma vantagem para o primeiro.

Quem conhece a ABL sabe que a instituição não se propõe a ser apenas uma casa de escritores, tem a ambição de reunir uma elite da inteligência nacional. Sim, exige que o postulante a uma cadeira tenha publicado, pelo menos, um livro. Mas não se define como uma reunião apenas de literatos: Nelson Pereira dos Santos está lá para provar isso.

Mas é claro que os escritores é que dão espírito e sentido à instituição. A credibilidade da ABL, tão abalada na ditadura, foi recuperada, em boa parte, graças à eleição de nomes como João Ubaldo Ribeiro, Ariano Suassuna, Ana Maria Machado, Moacyr Scliar e Nélida Piñon. Nas últimas duas décadas, a ABL voltou a respirar, recuperou prestígio e força.

Bem, sabe-se lá o que entra em jogo numa eleição pra Academia (volto a recomendar o excelente "Farda, fardão, camisola de dormir", do Jorge Amado). O Horta é um ótimo jornalista, articulista sóbrio, referência na divulgação e crítica da chamada música clássica. Mas o problema é que seu principal adversário, o Antônio Torres, tem muito mais a ver com a vaga. É um grande escritor, autor de alguns clássicos contemporâneos, traduzido e estudado em muitos países, vencedor dos prêmios Zaffari & Bourbon e Machado de Assis - este, oferecido pela própria ABL, pelo conjunto de sua obra.

Sei não: seria meio esquisito a Academia não eleger um vencedor de seu prêmio máximo, prêmio que leva o nome do fundador da Casa. Isso, no ano do centenário de Machado de Assis. Um acadêmico que vai se sentar na cadeira que foi d´Ele. Machado, tenho certeza, votaria em Torres.

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