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Eu e Cauby

em 17 de maio de 2016

Foi em 1990. Artistas de alguma forma ligados à bossa nova se apresentariam no Scala num show em benefício do Lúcio Alves. No elenco, entre outros, Tom Jobim, Caetano, Os Cariocas, Leny Andrade e Cauby Peixoto.

Eu e outros colegas da sucursal Rio da 'Folha' compramos nossos ingressos. Pouco antes de sairmos, o editor da 'Ilustrada', acho que era o Mario Cesar Carvalho, ligou e pediu que, no dia seguinte, eu fizesse um texto para o jornal. Um texto, não uma reportagem.

Aceitei, mas deixei claro que eu estava indo como espectador, não como jornalista. Faria lá minhas anotações, mas iria me divertir, beber - tinha me planejado para isso, comprara o ingresso, caramba. O show foi lindo, emocionante. Até o uísque, que não era lá essas coisas (Passaport, se não me engano), desceu bem.

Mas talvez eu tenha exagerado um pouco. Lembro que, ao sairmos, já quase na rua, vimos o Cauby passar por nós. Confesso que, em homenagem ao cara - que interpretara 'Conceição' e 'People' -, puxei o coro de "Cauby! Cauby! Cauby". Espero que ele tenha ficado feliz.

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O voto no Temer

em 17 de maio de 2016

Cidadãos favoráveis ao impeachment provocam os que são contra: alegam que estes, quando votaram na Dilma, também elegeram o Temer, logo, não podem reclamar de nada. O argumento faz algum sentido, mas há outras questões a serem levadas em conta.

1. A entrega da vice a um outro partido implica em concessões, legítimas (no caso, um governo mais ao centro) e ilegítimas (aquelas que a gente conhece). Mas, em tese, a chapa estaria unida em torno de um proposta de governo - e, em 2014, havia projetos muito bem definidos, a eleição adquiriu no segundo turno um viés ideológico claro, algo que contribuiu para o acirramento de paixões e para a divisão do eleitorado.

Outro dia, consultei no site do TSE o programa de governo da chapa Dilma-Temer. É um negócio bem genérico, muito voltado para as realizações de governos petistas. Mas é uma referência, algo que, com o eventual afastamento da presidente, deveria ser seguida pelo vice. Mas o programa que ele apresentou em outubro passado, o Uma ponte para o futuro, não tem nada a ver com o que ele ratificou em 2014 (e que nem vinha sendo assim tão respeitado pela Dilma).

O Plano Temer, como era chamado pelo Moreira Franco, é até mais radicalmente liberal que o defendido pela chapa Aécio-Aloysio. Fala em desindexação do salário mínimo de inativos, em idade mínima para aposentadoria, no fim da vinculação constitucional de verbas para saúde e educação. Quem votou em Dilma-Temer em 2014 não ratificou o programa que o então vice apresentaria um ano depois.

2. Votar na chapa que unia PT e PMDB incluía a possibilidade de permitir que Temer chegasse ao poder (políticos também ficam doentes, podem morrer no exercício do mandato). Mas ninguém imaginaria que o vice fosse trabalhar abertamente pelo impeachment da titular. Não dava para prever que, dez meses depois da posse, ele apresentasse um programa de governo voltado não para 2018, mas para 2016, para ser aplicado após a derrubada da presidente. É como se, lá atrás, o PFL de Antonio Carlos Magalhães tivesse se aliado ao impeachment de FHC tentado pelo PT. Isto para fazer com que o vice, o pefelista Marco Maciel, virasse presidente. Tucanos arrancariam suas penas e bicariam sem dó os ex-aliados caso isso tivesse ocorrido.

3. A história não costuma ser simples - a nossa, então, é complicada demais. Eleitores da Dilma são obrigados a reconhecer que votaram também no Temer, mas têm o direito de dizer que não votaram neste Temer, mas naquele que compartilhou uma outra proposta de governo, que jurou fidelidade à companheira de chapa e que parecia conformado no papel de vice decorativo.

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O impeachment e os gringos

em 13 de maio de 2016

Sempre achei que a visão estrangeira nos ajuda a entender o que se passa diante de nossos olhos viciados no cotidiano. Costumo pregar que um bom repórter deve também se comportar como um gringo que acabou de desembarcar por aqui - li que o Bob Kennedy, em 1965, numa visita à PUC do Rio, foi questionado sobre o racismo nos EUA. Ele então observou que não havia negros na plateia de estudantes. Muitas vezes, só alguém de fora consegue ver o óbvio, gritar que o rei está nu.

É preciso não considerarmos normais práticas que são corriqueiras, Ótimas reportagens foram resultado da adoção de uma perspectiva diferente da habitual, basta mudar de ângulo para perceber o estranho, o esquisito, o que está fora da ordem.

Não que devamos dar ao forasteiro o direito de nos definir, mas não podemos ignorar esses olhares externos. Editoriais - artigos que refletem a opinião dos jornais - publicados ontem e hoje por dois dos mais importantes jornais do mundo, The New York Times e El País, ressaltam os problemas do processo que levou Michel Temer ao poder.

Os dois editoriais vão na mesma direção, dizem que as características deste impeachment deverão piorar a nossa crise política. O NYT afirma que Dilma tem razão ao questionar os motivos de seu afastamento e a autoridade moral dos que a julgam, ressalta que ela foi eleita duas vezes e que a ira hoje direcionada à presidente afastada pode se voltar contra seus algozes.

Para o jornal espanhol, a destituição de Dilma "não soluciona nada e aumenta a instabilidade no país". Frisa que Temer não renunciou à vice-presidência quando seu partido decidiu abandonar o governo da petista - sua permanência, por aqui, foi questionada por apenas algumas vozes isoladas. O El País também lembra que o PMDB está atormentado por escândalos na justiça.

Insisto: não podemos ter a postura colonizada de achar que os estrangeiros é que conhecem nossas vidas e nossos problemas, mas não podemos deixar de saber o que eles estão pensando a nosso respeito. Até porque a credibilidade de um país e de suas instituições é fundamental neste, aí vale o chavão, mundo tão globalizado. Niguém investe numa república de bananas.

Para terminar: o correspondente Jens Glusing, do site da revista alemã Der Spiegel, escreveu que "o drama em torno da presidente é um vexame para um país afundado na crise". O portal Terra frisa que, segundo o jornalista, "o grande e orgulhoso Brasil terá que se resignar a, no futuro, ser citado por historiadores ao lado de Honduras e Paraguai - e não só por causa de apresentações bizarras de seus representantes populares. Também em Honduras e Paraguai, presidentes eleitos foram afastados de forma questionável do cargo." Para ele, o "espetáculo indigno" apresentado pelos políticos brasileiros "prejudicou de forma duradoura as instituições e a imagem do país".

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